Império Britânico: passado esconde escravidão, fome, tortura e campos de concentração


Foto: Reprodução

Se você já ouviu a expressão “nem tudo são flores”, certamente vai entender a aplicação dela se for conhecer ou relembrar toda a história do Império Britânico. Isso porque o passado da monarquia vai além do que tem circulado desde a morte da rainha Elizabeth II, confirmada pela família real na quinta-feira (8). Para entender melhor o assunto, o iBahia conversou com um historiador.

Além da escravidão de outros povos, o legado imperialista traz fome, tortura, massacre e campos de concentração. Situações que aconteceram em séculos passados, mas que deixam marcas até hoje nos descendentes dessas gerações. É o que explica o mestre em História pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) Fábio Batista Pereira.

“Evidente que a morte da rainha Elizabeth II causa uma comoção internacional e torna-se um dos temas preferidos, pelo menos por enquanto, nas rodas de conversa, nos meios e nas mídias sociais, mas o certo é que é preciso ter uma visão muito mais crítica do que representa efetivamente a Inglaterra, não apenas hoje, enquanto ainda uma das maiores economias do mundo, mas o seu papel enquanto o principal agente no século XIX ao lado da França, da Bélgica e da Alemanha, que vão fazer incursões muito bem definidas no continente africano”, conta.

Entre as situações apontadas pelo historiador com o envolvimento da coroa britânica, está o Apartheid, ocorrido no século XX, na África do Sul. Na época, um dos defensores da liberdade ficou preso por 27 anos e ganhou destaque na história, o Nelson Mandela.

Revolta Mau Mau | Foto: Reprodução

“Nós conhecemos um dos episódios da humanidade que foi escrito através da experiência da África do Sul, no qual nós temos uma figura icônica que é o Nelson Mandela, que ficou aí quase três décadas preso dentro de um regime de segregação racial, que se desenvolveu dentro desse Império Britânico, dessa comunidade britânica que é muito ampla e que ainda enfrenta algumas contradições, especialmente por conta da formação histórica e das alianças que foram sendo firmadas”.

Nessa mesma região, um século antes, colonos de origem holandesa e francesa, conhecidos como bôeres, foram presos e colocados em campos de concentração, para vencer a resistência do povo e conseguir estender o domínio britânico.

O interesse era movido principalmente por minas de diamante, ouro e ferro descobertas na época na terra. Segundo dados históricos, cerca de 27 mil pessoas morreram nesses campos. Destas, aproximadamente 24 mil eram menores de 16 anos, cerca de 50% da população infantil.

Houve ainda o episódio que ficou conhecido como Massacre de Amritsar, na Índia, quando, em abril de 1919, soldados britânicos atiraram contra manifestantes que protestavam contra o domínio da cidade sagrada. Dados dão conta de quase 400 mortos e mais de mil feridos, que são justificados na versão britânica como uma reação de defesa. A história foi contada no filme Gandhi, em 1982.

Ainda na Índia, também no século XX, houve a Grande Fome em Bengala, quando cerca de 3 milhões de pessoas morreram de fome e desnutrição. Na época, o primeiro-ministro Winston Churchill teria ordenado que os estoques de alimento fossem aos soldados que atuavam no país, após perder o domínio da Birmânica, que, até então, era o maior produtor e exportador de arroz para a Índia.

“É preciso sempre considerar que o modus operandi do processo de colonização ou neocolonialismo promovido pelos ingleses na Ásia, mais especificamente na África, no século XIX teve consequências terríveis para os povos conquistados, submetidos ao império britânico, e o processo também de descolonização foi marcado por muita violência, e essas marcas ainda permanecem no DNA do Estado Nacional que se formou a partir dos diferentes povos e experiências de emancipação política, especialmente no século XX”, reforça Fábio Batista Pereira.

No Quênia, a história aponta tortura durante a Revolta Mau Mau, ainda no século XX. Na época, o povo que lutava para libertar o país dos colonizadores foi vítima de situações como linchamento, espancamento, castração e confisco de bens. A estimativa de vítimas, que nunca foi definida, vai de 20 mil até 100 mil pessoas. A situação também foi retratada nos cinemas, com o filme “Uma lição de vida”, de 2010, que conta a história de um combatente Mau Mau.

“É óbvio que nós temos que destacar também na Inglaterra a 1ª e a 2ª guerra mundial porque são momentos agudos de disputa no interior e no coração do próprio capitalismo. E a Inglaterra soube construir também a sua diplomacia bem como seus aliados militarmente falando, e conseguiu ainda assim passar para o século XX e o século XXI como um país muito importante, que lidera essa comunidade britânica que ainda é operante, que tem a sua força e representatividade, mas não podemos de modo algum esquecer esses capítulos mais agudos e contraditórios no que diz respeito à violência e à imposição de um domínio sobre diferentes territórios e consequentemente sobre os povos que ali viviam”, ressalta o historiador.

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