Natal

Sem renas e trenó: conheça a vida dura do Papai Noel de shopping

Durante uma hora, contamos 180 crianças chegando até ele; e ele tem trabalhado em dobro

Alexandre Lyrio (alexandre.lyrio@redebahia.com.br)



(Foto: Arisson Marinho/ CORREIO)


O ar-condicionado não ajuda. Entre uma criança e outra, Papai Noel usa as próprias luvas para absorver o suor da testa. Os cabelos da nuca estão molhados. A multidão no shopping se multiplica, a fila cresce, as horas não passam, a barba coça. Vida de ‘bom velhinho’ é muito mais dura do que a maioria acredita.

No mundo da fantasia, ele voa de trenó mágico puxado por renas, trabalha só uma noite por ano e come do bom e do melhor. Na vida real, anda de buzu, trabalha dobrado por dois meses e almoça de quentinha. Quem poderia imaginar Papai Noel, esgotado, escondido em uma sala de um shopping, devorando às pressas um picadinho de carne com salada semifrio? Flagramos a cena no Shopping Piedade, na antevéspera do Natal. 




(Foto: Arisson Marinho/ CORREIO)


Estava no seu descanso de almoço, após seis horas seguidas acomodando crianças em seu colo. Vendedor de recarga de celular no resto do ano, Gelson José da Silva, 54 anos, está em uma sala improvisada de camarim, ao lado da garagem do Shopping Piedade, no Centro. Ele conta que nos últimos dias vem sofrendo com dores nas pernas. “Fico muito tempo sentado na mesma posição. As pernas doem o dia todo. Na madrugada vem a dor nos pés por causa da botina”, reclama. Ontem, foi o último dia de trabalho e hoje ele pretende descansar.  

Ultimamente, Papai Noel tem dormido, no máximo, cinco horas por noite. A rotina puxada é resultado de uma jornada dupla de trabalho. No Piedade, vai das 9h às 22h. “O Papai Noel do outro turno teve que ir embora. Me perguntaram se eu podia ficar dobrando e eu topei”, conta Gelson, preocupado com o relógio. Lá fora, a fila começa a se formar novamente. É hora de voltar ao trono, distribuir sorrisos e promessas. 




(Foto: Arisson Marinho/ CORREIO)


Durante uma hora, contamos 180 crianças chegando até ele. Numa progressão simples, como está trabalhando em dobro, mais de 2 mil crianças - e centenas de adultos - sentam no colo do Papai Noel do Piedade todos os dias. Gelson chega no shopping depois de pegar dois  - às vezes três - ônibus. Mora em São Caetano. No final da tarde, outro descanso. Meia hora. 

É quando Papai Noel abre seu saco. Não de brinquedos, mas do Bompreço. Dentro, o lanche. Um pacote de biscoito Pit Stop e uma Coca-Cola “pithula” na temperatura ambiente. “Se ao menos estivesse no Polo Norte. Aqui não tem frigobar”. Depois, Noel pede licença. Vai tentar tirar um cochilo sentado mesmo. Puxa uma cadeira para esticar a perna e curte uma sesta pós lanche. 




(Foto: Arisson Marinho/ CORREIO)


Retorna novamente para as crianças e, após o expediente, se dirige para o ponto de ônibus na Estação da Lapa. Só consegue dormir depois de meia-noite. “Chegando em casa, ainda tenho que lavar as luvas”, lembra.  Mas, em se tratando de condução, nenhum Papai Noel desejaria mais um trenó que o bom velhinho do Shopping Barra. Aécio Lopes da Silva, 61, mora na outra ponta da cidade, em Itapuã.

Pega o ônibus duas horas antes de pegar no batente. “O pior de tudo é essa distância. Muito cansativo”, disse ele, que no dia a dia é supervisor em uma empresa de dedetização. No almoço, o mesmo esquema: quentinha. “Mas pelo menos o shopping libera que esquente no forno de um dos restaurantes”. Aécio adora o trampo. “É uma energia muito boa”. Mas admite que o serviço é dureza. “O pessoal não larga do nosso pé nem quando a gente vai no banheiro”.  




(Foto: Arisson Marinho/ CORREIO)


Aécio é simpaticíssimo com as crianças. Até com as que não se comportam. “Tem muita criança mal-educada. Na verdade, criança que não tem limite. A culpa é dos pais, né?”. Nesse momento, um adolescente de uns 16 anos quis fazer gaiatice. Daquele tamanho, fez menção de sentar no colo de Aécio. Papai Noel fez cara de sério e tirou de tempo. “Pô, aí não precisa, né?”. O jovem recuou. “Tá vendo? A gente tem que ficar controlando isso tudo. Molequeira eu não gosto”, nos disse Noel. A bronca maior é com os adultos. Fazem pedidos mirabolantes. “Tem mulher que pede marido. E, ainda por cima, rico”. Pior: muitos são uma má influência para os pequenos. “Não ajudam para que a magia do Natal seja mantida. Empurram a criança para Papai Noel e jogam a responsabilidade toda em mim. Isso me chateia. Deixa a gente de calça curta”.

Correio24horas