Mais de 4 milhões de plays

De lavrador à voz do maior hit do Brasil: conheça a história do baiano Nivaldo Marques, do sucesso ‘Tem Cabaré Essa Noite’

Faixa, que ganhou parceria com Nattan, foi lançada em 2019 seria gravada em um feat com Wesley Safadão antes do São João

Bianca Andrade
22/07/2022 às 14h46

9 min de leitura
Foto: Reprodução/ Instagram

“Tem cabaré essa noite?”, a pergunta, que também é um verso da música de mesmo nome cantada pelo baiano Nivaldo Marques atualmente só tem uma resposta possível, a onomatopeia reproduzida por Nattan na faixa que se tornou um dos maiores sucessos de 2022: Ui, Ai.

É rápida, direta ao ponto e com certeza quer dizer sim, já que a música, um dos hinos do São João deste ano, virou sinônimo de curtição.

A voz por trás deste grande sucesso vem de Nazaré “das Farinhas”, na Bahia, a aproximadamente 78 km de Salvador, e até pouco tempo, antes de ter a vida transformada pelo poder do “Cabaré” nas redes sociais e nas plataformas de streaming, precisou voltar às raízes e ao trabalho braçal pelo impacto da pandemia da Covid-19.

Em entrevista ao iBahia, Nivaldo Marques contou um pouco da história de vida e relembrou o momento que foi a virada de chave para se jogar de vez na música.

“Meu coroa é falecido hoje, mas eu andava muito com ele pelo interior e lá tinha muito torneio de bola. Todo lugar ele me levava, quando terminava o jogo ele gostava muito de samba e eu ficava vendo ele tocar o pandeiro. Eu achava interessante e quis aprender a tocar também. Onde a gente morava antes não tinha energia, era candeeiro, aí a gente fazia o samba e quando escurecia ia todo mundo embora”.

“Eu trabalhava de lavrador e meus amigos diziam que eu era o dia todo cantando. Era trabalhando e cantando. Quando eu tinha 16 anos eu comprei um teclado, mas como lá não tinha energia eu ligava na bateria do carro, depois de 3 anos chegou a energia e eu digo que é coisa de Deus mesmo, porque eu não tive aula, eu ouvia a música no rádio e conseguia tocar no teclado certinho, sem ninguém precisar me ensinar. Eu cheguei a tocar em barzinho, mas era aquele negócio de fazer um aqui, depois de duas semanas fazer outro. Não era uma agenda para tocar direto”.

Nivaldo Marques

Durante o bate-papo, o artista pediu um momento para agradecer a Pablo do Arrocha, um dos ídolos dele e o primeiro artista a dar uma oportunidade na música. E 2014, uma matéria feita pelo Domingo Show, da Record, fez com que o nome de Nivaldo furasse a bolha baiana.

“Os shows começaram a aumentar e fui fazer um em São Felipe, na Bahia, com um repertório todo de lambada. E, por sorte, o dono do som gravou o CD e botou na mídia. Quando eu fui descobrir, o CD já estava com mais de 20 mil visualizações em um canal de Alagoas”.

O artista lembra que o primeiro show após a repercussão da matéria ultrapassou a capacidade do espaço, e foi de lá que surgiu o apelido “Rei do Lambadão”, que foi adotado por ele na carreira.

“Meu primeiro show lotado, a casa tinha capacidade para 4 mil pessoas e, dentro da casa, tinham 4.500. Fora do espaço ainda tinha mais gente. Eu fiquei surpreso porque vendi o show por bem pouco, era o dinheiro de chegar em um bar e encher a cara de cachaça, porque eu não sabia a proporção que estava a música. Foi nesse dia que eu recebi o apelido de ‘Rei da Lambadão'”.

A hora do ‘Cabaré’

O “Cabaré” chegou para Nivaldo em 2019, mas o sucesso só veio à tona 3 anos depois. O artista conta que descobriu o hit bebendo da “fonte”, com Guto e Flavino Kadet, baiano responsável pela música “Arranhão”, de Henrique e Juliano. A música é uma versão do cantor norte-americano Prince Royce, Te Robaré, uma bachata lançada em 2013.

“Em 2019 eu conheci a música por meus amigos Guto e Flavinho Kadet, era um arrocha e eu gravei no meu estilo da lambada. Só que eu gravei ela em um ano e a pandemia veio logo em seguida, aí parou tudo e eu tive que voltar para o meu interior [ele estava morando em Salvador antes da pandemia]”.

Nesta época, o artista precisou retomar a rotina de trabalho braçal como lavrador para não ficar parado, já que os shows não podiam ser realizados durante o período crítico da Covid-19. “Voltei a trabalhar de lavrador, porque eu não podia ficar aqui parado, se fosse para isso eu voltava para a casa de minha coroa, que é aposentada e me dava comida de graça. Fiquei por lá trabalhando”.

