Tâmara Azevedo diz que cenário político brasileiro é ‘caótico’ e que é preciso bancada ‘aguerrida e barulhenta’ no Senado 


Foto: Gabriela Braga / Bahia FM

A candidata ao Senado pela Bahia, Tâmara Azevedo, do PSOL, afirmou que é preciso uma bancada “comprometida, aguerrida e barulhenta” na Casa para mudar o cenário político brasileiro, que a postulante classifica como “caótico”. 

Em entrevista à Emmerson José, transmitida no ‘Direto da Redação’, da Bahia FM e Bahia FM Sul, na manhã desta quarta-feira (7), a candidata afirmou ser a única opção de esquerda para a Bahia no Senado Federal.  

Além disso, ela defendeu a candidatura de Kleber Rosa, da chapa do PSOL, ao governo da Bahia. “Nessa eleição tão polarizada era necessário que nós tivéssemos sim um nome destacado para que a gente pudesse colocar as ideias do nosso partido. Então eu acredito que Kleber vai ganhando espaço a partir do momento em que a turma vai conhecendo o nome dele, a história dele, quem ele é”. 

Nesta semana, durante o ‘Direto da Redação,’ irão ao ar as entrevistas feitas com os candidatos ao senado pelo estado da Bahia. Confira a ordem das entrevistas:  

  • Cacá Leão (PP) – segunda-feira (5)  
  • Raíssa Soares (PL) – terça-feira (6)  
  • Tâmara Azevedo (PSOL) – quarta-feira (7)  
  • Marcelo Barreto (PMN) – quinta-feira (8)  
  • Otto Alencar (PSD) – sexta-feira (9)  
  • Cícero Araújo – segunda-feira (12)  

Confira detalhes da entrevista com o candidato

Emmerson José: Por que e para quê ser senadora pela Bahia? 

Tâmara Azevedo: Bom dia a todos que nos assistem e nos escutam. É um prazer enorme estar aqui. Quero parabenizar, inclusive, a Bahia FM por essa iniciativa tão importante que garante aí o tempo igualitário para os candidatos. Queríamos nós ter um tempo igualitário de TV de rádio, os mesmos recursos para poder avançar verdadeiramente nessa eleição.  

O nosso partido é um partido pequeno, mas bastante valente e estamos aí nesse pleito exatamente porque vimos a necessidade de representação popular clamando em todos os momentos dentro desse cenário do Senado. Nós temos aí como concorrentes três candidatos, que tem ou perfil bolsonarista ou um perfil coronelista histórico.  

E a população, onde se veria nessa eleição se nós realmente não ocupássemos esse espaço de ser a renovação da política através das bandeiras populares? Então esse foi o nosso grande desafio para realmente topar essa luta de galgar esse espaço tão importante na casa da alta política brasileira que é o Senado, buscando garantir que o povo da Bahia realmente se veja representado por uma mulher negra, competente, que tem um histórico de luta – eu tenho 34 anos de militância. 

Emmerson José: Inclusive a senhora foi candidata em 2008 à Câmara dos Vereadores de Salvador e teve uma boa votação. 

Tâmara Azevedo: Em 2008, pleiteei um espaço na Câmara, tivemos aí 3.300 votos, uma boa votação, a maior parte desses votos, a parte mais significativa desses votos, foi exatamente no subúrbio de Salvador, onde se encontra a população menos favorecida, onde está a população negra, a nossa cultura pulsante. Exatamente com esse perfil que eu me coloco, é para fazer esse processo de renovação no Senado, afinal de contas o presidente Lula vai precisar de uma bancada muito comprometida e muito aguerrida, barulhenta também, porque vai ser necessário fazer barulho para que a gente mude essa situação que nós estamos vivendo atualmente no cenário brasileiro, que é caótica. 

Emmerson José: Caótica em que sentido? Porque aí eu já te pergunto também, quais seriam as suas prioridades caso a senhora seja eleita a senadora pela Bahia. A senhora fala que a situação é caótica, mas onde combater pra melhorar a situação do Brasil? 

