Aos 60 anos, Luiz Caldas faz balanço da carreira, fala sobre mudanças no axé e analisa: ‘Hoje nada dura, nada vira um clássico’


Foto: Victória Downling / iBahia

Ao falar de música, carnaval e Bahia não tem como não pensar em axé music. O movimento musical que arrasta multidões no Carnaval de Salvador – e nos ensaios de verão, nos festivais e por aí vai – tem pai. Um pai que na década de 80 trouxe a bagagem dos bailinhos e fez uma mistura de ritmos que se transformou no que chamamos de axé. Luiz Caldas, o responsável por tudo isso, completa 60 anos nesta quinta-feira (19) e apenas sete foram longe da música.

Quando criança, Caldas viveu a primeira experiência em bailes. De lá para cá, estreou em trios, conheceu a guitarra baiana, escreveu clássicos, criou o axé music. Para celebrar os 60 anos de carreira, ele fará um show especial na Concha Acústica, nesta quinta, com convidados como Ivete Sangalo e Armandinho.

Dias antes de completar 60 anos, o cantor, compositor e multi-instrumentista conversou com iBahia sobre a carreira e o axé music. Confira:

iBahia: São 60 anos de vida e cerca de 50 anos na música. Como é seguir ativo na música até hoje? O que você não abre mão de fazer para seguir com energia para shows e composições?

Luiz Caldas: A liberdade musical. A liberdade musical para qualquer artista é fundamental. Quando eu digo isso eu não falo de uma liberdade através de ter uma boa produção, que deixa livre para fazer as coisas, mas principalmente com o público essa relação [de liberade]. Porque eu acredito que desde o momento que você começa a manipular o seu trabalho para tentar agradar a qualquer pessoa você está andando andando em uma linha bem tênue. E isso é muito perigoso para qualquer carreira, eu acho. E uma coisa super saudável para a arte é você deixar sua cabeça livre e fazer então a palavra de ordem a liberdade.

iBahia: E hoje a gente está em uma época que os artistas buscam fazer música para viralizar, para ter dança no TikTok… acho que isso de encontro ao que você fala sobre liberdade.

Luiz Caldas: E isso faz com que as coisas sejam utilizadas de forma muito rápida, entendeu? Nada dura, nada vira um clássico. Então isso é complicado para a arte, ela precisa de tempo. O tempo é o maior aliado de uma boa arte, né?

iBahia: Qual momento você elege como o mais marcante da sua carreira? Ou quais momentos?

Luiz Caldas: Como você mesmo falou no início, são 53 anos de música, eu comecei com sete anos cantando em baile. Esse momento para mim é um um dos mais importantes porque foi o start. Foi o início de tudo. Aquela coisa de criança: ou ela tem vergonha ou não tem nenhuma. Ela não fica meio termo e eu tremi muito mesmo minha mãe segurando a minha.

Porque eu cantava no quintal brincando, né? De repente, Jorge Mata, um amigo da família, que é meu parceiro de música em ‘Amazonas’ e em tantas músicas que fizemos juntos, ele me ouviu cantando uma música do Jackson Five e me chamou para cantar com ele. Eu disse: eu vou, mas esse ‘vou’ era de quem tava brincando no quintal, de repente você entra em um lugar na sala cheia de gente para poder te assistir e esse momento para mim foi tão significativo que ficou até hoje. E uma outra coisa foi a primeira vez que eu subi no trio elétrico que eu tocava em baile, eu nem conhecia assim um trio pessoalmente e foi muito legal, porque foi na cidade de Ibicaraí, um trio elétrico número três do Tapajós. Ele tinha vários trios, tinha um Tapajós número um e ele tinha mais dois trios onde ele mandava para vários lugares. Então para você chegar ao trio número, precisava fazer como se fosse fazer um estágio em vários outros entendeu? Para mim foi muito interessante.