Em novembro de 2021, Nivaldo resolveu dar mais uma chance para a canção e desta vez a resposta foi positiva. A faixa caiu nas graças das redes sociais e nas mãos de alguns influenciadores digitais como Cristian Bell, GKay e Tirullipa, e virou trilha sonora de diversos virais. A canção ainda ganhou uma versão com Wallas Arrais

Os números não deixam Nivaldo, nem qualquer um que vá falar sobre o sucesso de “Tem Cabaré Essa Noite” mentir. Só no YouTube, em canais oficiais, juntando o perfil de Nivaldo e o de Nattan, onde foi liberada a nova versão da faixa, a música tem mais de 7 milhões visualizações.

No Spotify, a música tem mais de 3 milhões de streams e o artista atualmente conta com mais de 1 milhão de ouvintes mensais. Nivaldo também é destaque na plataforma Sua Música.

“Eu nunca imaginei isso, foi um negócio tão rápido que eu me pergunto ‘Meu Deus, porque tudo isso para mim?’, mas Deus é tão bom. Eu tenho 15 anos de estrada, de barzinho, e não é todo mundo que consegue suportar 15 anos de saldo negativo. Você investir e não ter dinheiro, faz um show e não recebe. Não te tratam bem. Quando estoura tem um outro respeito, mas quando você é pequeno, te tratam como um Zé Ninguém. Tudo isso aconteceu, mas eu sempre tive fé e hoje Deus está me honrando”.

Bênção do Safadão

Além do meme, em 2022, o artista viveu um momento ainda mais especial, o de estar no palco com Wesley Safadão, que o convidou para se apresentar em um show realizado em Salvador e cantar a música dele.

“Vários artistas do Brasil todo entram em contato comigo para tentar fazer feat, e o nosso foco era tentar fazer com Safadão. Ele foi a primeira pessoa que me convidou para cantar minha música em um grande palco. Quando ele ouviu a música, ele me chamou no direct para bater um papo e rolou o encontro no palco. A ideia era gravar Cabaré com ele, só que não conseguimos gravar com Safadão porque ele teve o problema de saúde”.

O forrozeiro, inclusive, está na lista de inspirações de Nivaldo. Durante a entrevista, o “Rei da Lambada” demonstrou a gratidão a Wesley e Pablo do Arrocha, os primeiros a voltarem os olhos para ele, e declarou ainda ser grande fã de Ivete Sangalo e Gusttavo Lima.

“Vou fazer uma canetada [música estourada] boa para gravar com eles. O mercado hoje é muito rápido, ‘Tem Cabaré’ estourou, mas não vai ser isso a vida toda. Ela vai ser história, e enquanto eu estiver na música, ela vai ter que estar no repertório. Mas farei outras canetadas também”.

Nivaldo Marques x Nivaldo Marcelo

É esperado, ou pelo menos especulado, que toda fama e sucesso repentino transforme a pessoa, mas Nivaldo garante que apesar dos números estrondosos de “Tem Cabaré Essa Noite” e a alta procura pelos shows não tiraram a simplicidade.

O artista conta que devido à agenda lotada de shows e compromissos, ainda não conseguiu voltar à cidade natal e reencontrar os velhos amigos. Ao iBahia, o cantor revelou que já está há dois meses sem ver a “coroa” e ganhou a fama de metido de alguns familiares.

“Eu vivo o Nivaldo Marques, que é o dos shows e fora dos palcos eu sou o Nivaldo Marcelo. Eu já falei para o pessoal que quero que eles lembrem de mim como o Nivaldo que viveu lá. O Nivaldo Marcelo é o que gosta de estar em casa, de jogar bola com os amigos e tomar uma. Sei que o cuidado vai ser outro, mas quero que eles me olhem como o rapaz que fez barzinho e eles estavam presente. Estou há dois meses sem ver a minha coroa, até minha tia está me chamando de mentiroso. Toda semana em estúdio e fazendo show, uma correria”.

Foto: Reprodução/ Instagram

É com foco na coroa que Nivaldo se dedica para cumprir os prazos e a extensa agenda de shows. “Meu sonho é dar uma casa para minha coroa, estou trabalhando para isso. Dar uma casa a ela”.

Quanto às realizações profissionais, Nivaldo conta que tem alguns lugares que deseja percorrer, mas o artista afirma que estará onde for chamado. “Eu sonho em estar no Festival de Verão, sonho em estar nas melhores casas de São Paulo, mas a verdade é que eu quero mesmo rodar o Brasil todo. Nivaldo vai tocar onde o público quiser”, conclui o artista.

Leia mais sobre Música em iBahia.com e siga o Portal no Google Notícias