Paixão de Carnaval

Filho de José, filho de Claudina e Filho de Gandhy: a paixão de Gilberto Gil pelo tapete branco do Carnaval

Nos 80 anos do artista, falar de sua trajetória sem pontuar uma de suas grandes paixões é como ignorar uma parte de sua vida

Bianca Andrade
26/06/2022 às 6h30

5 min de leitura
Foto: Sayonara Moreno/Agência Brasil

“Omolu, Ogum, Oxum, Oxumaré, todo o pessoal manda descer pra ver Filhos de Gandhi…”

O cheiro de alfazema no ar e o toque do atabaque e do agogô anunciam, o Afoxé Filhos de Gandhy está entrando na avenida para formar o maior e mais belo tapete branco dos Carnavais.

E no meio da massa humana na avenida, formada por milhares de associados, está lá o primeiro filho de José Gil Moreira e Claudina Passos Gil Moreira, que também é Filho de Gandhy, Gilberto Passos Gil Moreira.

Nos 80 anos do compositor, multi-instrumentista, produtor musical e político brasileiro, falar de sua trajetória sem pontuar uma de suas grandes paixões é como ignorar uma parte de sua vida.

A história de amor de Gilberto Gil com a agremiação começa ainda na infância. O cantor tinha 7 anos quando o Afoxé Filhos de Gandhy foi fundado e em sua cabeça as lembranças de ver o tapete branco desfilar, na época de forma modesta, mas não menos bonita, é tão fresca quanto a borrifada de Alfazema.

No início deste ano, Gil relembrou os primeiros passos ritmados ao som do afoxé dado pelos associados em sua fundação, com desfile no bairro de Santo Antônio, em Salvador.

“Começou a sair em 49, quando eu tinha sete anos. Os integrantes passavam pela porta de casa no bairro de Santo Antônio, todos de branco, com turbantes e lençóis, palhas de alho trançadas e fita na cabeça, e com um toque que era diferente do samba, da marcha, do frevo, dando uma sensação de espaço sagrado”.

Da infância para a juventude, muita coisa mudou. Não só na vida de Gilberto Gil, que ganhou o Brasil com sua música e ao mesmo tempo precisou deixar o país que havia conquistado por causa da ditadura militar, como para o bloco, que aos poucos foi se descaracterizando.

Em sua homenagem, Gil relembra o quanto foi doloroso chegar ao país em 1972, após um período de exílio em Londres, para acompanhar o Carnaval da Bahia e perceber que os Filhos de Gandhy do plural quase se tornou singular.

“Chegado de Londres, em 72, eu fui passar o carnaval na Bahia. Encontrei o Afoxé Filhos de Gandhy sem massa humana na avenida, reduzido a apenas uns quarenta ou cinquenta na Praça da Sé. (…) Eu tinha veneração pelo Gandhy, e ao revê-lo numa situação de indigência, me deu uma dor seguida de um arroubo de filialidade, de amor de filho, arrimo de família”.

A paixão falou mais alto no peito de Gil, que resolveu se associar ao bloco e ser mais um dos foliões vestidos com o lençol, o turbante, as meias e sandálias, as faixas e flâmulas, os colares e a alfazema em uma mão.

“Onde vai, papai ojô, vou depressa por aí vou fazer minha folia com os filhos de Gandhy”

Para o artista, esta seria uma forma de ajudar a manter a tradição viva e resgatar aquilo que foi uma de suas maiores e melhores lembranças da infância. Desta forma, Gil se tornou uma das partes mais importantes do Gandhy ao ajudar a reerguer o bloco.

Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal

“Resolvi dar uma força. A primeira coisa que fiz foi me inscrever no bloco, para “engrossar o caldo”. Depois fiz a música, e continuei saindo – saí treze anos seguidos. As fileiras foram aumentando e o Gandhy se recuperando. Os jovens ficaram entusiasmados com minha presença, e os velhos se sentiram mais estimulados a trabalhar”.

Ao longo dos 13 anos em que desfilou como associado aos Filhos de Gandhy, Gilberto Gil se tornou uma atração a parte no bloco, mas em sua passagem, o artista fazia questão de se manter discreto para deixar a beleza do Afoxé falar mais alto.

Em 2017, o esforço feito pelo cantor para ajudar os Filhos de Gandhy nos anos 70 foi novamente reconhecido, desta vez em forma de tema do bloco no Carnaval.

Foto: Reprodução/ Filhos de Gandhy

Ao ser entrevistado na época da homenagem, Gil foi modesto: “A homenagem não é tão importante, o importante é estar no Gandhy. Ele é Bahia, África, Brasil, é uma mistura de coisas que formaram e formam a vida brasileira, o povo brasileiro. O Gandhy é isso”.

A tradição passou de pai para filhos e netos, entre eles Francisco Gil, filho de Preta Gil, que já chegou a desfilar com os Filhos de Gandhy.

“Quando eu tô no Gandhy, eu gosto do canto e da dança do ijexá. Aí eu me sinto parte integrante, molécula, partícula de uma coisa grande que é o canto e a dança da Bahia, o canto e a dança que vieram da África, a tradição do Candomblé. É um momento insubstituível. Têm muitas outras coisas boas na vida, mas tocar seu agogô ali na avenida não dá nem pra falar”, declarou o artista em 2019 nos 70 anos do bloco.

No último Carnaval, em 2020, o veterano acompanhou a passagem do Gandhy de cima do Camarote Expresso 2222, na Barra. O artista foi saudado pelo grupo ao parar em frente ao espaço.

“Oh, meu pai do céu, na terra é Carnaval. Chama o pessoal. Manda descer pra ver Filhos de Gandhy”

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