Porque foi no momento em que a a música de carnaval era cantada mais no trio elétrico de Dodô e Osmar, por Morais [Moreira], os outros trios gravavam muito instrumental. E o repertório do Tapajós era basicamente instrumental. E eu não conhecia guitarra baiana. Eu só solava na guitarra grande, então era algo assim meio inimaginável para a época. Então isso me marcou muito porque eu tocava para mil pessoas em um baile – quando tocava pra muita gente – e quando eu subo no trio eu vejo mais de 30 mil pessoas pulando. Eu disse: ‘poxa esse é o lugar que eu quero ficar’, e estou até hoje.

Foto: Victória Dowling / iBahia

iBahia: Você já disse que no início da sua carreira participou de muitos bailes de Carnaval. Depois, já com uma certa experiência, você cria o que se tornou o axé music. Como essa participação em bailinhos foi importante para dar origem ao Axé? 

Luiz Caldas: Para o surgimento da axé music, não foi só a música, entendeu? A gente ralou muito. Quando eu digo a gente eu falo eu e o Cesinha, que era o baterista do Acordes Verdes, por exemplo, nós colávamos cartazes na rua. A gente mesmo ia fazer esse tipo de trabalho. A gente tinha que fazer tudo porque não tinha uma produção, não tinha toda essa estrutura que Axé Music ao longo do tempo desenvolveu aqui na Bahia.

Então para mim foi uma junção de fatores, não foi uma coisa só da música. de ser uma novidade. Claro que isso foi fundamental. Porque não ia adiantar nada a gente ralar tanto e mostrar o mesmo do que já estava por aí. Então o surgimento disso vem desde o Tapajós, quando eu falo que cheguei no trio com 16 anos, subi pela primeira vez lá em Ibicaraí, eu comecei a gravar no trio, já fazendo mistura de ritmos. Morais [Moreira] já fazia isso muito bem, mas com o Ijexá, era uma coisa restrita, vamos dizer ao frevo pernambucano e ao Ijexá.

Então como eu vinha do baile, eu tocava uma diversidade bem maior de estilos, né? Então foi justamente isso que me deu um lastro, para que eu pudesse chegar no trio e fosse modificando um pouco, para que não ficasse só ‘a mercê’ do frevo, que é uma cultura maravilhosa, mas é pernambucana.

iBahia: Naquela época, você imaginava que com esse novo ritmo daria uma nova cara ao Carnaval da Bahia? Que o axé ganharia o tamanho que ganhou?

Luiz Caldas: Eu desconheço qualquer criador que saiba o futuro da sua criação. Ao pé da letra, você pode imaginar mil coisas, mas as coisas mudam mesmo. Não fiz nada sozinho, eu fui o primeiro sim, eu comecei todo esse processo, mas sem os meus colegas, eu acho que o axé não chegaria aonde chegou, entendeu? Então é um trabalho de uma classe como, por exemplo, o samba. O samba é maravilhoso, mas não é só de Martinho.

iBahia: Em uma entrevista recente, você disse que não concorda com a classificação do axé music como um gênero musical. Por que?

Luiz Caldas: Porque eu acho – acho não, tenho certeza – que o axé music é uma forma de se fazer música. Você não pode comparar, por exemplo, o trabalho do Araketu com o trabalho do Asa de Águia. Ambos fazem axé. Então não é uma coisa que você pudesse chegar e dizer que são iguais. E não é como samba, que Zeca Pagodinho faz.

Pagode e samba muito bem e Martinho canta samba também. Se você for olhar bem há uma linha que une eles muito mais do que no axé music. No Axé music as pessoas costumam desenvolver a sua sonoridade a sua forma de tocar e por ser por ser é feito com mistura de estilos, eu acredito que é uma coisa muito mais é de amalgamar os estilos musicais, do que ‘vou pegar só isso e isso e fazer determinado ritmo’. É muito rico, então não pode ser chamado só de um gênero.

iBahia: Há muitos anos se fala sobre uma crise no axé, com a chegada de outros ritmos no Carnaval de Salvador, como o sertanejo, por exemplo. Como enxerga isso?