Nosso grande desafio, hoje é derrotar Bolsonaro e reorganizar o estado brasileiro. Nós vimos que nos últimos anos nós tivemos um estado totalmente desmontado. As instituições brasileiras, comissões totalmente invertidas. Então vou dar um exemplo: a Fundação Cultural Palmares, que deveria estar cuidando da memória do povo negro, é contra os heróis negros, atualmente nesse governo – nesse desgoverno – a FUNAI, que deveria estar cuidando das comunidades indígenas, é contra as comunidades indígenas. Inclusive ontem lançou uma normativa escandalosa, dando a possibilidade de retomada de terras que já estão em processo de demarcação. Isso preocupa demais a nossa população como um todo e infelizmente para que a gente possa avançar, ou felizmente para que a gente possa avançar, é necessário a gente avançar também no conceito da democracia representativa.  

Não é possível que a gente continue com a maioria do congresso e do Senado formada por homens brancos e que as mulheres negras, indígenas, a população mais carente não tenha essa representação. Então chegou a hora dessas vagas que estão aí disponíveis, esse ano só tem uma vaga para o Senado, mas eu acho que o povo da Bahia tem na verdade que apostar nos seus interesses, que a eleger uma primeira mulher negra no senado para mudar essa cara e poder ajudar o presidente Lula de forma mais efetiva no aprofundamento das políticas públicas que serão necessárias para que a gente realmente remonte o estado brasileiro. 

Emmerson José: A senhora falou em retomada de terras e então vamos falar desse conflito grande que já é de muito tempo no sul do estado. A senhora é a favor do diálogo ou do enfrentamento 

Tâmara Azevedo: Eu sou absolutamente a favor do diálogo e a favor da legalidade. O que aconteceu nos últimos anos, é importante que seja dito, de 2018 para cá depois da chegada do Bolsonarismo ao poder é uma perseguição às comunidades indígenas com um tom de crueldade muito grande. Essas comunidades que estão no sul da Bahia estão lá desde sempre. Se você for fazer uma análise antropológica, que é papel da FUNAI fazer essa parte do estudo e que ela não tá fazendo, nós podemos ver cemitérios indígenas, resquícios históricos de cerâmica, dentre outras coisas, que mostram que aquela área era habitada por indígenas de determinada etnia.  

Então nós temos lá no sul da Bahia, inúmeras comunidades em processo de demarcação, umas foram demarcadas, conseguimos de marcar até 2016 e outras ficaram em processo de demarcação. E aí quando você abre esse hiato socialmente, foi quando Bolsonaro disse que ‘no meu governo nenhum centímetro de terra é indígena será demarcada’, como ele falou anteriormente, ele abre a esperança para aquele antigo fazendeiro, o filho daquele antigo parceiro, daquele antigo grileiro, retornar à terra e dizer ‘agora nós vamos fazer a disputa’. Então esse momento é um momento muito sensível na política no sul da Bahia. Nós estamos tendo aí conflitos em Prado, conflitos em Porto Seguro, em Itamaraju, que são extremamente preocupantes. Eu recebo diariamente vídeos de indígenas jogados no chão dentro da comunidade, tiroteio acontecendo.  

É coisa de tirar a paz da gente ver no século 21 de novo esse processo de disputa pela terra. E um processo desigual, porque quando eles chegam nesses espaços eles chegam com suas Hilux. Eles chegam com aqueles super carros apontando armas para fora e dando tiro para cima, então está demais, está na hora do poder público tomar uma atitude na defesa das nossas comunidades. Isso tem acontecido também com as Comunidades Quilombolas. Obviamente que o sul da Bahia, que a gente está falando muito do Sul da Bahia, e a imprensa começa a tomar pé dessa situação agora, mas se você usar uma lente de aumento no interior da Bahia, nós vamos ver que esse processo de retomada de terra por grileiros, de posseiros, madeireiros, que têm interesse de chegar, e destruindo logo a natureza é muito grande. 

