Mães atletas

Baianas relatam como é conciliar carreira e maternidade 

Mulheres que vivem do esporte, entre treinos, competições e viagens, carregam uma dúvida - e pressão - ainda maior em relação à maternidade, tanto pela mudança no corpo quanto pela rotina

Cláudia Callado
08/05/2022 às 11h00

8 min de leitura

A maternidade é um assunto que faz parte da vida de todas as mulheres. Seja daquelas que decidem não ser mães, daquelas que têm filhos sem planejar ou de quem não sabe o momento certo de ter. Esse planejamento passa, em muitos casos, sobre a implicação na carreira. E para quem depende do próprio corpo para trabalhar, a decisão ganha ainda mais peso.  

Joana Zachariadhes é mãe de um menino de seis anos e lutadora de jiu-jitsu / Foto: Reprodução / Instagram

Esse é o caso de atletas. Mulheres que vivem do esporte, entre treinos, competições e viagens, carregam uma dúvida – e pressão – ainda maior em relação à maternidade, tanto pela mudança no corpo quanto pela rotina.   

No caso da lutadora de jiu-jitsu e personal training Joana Zachariadhes, de 33 anos, durante toda a gravidez ela se dedicou para manter os treinos. A atleta se manteve na ativa até às 40 semanas de gestação, vésperas do nascimento do seu filho Heitor Gabriel, hoje com seis anos. 

“Quarenta e cinco dias depois da cesariana, voltei para musculação e três meses depois, voltei para o jiu-jitsu. Com 10 meses do meu filho, fui campeã baiana”, contou. 

Diferentemente da colega, a lutadora Mirelle Guimarães não teve todo esse planejamento. Aos 39 anos e com uma gravidez recém-descoberta, ela precisou recalcular a rota.  

Mirelle descobriu a gravidez aos 39 anos / Foto: Reprodução / Instagram

Atleta desde os 11 anos, Mirelle já se destacou na quadra – quando era atleta de vôlei – e também na luta, já tendo praticado jiu-jitsu, muay thai, MMA, boxe e kickboxing – modalidade que disputa atualmente.  

Tanto tempo de carreira fez com que Mirelle cansasse da rotina exaustiva de treinos e restrições, e há três anos diz que vai se aposentar. No entanto, a gravidez e um patrocínio maior fizeram com que ela mudasse de ideia em prol de um objetivo: disputar o título mundial. 

“A obrigação me cansa porque fiz isso a vida inteira. Mas o surgimento do patrocínio me deu uma animação. Aí veio a gravidez e a obstetra suspendeu meus treinos nos três primeiros meses (12 semanas) por causa da minha idade”, relatou. 

“Eu tive que parar um pouquinho. Mas espero voltar ano que vem, com o patrocínio, e disputar o mundial”, planeja.  

Mãe atleta

Na vida de Verônica Almeida e Chinthia Kelly Aguiar a maternidade veio antes da carreira de atleta. Quando se tornou mãe, Verônica não competia profissionalmente. Três anos após ter um casal de gêmeos, que hoje tem 17 anos, ela foi diagnosticada com uma síndrome degenerativa e precisou enfrentar seu maior desafio. 

Verônica Almeida é medalhista paralímpica / Foto: Reprodução / Instagram

Formada em educação física, ela já nadava, mas não era uma atleta de ponta. Ao virar cadeirante por conta da doença, Verônica recebeu uma recomendação médica: era preciso manter o coração na ativa, ou seja, fazer atividade física. 

“Não podia mais correr, então pensei em algo que poderia fazer e voltei a nadar. Hoje pratico um nado adaptado, com apenas o braço esquerdo, por conta da síndrome”, contou. 

Esse foi só o começo do esporte na vida de Verônica. Ela já foi convocada para a seleção paralímpica, se tornou medalhista paralímpica em 2008 em Pequim, além de ter chegado nas finais em 2012, em Londres e 2016, no Rio.  

