Pronto para adotar apenas um bebê, casal gay assume paternidade de irmãos e decisão muda vida dos quatro: ‘Nossa família estava ali’


Foto: Reprodução/Instagram

A paternidade sempre foi um sonho para Paulo, de 39 anos, e Tiago, de 41. A adoção o único meio viável. O que eles não sabiam é que acabariam se tornando pais de dois. O casal imaginava menos ainda que uma dessas crianças daria a ideia daquilo que se tornou a principal fonte de renda da família. Mas tudo isso aconteceu, e as vidas dos quatro mudaram.

A família Pessoa Tardivo, como é conhecida nas redes sociais, começou 11 anos atrás, quando Tiago e Paulo se conheceram na cidade de São Paulo. Naturais da Bahia e do Paraná, respectivamente, os dois se viram pela primeira vez no carnaval de 2011, mas o contato inicial havia acontecido pouco tempo antes.

Tiago conta que, na época, os dois tinham acabado de chegar na capital paulista e buscavam pessoas para dividir apartamento. Um amigo em comum colocou eles em contato e chegaram a trocar mensagens, mas nada aconteceu. Somente após se “esbarrarem” que o amor fluiu.

Era domingo de carnaval, os dois tinham trocado mensagens no extinto MSN e combinaram de se encontrar na festa. No entanto, Tiago acabou fechando a página da conversa sem salvar o contato de Paulo e os dois ficaram incomunicáveis na rua. Coube ao destino colocar um no caminho do outro.

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“Era umas 6h, na hora de ir embora, eu vi um menino bem bonito encostado, e meus amigos comentando sobre ele… e eu fui lá falar. Fui, beijei esse menino, troquei contato e fui embora. Depois, a gente descobre que esse menino era o que eu falei à tarde, que era o Paulo. Tinha que ser”, lembra Tiago.

Passados 15 dias, o namoro começou e foi amadurecendo no casal o desejo de formar família. Sete anos depois, Tiago e Paulo decidiram que era hora de realizar o sonho de ser pai. Foi em 2018 que eles deram entrada no pedido de adoção.

“A gente entendeu que a nossa relação estava madura e poderia abrigar filhos. A adoção é uma coisa muito séria. As crianças já vêm com uma história e a gente tem que ter essa reponsabilidade de não entrar em uma relação com essas crianças que essa família fosse se quebrar, com um terreno não tão sólido. Essa foi nossa primeira preocupação”, contou Paulo.

Pouco tempo depois, acabou surgindo o Davi. O pequeno era recém-nascido e morava em um abrigo da cidade de Itapipoca, no interior do Ceará, com a irmã mais velha, Sara, que tinha 5 anos. Algo que Tiago e Paulo só descobriram quando chegaram ao município para conhecer Davi.

Ao saber que o bebê tinha uma irmã, os dois se assustaram e chegaram a cogitar desistir da adoção, mas foi amor à primeira vista e tudo passou a mudar.

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“No primeiro momento, a gente se assusta, porque a gente não tinha se preparado financeiramente e emocionalmente para ter dois filhos. Mas aí, logo em seguida, a Sara vem chegando da escola, a gente conhece a Sara e rola uma sintonia muito forte entre nós quatro. Entendemos que a nossa família estava ali. Entendemos que a gente não estava ali à toa”, falou Tiago.

Após o primeiro contato, o casal deu entrada no pedido de adoção dupla e continuou voltando ao abrigo para visitar os irmãos. Os dois lembram que no início foi um mês com visitas diárias, mas acabaram precisando voltar para São Paulo e a saudade era matada por chamadas de vídeo semanais.

A adoção só foi liberada alguns meses depois, já em 2019. Por coincidência, ou não, era carnaval. Paulo e Tiago tinham 5 dias para voltar para o Ceará e passar por mais um período de adaptação até que, em abril desse mesmo ano, Davi e Sara chegaram na casa da família e duplicaram não só o número de pessoas morando lá. Cresceram as responsabilidades, os cuidados e, a cada dia, o amor.

“Na quinta-feira de cinzas [termo usado por Paulo para se referir à quinta-feira após a quarta-feira de cinzas], pós-carnaval de 2019, a gente recebe a ligação da advogada, dizendo que a gente conseguiu a guarda e que a gente tinha 5 dias para comparecer no Ceará novamente, para uma nova adaptação, para retornar com eles. Esse dia foi o dia mais feliz das nossas vidas”, lembrou Paulo.

Salvação na crise

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Na época, Paulo e Tiago, que são atores, eram proprietários de um teatro localizado na Rua Augusta, em São Paulo. No entanto, após o início da pandemia de Covid-19 no país, no começo de 2020, eles precisaram fechar o estabelecimento em meio à crise.

Com as contas chegando e a casa cheia, o casal buscou alternativas para quitar as dívidas. A primeira delas foi produzir e vender bolos sob encomenda. Mas foi uma brincadeira com Sara, a pedido dela, que transformou a família em influenciadores digitais.

“A gente se viu sem renda e dentro de casa com dois filhos, e recém-pais. E aí, nesse tempo ocioso em casa, a Sara pedia muito para fazer vídeos na internet. O Tiago tinha o perfil dele no TikTok e falou que iria fazer uns vídeos de brincadeira com a Sara. E uma trend viralizou. Uma que só era feita por pais hetéros, onde a criança decidia qual pai é mais legal, qual pai come mais, qual pai dá mais bronca… então, a gente fez essa trend com a Sara e causou uma impressão por serem dois homens e a Sara no meio escolhendo entre os pai”, disse Paulo.

