Voltamos ao tempo em que a Copa do Mundo não acontece no São João: veja como questão climática afetará os atletas


Foto: Reprodução

Nem sempre foi assim, mas desde 1974, a cada quatro anos, as luzes das festas juninas se misturam com as bandeirolas verde-amarelas. Na última vez em que o torneio ocorreu sem o São João no meio, o Brasil conquistou seu Tricampeonato Mundial, em 21 de junho de 1970, no México.

Nesta época em que estamos nos deliciando com a culinária junina, os tradicionais licores ou quentões e as fogueiras das festas de São João, éramos para estar completamente envolvidos pelo clima de Copa do Mundo. Mas, em 2022, o Mundial ainda está a praticamente cinco meses de seu início – e tudo por uma razão climática.

Desde que tiveram início, há quase 100 anos, as Copas do Mundo começavam no finalzinho da primavera ou no início do verão do hemisfério norte. Em 21 edições, o Mundial só foi realizado em países vivendo o inverno no Uruguai (1930), Brasil (1950 e 2014), Chile (1962), Argentina (1978) e África do Sul (2010). A Copa do Mundo do Qatar será a primeira a ser realizada completamente no outono do hemisfério norte, entre 21 de novembro e 18 de dezembro. Para nós, será primavera.

Mesmo já se sabendo que dias extremamente quentes de verão podem interferir no desempenho dos atletas, disputar uma Copa do Mundo no deserto ainda é uma incógnita. Entre junho e julho, as temperaturas no Qatar atingem facilmente os 45°C e podem chegar até aos 50°C. Há também, nesta época, um vento forte com rajadas e tempestades de areia. Em Doha, a capital, a temperatura máxima média, em junho, é de 42ºC. E em novembro consegue ser um pouco mais branda, em torno de 30ºC, o que já é alto.

Foto: FIFA / Divulgação

Apesar dos investimentos multibilionários para que a XXII Copa do Mundo funcione perfeitamente e a ponto de não comprometer esportivamente o resultado dos jogos, o Qatar precisou apostar em tecnologias que permitem sistemas de refrigeração de ar-condicionado nos estádios, com o objetivo de derrubar a temperatura no gramado e que permitem ajustá-la em certos setores das arenas.

A fim de diminuir os efeitos impraticáveis do calor do deserto, alguns estádios terão a parte externa toda pintada em branco para refletir mais luz solar e diminuir a temperatura. Nas ruas próximas aos estádios, as vias estão tendo o asfalto escuro substituído por um azul-claro para absorver o calor.

As temperaturas excessivas nos jogos das Copas do Mundo representam uma preocupação muito antiga, mas nem sempre foram levadas em conta pela Fifa para obter o melhor rendimento e o bem-estar dos atletas. Em 1970, no México, os organizadores programaram jogos ao meio-dia, a fim de satisfazer o fuso horário europeu, e desconsideraram também as questões de umidade e altitude.

Na mesma América do Norte, nos Estados Unidos, em 1994, a “sauna” das cidades-sede novamente foi duramente criticada, mas a entidade organizadora do evento se justificou afirmando que os jogos com o sol a pino não afetaram, por exemplo, os rendimentos de Pelé (1970) e de Maradona (1986) nas edições disputadas ali ao lado, no México. Em alguns jogos, nem torcedores foram poupados e houve muitos que terminaram na enfermaria do estádio ou hospitais.

Apesar de realizada no inverno brasileiro, país que tem temperaturas extremamente contrastantes de norte a sul, a Copa de 2014 trouxe, por exemplo, o clima sufocante de Manaus, o qual chegou a ser rotulado de infernal pelos atletas. O empate em 2 a 2 entre Estados Unidos e Portugal, na Arena da Amazônia, sob um calor de 30º C e 66% de umidade, entrou para a história como o primeiro jogo em que a arbitragem precisou fazer uma pausa técnica, a já famosa “parada da aguinha”.

Mas nem todas essas situações desconfortáveis e extenuantes ocorreram no continente americano. O verão europeu também provocou diversos momentos de interferência no esporte, apesar dos jogos serem realizados em horários mais dignos para os atletas e de acordo com os interesses da audiência e dos patrocinadores.

Apesar do calor ser sempre o citado como o grande vilão em termos de clima, é curioso que o primeiro gol da história das Copas, em 13 de julho de 1930, entre França (4) e (1) México e assinalado por Lucien Laurent, tenha ocorrido num dia em que nevou em Montevidéu.

Enfim, se os atletas terão que jogar a Copa do Mundo em pleno outono quentíssimo no deserto do Qatar, nós, pela primeira vez, iremos torcer na primavera e às vésperas do verão, com um clima que até será bem parecido com o da sede estrangeira! Que a coincidência nos traga sorte e o Hexa!

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