Verônica ainda conquistou o feito de colocar seu nome no livro dos recordes. “Meu sonho era conseguir fazer algo que nunca consegui fazer. Eu fiz a travessia Mar Grande-Salvador (13km de nado borboleta). Entrei como a mulher mais rápida do mundo”, contou. 

Já Cinthia Kelly descobriu a paixão pelo jiu-jitsu através do marido, que sempre praticou a luta. Depois de muita insistência, a técnica de análises clínicas de 44 anos, começou a treinar há dois anos.  

Mãe de dois filhos, de 23 e 25 anos, Cinthia se juntou ao marido para dar aulas de jiu-jitsu no condomínio em que moram. A programação se tornou familiar, já que os filhos também praticam o esporte. 

Cinthia Kelly começou a treinar jiu-jitsu há dois anos / Foto: Arquivo Pessoal

Superando estigmas

Quando Verônica se tornou uma nadadora profissional, seus filhos tinham três anos. Junto com a nova carreira, também surgiram comentários sobre como ela conseguiria conciliar as duas “atividades”: no esporte e na maternidade. 

“É muito complicado ser mãe e esportista por causa da ausência. Quando um jogador começa a mudar de clube e viajar, todo mundo diz que ele cresceu. Quando é mãe, é rotulada. Eu fui rotulada por deixar meus filhos”. 

A nadadora diz que ouviu que seus filhos cresceriam sem ela e que sentiriam falta da mãe. “Meus filhos cresceram sendo meus primeiros e maiores apoiadores e nunca pensaram da forma que as pessoas falavam”, completou. 

Durante a gravidez, Joana também ouviu julgamentos. As pessoas opinaram sobre seu treino, sobre o tempo de retorno e até mesmo sobre sua barriga. 

“Teve comentários de que me recuperei rápido, disseram que eu era louca, porque não parei o treino. Minha barriga só foi crescer mais para o final da gestação e disseram que eu estava comprimindo meu bebê. Mas eu sou formada em educação física e tinha acompanhamento médico. Sabia o que estava fazendo”, relembrou. 

“Filho de peixe, peixinho é”

Como em qualquer profissão, surge a expectativa de os filhos seguirem as carreiras dos pais. No caso do filho ou filha (o sexo ainda não foi descoberto pelos pais) de Mirelle, ela acredita que ele não vai ter “para onde correr”. 

Já Joana acredita que o filho de seis anos também tem aptidão para luta. “Ele faz capoeira desde os dois anos. Sempre que vou para o treino ele vai como e adora. Este ano, quero colocá-lo em uma academia”. 

Relembre outras atletas de ponta que conciliam a maternidade com a carreira: 

Jaqueline Carvalho 

A campeã olímpica de vôlei é também mamãe de Arthur, de 7 anos, fruto de seu relacionamento com o também jogador da modalidade, Murilo Endres. 

Ela se manteve na ativa mesmo após a maternidade e após o nascimento do filho conquistou o décimo título do Grand Prix e a medalha de bronze no Mundial da Itália com a Seleção Brasileira. 

Juliana Veloso 

Atleta do salto ornamental, a carioca é mãe de dois meninos: Pedro e Tiago. 

Após ter seus pequenos, Juliana competiu nos Jogos Olímpicos Rio 2016, ficando em oitavo lugar na classificação do trampolim sincronizado. 

Camila Brait 

Vice-campeã olímpica, Camila jogou na final da Superliga grávida, em 2017, e meses depois nasceu sua filha, Alice. 

Após o nascimento da filha, foi cortada da seleção para as Olimpíadas do Rio em 2016. A jogadora retornou à Seleção em 2019. 

Cristiane 

Uma das maiores jogadoras do futebol brasileiro, Cristiane é casada com a advogada Ana Garcia e as duas são mães do Bento. Em suas redes sociais, a jogadora compartilha sua rotina de treino, a maternidade e a vida da família. 

Fabiana Claudino

A bicampeã olímpica de vôlei parou sua carreira por um tempo para assumir o seu maior desafio: ser mãe do pequeno Asaf. O bebê é fruto do casamento de Fabi com o cantor Vinícius de Paula. Vinícius é filho do cantor Netinho de Paula.

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