Luiza Caldas: Mudanças acontecem, você querendo ou não, entendeu? Isso não é uma coisa que dependa de você. Depende muito mais da massa e a massa se renova, é natural. Ela pode ser renovar ouvindo uma coisa melhor do que a anterior ouvia ou não, entendeu? O critério não é esse. Se eu fosse julgar pelo critério de músico, de instrumentista, eu sei que a música feita há um tempo atrás é muito mais rica harmonicamente do que as músicas é que são produzidas hoje. Até pelo fato do próprio computador, a tecnologia dá uma linguagem diferente de você sentar em um instrumento e tirar o som. Então essas mudanças são necessárias e a gente sabe que não é só música. Há um comércio gigantesco por trás de tudo isso. Mas eu deixo um recado aqui, a gente tem que ter cuidado para que não descaracterizar totalmente a nossa festa porque senão vira uma festa no meio de ano normal, como qualquer uma outra, e não é, é bem diferente.

Foto: Victória Dowling / iBahia

iBahia: Como pai do Axé Music, que balanço você faz sobre a nova geração? Sente que o que você criou lá atrás ainda influencia novos artistas?

Luiz Caldas: Eu me sinto muito honrado em saber que a minha música de uma certa forma influencia a nova geração. Eu vejo muita gente boa surgindo, um pessoal que já está também ralando há muito tempo. É como eu digo, o axé music é uma música para massa. Claro, eu fiz um um DVD com Saulo que é maravilhoso, que é uma coisa bem intimista, que tem que participação de Durval a gente pode transformar nisso, mas a gente sabe que é uma música de tambores, de guitarras ligadas, tudo isso, E tem uma galera aí que com certeza vai seguir essa trilha da melhor forma possível.

iBahia: Você é uma figura muito forte para artistas baianos também na imagem, no estilo que você apresenta. Suas roupas, seus cabelos, fazer show descalço…tudo isso são marcas de Luiz Caldas. De onde surgiu esse estilo e como enxerga essa influencia?

Luiz Caldas: O palco é mágico. O palco, o vídeo em si, o cinema. Então as pessoas gostam de se arrumar, o grande segredo do Tik Tok é justamente isso, das pessoas se colocarem um efeito, fazendo aquela coisa toda e no palco a gente pode fazer esse efeito na gente mesmo. Tem artistas que guardam isso para seu dia a dia. Eu não consigo mais me ver com o visual de palco ou não. É a mesma coisa. Então é isso, enxergam muito mais o meu visual, acredito que venha muito mais do povo cigano e do rock and roll. Eu faço um pouco dessa mistura coisa e tal. E aí nasceu esse cara assim.

iBahia: Como vai ser o show nesta quinta na Concha, em comemoração aos seus 60 anos? O que o público pode esperar?

Com certeza vai ser maravilhoso. Nós já estamos com os ingressos esgotados, os convidados são maravilhosos, todos têm muito a ver com a minha música com a minha história e a festa. Vai ser um lugar onde eu vou poder tocar, não cronologicamente claro, mas eu vou poder tocar uma boa parte das músicas que marcaram a minha vida de uma forma legal. Garanto que vai ser uma festa linda.

E vamos fazer o Bailinho do Luiz no pré-carnaval. A gente tem um lugar que é muito parecido comigo que a Chácara Baluarte e a gente vai aproveitar para no dia 15 de fevereiro fazer o baile do Luiz. Eu, com toda minha galera que curte. Vai ter o Bailinho de Quinta fazendo um grande show junto comigo e vai ser só alegria. Antes do carnaval, todo mundo querendo alegria e dançar o lugar certo é lá bairro do Luiz.

Confira a entrevista em vídeo:

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