Emmerson José: Quando a senhora recebe as denúncias, a senhora vai à campo, vai ao local, sua equipe fotografa? A senhora vai na FUNAI ou vai a uma outra Fundação? A senhora toma essa iniciativa? 

Tâmara Azevedo: Tomamos, inclusive, no mês de março nós estivemos aqui com representante da ONU, que foi convidado pelo coletivo do qual eu faço parte, que é o coletivo de entidades negras, para receber uma denúncia formal sobre esses conflitos de terra e sobre a colocada na ilegalidade dessas lideranças, porque a maioria dessas lideranças estão sendo perseguidas e têm mandatos de prisão, inclusive, contra elas. Porque a história está sendo corrompida, por quem tem exatamente a possibilidade de colocar isso de forma mais, digamos, intensa nos meios de comunicação. Nós vimos o que foi que João Roma fez. Tem poucos dias ele foi até a polícia federal, foi até o INCRA defender exatamente esses posseiros e se colocar à disposição dessa turma do mal, que tem tentado invadir as aldeias indígenas a todo custo, colocando a vida de milhares de pessoas, crianças, jovens e anciões em risco. 

Emmerson José: E esse discurso é do PSOL, não é só seu. Você e o candidato ao governo Kleber Rosa estão unidos em todas as iniciativas nessa eleição, né? Vocês concordam um com o outro em todas essas posições? 

Tâmara Azevedo: O PSOL tem sido a casa dos movimentos populares. De um tempo para cá, é um partido que cresceu muito, que tem crescido muito, e tenha abrigado exatamente esses setores, esses segmentos sociais que não têm espaço, vez e voz em outros partidos. Nós temos na nossa militância a uma turma muito forte LGBT. Nós temos muitas mulheres, 40% das candidatas nossas são mulheres, então mostrando o quanto o partido tem realmente esse compromisso. Sessenta por cento dos nossos candidatos são negros. A gente tem esses recortes, na verdade nós refletimos o que a sociedade vem demandando. É o nosso discurso e não é um discurso somente para falar para a população baiana, inventado, a gente não tem essa lógica como os outros candidatos, que estão baseado em pesquisas.  

Porque na verdade a gente é povo e tem essa vivência de povo, então quando você fala da unidade, da minha fala e da fala de nosso candidato a Governador Kleber Rosa, é exatamente por isso, porque o pessoal está pautado nas lutas populares e nós estamos à disposição da sociedade, exatamente amplificando essas bandeiras, dando visibilidade a essas bandeiras. Talvez se não houvesse essa oportunidade o povo baiano realmente fosse se frustrar muito. Porque tem seus anseios, suas demandas, mas não tem quem fale deles. Um quer ser o senador do não sei o quê, o outro quer ser senador, não sei o quê, mas ninguém é senador do povo. Ninguém representa o povo e a gente está aqui para fazer essa representação real das nossas lutas. 

Emmerson José: A senhora fala em entrevistas e diz é que é a única candidata da esquerda ao Senado Federal. Por quê? 

E sou, de fato e de direito, na verdade. O nosso partido é um partido que nasceu há 16 anos no campo da esquerda, permanece no campo da esquerda, tem aprofundado suas lutas nas lutas populares. E tem essa grande referência nacional que é o Guilherme Boulos. Uma grande referência nacional que a Sônia Guajajara também, então a gente tem essa essa possibilidade de refletir o que o povo de verdade acredita e sente nesse momento. E o que é que a gente pode dizer dos demais? Que eles não são realmente de esquerda. O PSD é um partido de centro. Aí eu me lembro do Bolsonaro dizendo ‘eu sou centrão’. Depois disse: ‘não, eu não sou centrão’. Agora ele chegou no Jornal Nacional e assumiu que é do centrão. Ótimo, maravilhoso.  

