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Tabus, Tretas e Troças

Slogan 'Vai Brasa!' já nasce morto e se apagando como a Seleção

Rejeição se soma a uma sequência de iniciativas recentes que buscaram sem sucesso construir uma identidade contemporânea para a equipe nacional

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Sílvio Tudela

30/03/2026 às 13:38 - há XX semanas
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A tentativa de criar um novo “grito de guerra” - o “Vai Brasa!” - estampado no uniforme da Seleção Brasileira nasceu com cara de campanha motivacional, mas rapidamente encontrou resistência. Soou estranho, deslocado, quase estrangeiro. Afinal, desde quando o Brasil é “Brasa”? Em termos de significado, o termo se refere a um pedaço de carvão, lenha ou material combustível que permanece incandescente (vermelho e muito quente) após o fogo, mas sem produzir chama. Em outras palavras, é algo que já queimou e apesar de perigoso, está se apagando. Não parece muito auspicioso.


					Slogan 'Vai Brasa!' já nasce morto e se apagando como a Seleção
Foto: @nikefootball

A reação do público, incluindo aí torcedores, atletas e cronistas esportivos, foi imediata e reveladora. Mais do que rejeição a um slogan, o incômodo escancara algo mais profundo: a dificuldade crescente de reconhecer a própria Seleção como um espaço de pertencimento. Quase tudo sobre ela é definido sem a participação do torcedor, que foi manifestar sua indignação nas redes sociais da Nike e da designer Rachel Denti e usou as suas próprias para criticar o “Vai Brasa!”.

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Durante décadas, essa conexão não precisava ser criada. Ela simplesmente existia. A Seleção era naturalmente a extensão das arquibancadas, dos clubes, das ruas. Os jogadores eram conhecidos, discutidos, defendidos, criticados. Havia identificação, havia vínculo, havia paixão. Hoje, parece somente haver tentativa de aproximação.

O “Vai Brasa!” não surge do nada. Ele se soma a uma sequência de iniciativas artificiais recentes que buscaram sem sucesso construir uma identidade contemporânea para a Seleção. Vieram as caxirolas, instrumento de percussão brasileiro criado por Carlinhos Brown como o instrumento oficial da Copa do Mundo de 2014, promovidas como símbolo de torcida e rapidamente abandonadas e proibidas. O mesmo ocorreu com o “Canarinho Pistola”, lançado em 2016 pela CBF como mascote oficial da Seleção Brasileira, após o vergonhoso 7 a 1, e que por um tempo teve alguma repercussão. Mas saiu de cena após diretrizes comerciais da FIFA definirem que ele não tem permissão para aparecer em jogos ou treinos oficiais na Copa do Mundo.

Em termos de uniformes, durante e após o processo de polarização política no Brasil, surgiram propostas de mudanças visuais que romperam com as tradições do manto verde-amarelo e azul, como a recente camisa vermelha, recebida com estranhamento e justificada pelos seus defensores como a cor da brasa, por remeter ao nome do Brasil. Agora, surgiu um slogan – o “Vai, Brasa!” - que tentou condensar emoção, mas não encontrou eco.


					Slogan 'Vai Brasa!' já nasce morto e se apagando como a Seleção
Foto: @nikefootball

Após toda a controvérsia que cercou a apresentação do uniforme da equipe nacional, Samir Xaud, presidente da CBF, logo se manifestou e vetou o uso da expressão na camisa. “Pelo respeito que eu tenho com a Seleção Brasileira, não tem 'Brasa' no nosso uniforme principal. Isso foi feito em relação à Nike para essa campanha publicitária isoladamente, mas deixo claro que o nosso uniforme é o nosso manto e é o verde e o amarelo, sempre deixo claro isso e não vai ter essa questão de 'Brasa'”, afirmou.

Identidades criadas

O problema do “Vai Brasa!” talvez não esteja na ideia, mas na origem. Até porque identidade não se cria por decreto, nem por campanha. Ela emerge. E, no caso da Seleção Brasileira, essa construção parece ter se rompido ao longo do tempo.

Dentro de campo, o distanciamento também se reflete e ficou evidente após o tropeço para a França e o abismo técnico e tático entre as duas equipes no amistoso desta Data FIFA. A Seleção Brasileira já não carrega o mesmo protagonismo de outras eras. Como apontou a jornalista Milly Lacombe, numa provocação que traduz o desalinhamento entre expectativa e realidade, talvez seja hora de esquecer o Hexa neste ano e tentar construir uma equipe mais robusta para 2030. Já o jornalista Juca Kfouri destacou uma mudança simbólica: com o passar dos anos, o Brasil deixou de ser favorito absoluto para se tornar apenas mais um candidato a levantar a taça.

A globalização do futebol afastou o torcedor dos jogadores. A maioria atua fora do país, em ligas que nem sempre fazem parte do cotidiano do público

brasileiro. Falta convivência simbólica, falta narrativa compartilhada. Falta, sobretudo, reconhecimento. Nesse vácuo, tenta-se criar atalhos. Um slogan. Um produto. Uma nova linguagem.

Mas o contraste do “Vai Brasa!” com o futebol de clubes é inevitável. Enquanto arquibancadas seguem criando, organicamente, seus próprios gritos (“Bora Bahia, Minha Porra”, “Nego” e “Vai Corinthians”, por exemplo), a Seleção parece buscar uma voz que já não sabe de onde vem. E talvez essa seja a questão central, porque se é preciso inventar um grito, é porque o antigo já não existe e nunca foi necessário. O “Vai Brasa!” não falhou apenas por soar artificial, mas porque revelou, sem querer, o tamanho da distância entre os que definem os rumos da Seleção (CBF, patrocinadores, fornecedores, mídia etc.) e o Brasil que não se resolve com palavras.

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