Ataques de rottweiler geram pânico e mobilizam a polícia em Salvador
Polícia Civil investiga caso de maus-tratos em Nazaré; um dos animais sobreviveu após ser atacado e ficou ferido

Moradores do bairro de Nazaré, em Salvador (BA), vivenciam dias de tensão e revolta após uma sequência de ataques violentos contra cães em situação de rua. De acordo com as denúncias apuradas pela TV Bahia e pelo g1, ao menos três animais não resistiram aos ferimentos e morreram ao serem atacados por um rottweiler. Um quarto animal, comunitário e apelidado de Roberto Carlos, conseguiu sobreviver, mas sofreu graves ferimentos.

O caso está sob investigação da Polícia Civil (PC) pela 1ª Delegacia Territorial (DT/Barris). O tutor do rottweiler já foi intimado a prestar depoimento para esclarecer os fatos.
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Um dos episódios mais graves ocorreu no dia 19 de julho, na Rua Bela Vista do Cabral. Câmeras de segurança e gravações de celular capturaram o momento exato em que o rottweiler avança contra um cão comunitário.
Nas imagens divulgadas pela TV Bahia, o animal de rua é mordido e sacudido violentamente, enquanto gasta suas forças gritando de dor. O tutor do rottweiler permanece ao lado, sem realizar tentativas efetivas de conter o animal, atitude que motivou fortes denúncias da vizinhança.
Uma testemunha no local chegou a confrontar o responsável, afirmando que o denunciaria por maus-tratos. O cão atacado morreu em decorrência das lesões. "A mesma lei que fala que cachorros acima de 25 quilos têm que estar de focinheira é a mesma lei que diz que cachorros devem estar de guia e acompanhados dos seus tutores", declarou o tutor do rottweiler ao defender seu ponto de vista sobre as normas de circulação.

Suspeita de ação deliberada e sobrevivência incrível
A percepção de que as mortes anteriores não eram isoladas surgiu após a circulação dos vídeos. Renato Rodrigo de Jesus Lima, advogado e testemunha dos fatos, relata que a comunidade já encontrava corpos de animais de rua sem entender a causa, até que os registros em vídeo ligaram o rottweiler aos episódios.
Moradores acusam o tutor de atiçar o cão e permitir os ataques. Em outro episódio pontual, o cão Roberto Carlos só não foi morto porque mais de seis pessoas se mobilizaram para conter o rottweiler, que deixou marcas profundas de mordidas no pescoço da vítima. Relatos adicionais indicam que o tutor costumava atravessar a rua intencionalmente na direção de pessoas que passeavam com cães menores.
Renato formalizou o boletim de ocorrência na Delegacia Virtual da Bahia em 30 de julho. Conforme nota da Polícia Civil, a apuração indica que o homem, ainda sem identificação formal, estaria utilizando o animal de grande porte como ferramenta para exterminar cães de rua.
Tutor alega legítima defesa e promove ação judicial
Procurado, o tutor do rottweiler negou veementemente qualquer conduta deliberada de crueldade e sustentou que o animal agiu apenas para se defender. "O vídeo que foi feito pela câmera do celular do cidadão mostra que quando ele chega, meu cachorro já está se defendendo. Mas o vídeo que a reportagem colocou, da câmera de segurança, mostra claramente o cachorro de rua indo para cima do meu", afirmou.
O responsável alegou ter tentado afastar o animal de rua antes do confronto e rechaçou as acusações de homicídio canino. "Não tenho nada contra cachorros de rua, mas infelizmente ele veio para cima. Eu tentei bater o pé para tanger, mas ele veio para cima. Como o cachorro veio para cima, automaticamente o meu se defendeu", declarou.
"Eu não estou aqui para fazer extermínio de cachorros e gatos de rua. Esse argumento que o cachorro morreu no local e que o meu mordeu até morrer é mentira", acrescentou.
Ele explicou ainda que sua falta de intervenção imediata nas imagens ocorreu porque se sentiu ameaçado por um terceiro homem munido de um pedaço de pau. "Eu tive que parar de me concentrar na briga, porque tinha um homem sem camisa, desconhecido, com um pedaço de pau atrás de mim. Então, obviamente, por questão de segurança, eu deixei de prestar atenção na briga e passei a prestar atenção no rapaz que estava me filmando", disse.
Ao saber do depoimento pendente, o tutor rebateu e prometeu acionar a Justiça. "Fiquei sabendo pela reportagem que fui intimado, já acionei minha advogada e vou entrar com um processo de calúnia e difamação, porque é isso que está ocorrendo. Gostaria que eles provassem que meu cachorro matou algum outro. O que meu cachorro fez foi se defender", afirmou.
O que diz a legislação
Maus-tratos a animais
A prática de abusos e ferimentos contra cães e gatos é enquadrada no artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais, sob os termos da Lei Federal nº 14.064/2020. As penas preveem reclusão de dois a cinco anos, além da aplicação de multa e da proibição do direito de manter a guarda de animais.
Uso de focinheira em Salvador
A Lei Municipal nº 9.108/2016 regula o trânsito de animais de companhia em locais públicos na capital baiana. A legislação determina que cães de grande ou gigante porte, assim como os considerados bravios, devem estar acompanhados de um responsável e, em ambientes públicos ou de uso coletivo, utilizar obrigatoriamente guia e focinheira.
A lei considera de pequeno porte os animais de até 10 kg, de médio porte os que têm mais de 10 kg até 24 kg, de grande porte os que possuem de 24 kg até 45 kg, e de gigante porte aqueles com mais de 45 kg.
O descumprimento das regras municipais sujeita os proprietários a penalidades como advertência e multas que variam de R$ 1.000 a R$ 5.000, podendo chegar a R$ 10.000 em casos de reincidência.
Até a publicação desta reportagem, a Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Resiliência, Bem-Estar e Proteção Animal (Secis) não havia respondido aos questionamentos sobre a fiscalização no bairro de Nazaré.
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