E o PSD, que é o partido do senador Otto Alencar, o que é se não o centrão? O que é se não essa massa que está colocada exatamente para drenar o estado brasileiro, porque é um escândalo essa coisa do orçamento secreto. Além de receber um dinheiro além do que está determinado pelo Tribunal Regional Eleitoral, que são os Fundos partidários, a gente ainda tem um orçamentos secreto e um orçamento secreto, pautado em um sigilo de 100 anos porque agora todo mundo pode fazer tudo no Congresso Nacional e está blindado 100 anos com o sigilo. Fantástico. Só daqui a 100 anos, daqui a duas ou três gerações, a gente vai saber de verdade se o senador Alencar fez parte ou não desse orçamento secreto. Porque os demais assumem isso, mas o senador não quer ser de centro, mas na verdade ele representa o centrão, assim como os demais. Como a doutora cloroquina, como o Cacá Leão, que para a gente é uma verdadeira piada hereditária.  

De repente me aparece no senado um deputado federal, inexpressivo, aliado ao bolsonarismo. E aí quando a gente fala aliado o bolsonarismo é contra os direitos dos trabalhadores, das mulheres, das pessoas que realmente precisam de intermediação do estado. Engraçado essa situação? Não é. Eu não gostaria de estar sozinha dentro da esquerda. Eu queria estar fazendo debates éticos. Debate sobre ideias, mas não tem candidato. 

Emmerson José: E o PCO? Não é de esquerda? 

Tâmara Azevedo: Não tive a oportunidade ainda de estar e conhecer o Cícero, mas a gente acredita também que o PCO é um partido pequeno e e danado, disposto também a fazer as mudanças que a Bahia precisa. 

Emmerson José: Qual é a confiança que a senhora tem aí na eleição, na possível eleição, do Kleber Rosa? A Batalha é grande, as pesquisas apontam evidentemente três bem acima lá na frente. A senhora acredita em uma virada? Ou acredita que só vai marcar espaço mesmo nessa eleição? 

Tâmara Azevedo: Nessa eleição tão polarizada era necessário que nós tivéssemos sim um nome destacado para que a gente pudesse colocar as ideias do nosso partido. Então eu acredito que Kleber vai ganhando espaço a partir do momento em que a turma vai conhecendo o nome dele, a história dele, quem ele é. Então ele saiu super bem no debate da Band, a gente acredita no potencial do nosso companheiro. Com essa Chapa, com a cara negra da Bahia, que é Kleber Rosa no governo, nosso candidato a governador 50 e eu Tamara Azevedo, que a gente vem brincando ‘para falar a verdade que com a gente são outros 500’. 

Considerações finais 

Vamos falar diretamente com você que está nos ouvindo, que está nos assistindo e dizer que não desistam de sonhar. A esperança tem que ser sim a última a morrer e nós estamos passando por esse momento. Mas precisamos usar o nosso voto, para transformar a nossa sociedade. A gente vai citar Nelson Mandela quando dizia ‘cada pessoa um voto’, então, eleitor, o seu voto é a sua arma nessa eleição. Não se deixe enganar, é importante que você faça do seu voto, esse espaço de representação, essa arma de representação, então vote em gente que parece com você, votem em gente que você entende o que está falando, que não está te enrolando ali com palavras bonitas, mas por trás está lhe dando aquela facada que a gente sabe como é que tem sido. 

Está na hora das mulheres votarem em mulheres. Me coloco aqui à disposição para que a gente faça em oito anos de Senado uma transformação significativa ao lado do presidente Lula, porque a gente sabe que ele vai precisar de gente aguerrida, comprometida com as lutas populares e com pé na periferia, porque faz toda a diferença quando a gente não nasce em berço de ouro e que está aqui exatamente colocando o nome à disposição do povo da Bahia, meu muito obrigado. 

Confira abaixo a entrevista completa

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