Desde então, o número de seguidores dos perfis da família nas redes sociais só cresce. São mais de 140 mil pessoas acompanhando as postagens deles somente no Instagram. No TikTok, o número ultrapassa 630 mil. O principal assunto é a paternidade homoafetiva, que é retratada com muito humor. Mas também há assuntos sérios.

Paulo conta que o objetivo do casal é mostrar que a família deles também existe e que não está sozinha. Ela não é igual a família tida como padrão pela sociedade, onde os pais são um homem e uma mulher heterossexuais e cisgêneros (termo utilizado para se referir a quem se identifica, em todos os aspectos, com o gênero que nasceu; que não é trans), no entanto, é muito real e passa pelos mesmo processos de paternidade.

“A gente tenta, dentro da rede social, mostrar a nossa naturalidade enquanto família. A minha família é igual a sua. Ela tem uma formação diferente, mas ela passa pelos mesmos perrengues”, conta Paulo.

Para a família, o combate ao preconceito por meio do conhecimento é diário. Pauta que tem rendido repercussão dos internautas ao longo dos anos. Em sua maioria, mães de pessoas LGTQIAPN+ e outros gays, que admiram e se inspiram no amor que existe na relação entre Paulo, Tiago, Davi e Sara.

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“A gente não escolheu trabalhar com isso. A gente não projetou. Ela aconteceu de forma orgânica e espontânea. E aí, depois disso, a gente entende da relevância que isso tinha, da referência para várias pessoas. É muito doido como os nossos filhos mais uma vez mudam as nossas vidas, porque hoje a rede social é a nossa primeira fonte de trabalho, nossa primeira fonte de renda, e quem teve toda essa ideia foi a Sara. Como esse encontro de nós quatro foi promissor para todos nós”, reflete Tiago.

Preconceito

Em meio à repercussão positiva, o casal também lida com o preconceito nas redes sociais. Paulo e Tiago contam que, da mesma forma que as mensagens positivas chegam, eles também já foram vítimas de homofobia, por meio de pessoas que quase sempre usam perfis falsos, sem identificação, para fazer ataques.

Os comentários vão de críticas à família, por ser formada por um casal homoafetivo, a até coisas mais graves, que já levaram Paulo e Tiago a pensar em procurar a Justiça.

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“A internet é o lugar onde essas pessoas se manifestam, porque geralmente elas não têm um rosto. Elas não têm uma foto de perfil, elas não têm um perfil verdadeiro. Essas pessoas não têm cara na internet e elas usam disso para agredir. Algumas dessas agressões são muito graves. A gente já até pensou em procurar a Justiça”, contou Paulo.

O casal explica que a preocupação não é somente com eles. É algo que vai além, e que passa pelas crianças e por outros gays, que têm os dois como modelo.

“Não pela gente, mas é que enquanto as pessoas não entenderem que a homofobia é crime, e a gente não correr com isso, a gente não está fazendo só pela gente, a gente vai estar se negando a fazer pelo outro. Se a gente se cala, não é só eu que estou deixando para lá pra mim. Eu estou decidindo deixar para lá para minha comunidade inteira, que sofre, que morre com isso diariamente”, argumenta Paulo.

Tiago e Paulo contam que tentam passar isso para os filhos, por meio de conversas, onde ensinam as crianças sobre o preconceito e as empoderam enquanto filhos de um casal gay, enquanto negro, enquanto mulher, e enquanto nordestinos. Hoje, Davi tem 4 anos e Sara 9.

“A gente não cria os nossos filhos em uma bolha. A gente conversa sobre tudo. Lógico que eles têm a idade deles e a gente conversa com eles com uma linguagem que eles possam entender o que é possível para a idade deles. Mas a gente está o tempo inteiro empoderando eles. Falando ‘Davi, sua cor é linda, seu cabelo black é lindo’, ‘Sara, você é mulher, você pode ser o que você quiser na vida, você não precisa esperar o príncipe encantado, você pode vestir o que você quiser, você pode ter a profissão que você quiser’… então, a gente vai conversando com eles, preparando eles para o mundo”, conta Tiago.

A paternidade

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Neste ano, Paulo e Tiago comemoram o 4º Dia dos Pais com Davi e Sara. Mas os aprendizados sobre paternidade acontecem diariamente. O casal conta que não é fácil, mas que foi a maior e melhor decisão que os dois já tomaram juntos.

“Eu costumo dizer que eu tinha um sonho de ser pai e eu realizo meu sonho diariamente. A minha vida é muito mais bonita, muito mais alegre, muito mais interessante. É muito melhor”, ressalta Tiago.

Desde que os pequenos chegaram, eles têm inserido uma tradição na família, onde um sai com os meninos e ajuda a escolher o presente do outro, e, no domingo dos pais, todos se unem para abrir os pacotes e comemorar a data juntos.

“É um dia muito especial para a gente, que a gente celebra com muito carinho, com muito amor, porque tem que ser”, conta Tiago.

Para outros casais que pensam em adotar assim como eles ou para gays que desejam ser pais solo, Paulo e Tiago aconselham que se tenha certeza do que quer, porque as atitudes acabam mexendo não só com essas pessoas, mas também com a vida dessas crianças.

“Ser pai é uma tarefa muito difícil. A parte boa é muito boa, mas requer uma demanda muito intensa. Então, primeiro é preciso ter certeza se é isso que você quer, principalmente pela adoção. A gente, que é gay, ouve não a vida inteira. A gente cresce ouvindo não. Mas a gente pode tudo que a gente quer ser, tudo que a gente quer realizar. Então, se é seu sonho, se é sua vontade, se é seu desejo, corra atrás, faça por onde, que você pode sim, e é uma experiência maravilhosa. Foi a melhor decisão que tomei na minha vida”, disse Tiago.

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