'Imortal'

Relembre discurso de Gilberto Gil ao se tornar 2º negro imortal da Academia Brasileira de Letras: ‘É preciso resistir sempre’

Artista é também o primeiro representante da música popular do Brasil da casa criada por Machado de Assis

Mayra Lopes
25/06/2022 às 7h00

7 min de leitura

Sagaz, paciente e certo da missão que iria ocupar. O dia 8 de abril de 2022, data em que Gilberto Passos Gil Moreira, o baiano Gilberto Gil, ocupou a cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras (ABL), já está na história do país. A cerimônia realizada no Rio de Janeiro foi munida de beleza e reconhecimento.

Ser imortal aos quase 80 anos e, acima de tudo, se tornar o primeiro representante da música popular do Brasil e o segundo negro na composição atual dos imortais da ABL, traz a esperança e revela uma potência já trazida, em diversos momentos, pelo artista ao longo de toda a sua carreira. Desde cedo, Gil mostrou interesse por música e por assuntos que englobam a sociedade. E a posse na ABL é reflexo dessa participação ativa.

O dia da posse

O evento contou com uma vasta lista de convidados e toda a cerimônia foi transmitida ao vivo pelas redes sociais da ABL. Todos estavam atentos às palavras do novo acadêmico. Gilberto Gil foi conduzido para dentro do Salão Nobre do Petit Trianon por Antônio Cícero, Nélida Piñon e Rosiska Darcy e Oliveira; e na sequência, recebido pelo acadêmico Antônio Carlos Secchin.

O púlpito foi assumido por volta das 21h30 e, para iniciar a fala, o discurso foi direcionado ao “Sr. Presidente da Academia Brasileira de Letras, Acadêmico Merval Pereira”, à “Sra. Secretária Geral da Academia Brasileira de Letras, Acadêmica Nélida Piñon”, aos “Sras. e srs. Acadêmicos”, aos “amigas e amigos aqui presentes”, e a “meus filhos, meus netos… e Flora”.

O colar, espada e diploma – que oficializa a posse – só foram entregues após a fala de cerca de 40 minutos. O colar foi recebido das mãos da atriz Fernanda Montenegro, a espada pelo escritor Arnaldo Niskier e por fim o diploma, que veio através do cineasta Cacá Diegues. O poeta e ensaísta Antônio Carlos Secchin discursou por pouco mais de 45 minutos, e apresentou uma homenagem também a Flora, esposa e empresária de Gil.

Uma cerimônia festiva foi realizada ao final do evento oficial, com drinks e quitutes típicos da cozinha baiana. A família de Gil estava presente e o artista, segundo a ABL, recebeu os cumprimentos de mais de 200 pessoas.

O discurso

Na prática, foram necessários 54 anos para que Gil vestisse o próprio fardão nessa missão honrosa. Isso porque anteriormente, em 1968, ele usou a veste alugada para tirar uma foto do álbum homônimo lançado no auge da Tropicália. Na época, e descrito no discurso, ele escreveu um poema criticando a academia, porém, mal sabia o multi-instrumentista e também escritor do que o destino lhe reservava.

Já nas primeiras palavras palavras do discurso, o músico evidenciou os que ocuparam a cadeira dele em outrora, mas também trouxe a clareza sobre os fatos e, claro, críticas sobre comportamentos vivenciados e presenciados por muitos brasileiros nos cenários sociais, culturais e políticos.

Poucas vezes na nossa história republicana o escritor, o artista, o produtor de cultura, foram tão hostilizados e depreciados como agora. Há uma guerra em prol da desrazão e do conflito ideológico nas redes sociais da Internet, e a questão merece a atenção dos nossos educadores e homens públicos. A ABL tem muito a contribuir nesse debate civilizatório. E eu gostaria, aqui, de colaborar para o debate, em prol da cultura e da justiça.

disse Gilberto Gil

A fala assertiva foi aplaudida por todos os convidados. Desde o patrono da cadeira – o médico e jornalista Joaquim Manuel de Macedo – até o antecessor mais recente – o jornalista Murilo Melo Filho – , Gil fez uma análise detalhada dando destaque às vivências e momentos deixados como legado pelos ocupantes da vaga.

A sutileza das palavras em cada momento histórico encaminhou até a jornada do cantor, que viveu no interior da Bahia na infância até a chegada em Salvador. As críticas e os posicionamentos, que são particulares do músico, também foram trazidas por ele, mas com um toque à medida que a cerimônia oportunizava. Humildemente, Gilberto Gil partilhou de questionamentos brasileiros atuais e que ainda não possuem respostas.

“Nascido em Salvador, passei a minha infância em Ituaçu, no interior do Estado. Contemplo desta tribuna o menino que fui e me espanto. A curiosidade e algumas interrogações daquela época permanecem vivas em mim…. O que será do Brasil em meio a esse mundo de pandemias e guerras? Que destino aguarda a Amazônia? O que os políticos estão fazendo para acabar com a fome e o analfabetismo? Quando conseguiremos alcançar a tão sonhada independência científica e tecnológica? Até quando o Brasil será o “país do futuro” de Stefan Zweig? Não tenho respostas ou verdades consolidadas, nem sei se as terei um dia.

pontuou Gil

Na parte final, homenagens ao filho Pedro Gil – in memoriam – e a toda a família foram feitos. Mas, como bom baiano, ele deixou sua marca ‘estreando’ na academia finalizando com música e claro com a esperança de dias ‘mais claros’. Até porque, como disse Gil em seu discurso: É preciso resistir, sempre’.

“Apesar dos tempos politicamente sombrios que vivemos, aposto na esperança, contra a treva física e moral, que haja ao menos a chama de uma vela, até chegarmos, a toda luz do luar. Permitam-me recordar: ‘Se a noite inventa a escuridão, a luz inventa o luar, o olho da vida inventa a visão, doce clarão sobre o mar…’ Essa é nossa aposta na vida e na alegria.… Aos que me ouviram aqui, e aos que acompanham essa cerimônia pela internet, aquele abraço, e muito obrigado!

finalizou, Gil.

A eleição

Eleito em 11 de novembro de 2021 – com 21 votos a favor e 7 contra – o cantor e compositor baiano passou a ocupar a cadeira de número 20 da ABL, que pertencia ao jornalista Murilo Melo Filho, falecido em 27 de maio de 2020. O antecessor foi advogado, escritor e um dos grandes jornalistas brasileiros da segunda metade do século XX. 

Os outros dois concorrentes para a imortalidade foram o poeta Salgado Maranhão e o escritor Ricardo Daunt. Os acadêmicos participaram da votação de forma presencial e/ou virtual, sendo que um deles não votou por motivo de saúde.

Os ocupantes anteriores da cadeira 20 foram Joaquim Manuel de Macedo (patrono), Salvador de Mendonça (fundador), Emílio de Meneses, Humberto de Campos, Múcio Leão e Aurélio de Lyra Tavares. Na ocasião, o presidente da ABL, Marco Lucchesi, lembrou de uma metáfora oportuna do sociólogo, escritor e político brasileiro Darcy Ribeiro para se referir ao novo imortal da instituição.

“Para Darcy, o pássaro da cultura tinha duas asas. Uma delas era erudita e a outra popular. Para que o pássaro possa voar mais longe, ele precisa das duas asas. Certamente, Gilberto Gil é esse traço de união entre a cultura erudita e popular”.

disse Lucchesi

Confira a cerimônia completa abaixo

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