Especial

Disco perdido, conversas inéditas e mais: conheça o museu digital que faz a retrospectiva dos 80 anos de Gilberto Gil

A partir desta segunda-feira (20), até domingo (26), o iBahia publica uma série de reportagens em homenagem aos 80 anos de Gilberto Gil

Danutta Rodrigues
20/06/2022 às 7h00

7 min de leitura
Foto: Google Arts & Culture/Instituto Gilberto Gil

Oito décadas de história e mais de 40 mil itens disponibilizados em um acervo que revisita vida e obra de um dos maiores artistas brasileiros: Gilberto Gil. Muito além de criar um website ou fazer uma home page, como diria a própria música do cantor e compositor baiano, o Google Arts & Culture, em parceria com o Instituto Gilberto Gil, lançou pela primeira vez a maior retrospectiva de um artista vivo.

O trabalho foi iniciado em 2018 e teve a curadoria da jornalista, escritora e editora Chris Fuscaldo, que liderou uma equipe de quase 20 pessoas para selecionar, digitalizar e desbravar a história do ícone da música brasileira, que completa 80 anos no domingo, 26 de junho.

Um trabalho árduo, de domingo a domingo durante quatro anos, mas que rendeu um material vasto e que proporciona uma experiência única sobre Gilberto Gil. “O Ritmo de Gil” é uma viagem ao universo do músico que continua em movimento e rompendo barreiras da temporalidade. [Clique aqui e acesse o museu digital]

Em entrevista ao iBahia, Chris Fuscaldo, que foi convidada pelo Google para o projeto a partir de 2019, contou como foi o processo de construção do acervo, as surpresas encontradas, entre elas um disco inédito de Gil gravado em Nova York e nunca lançado, além de outras curiosidades.

Foto: Google Arts & Culture

Construção do acervo

“Tivemos que começar quase do zero a fazer descrições para fotos, digitalizar vídeos, áudios que estavam em armários na GeGe Produções, o escritório do Gil, e no estúdio Palco, muitas gavetas e armários…teve a própria casa do Gil e da Flora, onde em uma das etapas, por exemplo, eu peguei álbuns familiares. Então, eles me convidaram para realmente contar a história toda, né”, disse a curadora.

“É óbvio que tem muito mais do que 40 mil itens, mas esse foi meu trabalho de selecionar, de coordenar uma equipe que chegou a 20 pessoas, e ao menos 15 constantemente comigo, além de técnicos contratados para cortar áudios, vídeos, etc”, completou.

Entre os profissionais que contribuíram para a construção do acervo, músicos, pesquisadores, especialistas, família, amigos e a cineasta Ceci Alves, que Chris Fuscaldo fez questão de destacar devido ao entendimento e lugar de fala que possui em relação à história de Gilberto Gil.

Foto: Google Arts & Culture/AgNews

“Para falar de Bahia, religiosidade, relação com a política, Ceci foi essencial nesse trabalho porque ela acompanha Gil desde que nasceu, né, ela é baiana. Dessa equipe toda ela foi a única baiana a ficar o tempo todo com a gente. Ela é uma especialista, negra como o Gil, então foi muito importante a participação da Ceci”, disse.

Outro nome citado por Chris Fuscaldo foi o de Ricardo Schott, ou “Schottipedia”, apelido dado devido à excelente memória e que foi fundamental para a identificação do disco “perdido” ou “cancelado” de Gilberto Gil.

Disco perdido

“Eu fui na GeGe e eu selecionei aquelas mídias que seriam digitalizadas porque eu vi que ali tinha tanta coisa, tanta fita sem rótulo e a gente tinha que digitar para saber o que tem, né. Foi aí que identifiquei que tinha algo em comum nas fitas sem rótulo, por exemplo, as músicas escritas em inglês. Eu falei ‘cara, isso aqui Gil não lançou não’ e eu já saquei que era uma raridade. Eu não sabia se era uma brincadeira de estúdio dele ou se era alguma coisa, né. Então tinha que digitalizar para a gente ouvir”, disse.

Chris Fuscaldo [Foto: Tatynne Lauria]

Para ganhar tempo, após o material encontrado ser digitalizado, Chris pediu ajuda ao “Schottipedia” para checar os áudios em inglês. E assim ele lembrou que leu no encarte do disco “Um Banda Um”, que saiu pela caixa Palco de 2002, que havia um disco gravado em Nova York em 1982 e cancelado por Gil. “Ou seja, ele lembrou de um encarte de 20 anos atrás. Ele guardou que sabia que tinha um disco e aí ele falou: ‘Cris, eu acho que é aquele disco porque Gil cantando inglês, com essa sonoridade oitentista’. Então eu falei: ‘espera aí, deixa eu ouvir então, né’, porque eu não tinha nem ouvido”, contou.

Chris precisou ir em busca do próprio Gilberto Gil para comprovar a suspeita da descoberta do disco inédito. Mas nem ele lembrava muito bem de um álbum gravado há 40 anos e que não foi lançado. Foi então que Flora Gil deu a dica do produtor Liminha, que na época não estava a trabalho, mas passou pelo estúdio. E ele pôs fim ao mistério: sim, era um disco inédito e que agora está disponível no museu digital em homenagem aos 80 anos do músico.

Material inédito

Entre outras surpresas encontradas, Chris destacou áudios de shows, conversas de bastidores, bases de músicas gravadas sem a voz de Gil e até entrevistas em outros idiomas.

“É muito legal porque o museu é trilíngue, né. Então a gente dá a chance dos estrangeiros poderem ouvir um pouco articulação do Gil, que é algo tão peculiar, super bacana. Eu, particularmente, amei encontrar bases de músicas sem a voz do Gil e até aproveitamos isso para fazer uma exposição [disponível no museu digital] que é o Karaokê do Gil. Botamos lá as bases das músicas e as letras para as pessoas poderem cantar alguns sucessos do Gil”, conta.

Foto: Lucas Ramos/AgNews

Além disso, entrevistas inéditas feitas pela equipe de Chris, assim como imagens do artista na intimidade com a família e fotos do filme feito com Regina Casé [“Corações a mil”] também compuseram o material.

“A gente gravou algumas entrevistas com o Gil…tem duas posições que têm o áudio completamente exclusivo. Uma é “O Melhor Lugar do Mundo é Aqui e Agora”, que são os cinco lugares mais marcantes de Gil, e a outra o nome é “Onde o mar arrebenta em mim”, que são os cinco momentos relevantes que ele destaca da vida dele e aí esse áudio foi gravado para essas exposições”, conta Chris.

Uma outra gravação inédita foi do momento em que Gil recebe a notícia da Academia Brasileira de Letras, quando foi consagrado imortal, feita por Chris Fuscaldo com um celular. “Eu já estava inserida no processo, né, e o meu papel era um pouco de espiã também. Então, eu estava ali e aí tocou o telefone. Passaram o telefone para ele e era para dar a notícia. Eu saquei o celular na hora e gravei o exato momento”, disse.

Entre mais de 140 histórias, fotos, vídeos, músicas, entrevistas com outros artistas, curiosidades, fases, revoluções, parcerias…o museu digital de Gilberto Gil, para além da homenagem, é um importante resgate cultural e que certamente ainda vai passar por atualizações constantes, afinal, Gil é imortal.

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