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Araci

Pai de santo é suspeito de queimar umbandistas em rituais na Bahia

Quatro umbandistas denunciaram o pai de santo Luiz Nascimento dos Santos

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Redação iBahia

29/05/2026 às 10:01 - há XX semanas
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Uma investigação conduzida pela Delegacia Territorial de Araci, no interior da Bahia, apura denúncias graves contra o pai de santo Luiz Nascimento dos Santos. Conhecido na região como “Luiz Curador”, o religioso é suspeito de agredir e torturar frequentadores de seu terreiro de umbanda no município, localizado a cerca de 107 quilômetros de Feira de Santana. Segundo o g1, ao menos quatro pessoas procuraram a polícia para relatar episódios de violência que envolvem cárcere privado e queimaduras provocadas por ferros em brasa e charutos acesos durante supostos rituais de preparação espiritual.


					Pai de santo é suspeito de queimar umbandistas em rituais na Bahia
Pai de santo é investigado por queimar fiéis com ferro quente e charutos. Foto: TV Subaé

De acordo com as apurações iniciais, as vítimas formalizaram as denúncias e foram submetidas a exames periciais de lesão corporal no município vizinho de Serrinha. Nos depoimentos detalhados, os denunciantes relataram que as agressões físicas eram constantemente justificadas pelo líder religioso como procedimentos necessários para a proteção divina e para a evolução espiritual dentro do culto. Até o momento, a defesa de Luiz Nascimento dos Santos não foi localizada para se pronunciar sobre as acusações.

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O pai de santo Luiz Nascimento dos Santos, conhecido como “Luiz Curador”, é suspeito de agredir fiéis de um terreiro de Umbanda. Foto: Redes Sociais

As práticas descritas pelas vítimas apontam para um cenário de severa privação e sofrimento físico. Um dos homens que denunciou o pai de santo, sob a condição de anonimato, revelou o choque ao perceber a natureza dos rituais. Segundo ele, o isolamento em quartos escuros e as marcas corporais eram vendidos como pré-requisitos para o sacerdócio.

“Ele falou que era preciso para se tornar um babalorixá. Tinha que ser marcado e que tinha que passar pelo quarto. Eu fui três dias e meio. (...) Foi onde surgiu a marcação com um ferro quente na brasa”.


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Outra vítima contou que foi marcada com um charuto durante uma oferenda relacionada a Ogum. Foto: TV Subaé

A vítima também revelou que, mesmo diante de ferimentos abertos e dolorosos, o suposto curador proibia terminantemente qualquer tipo de intervenção médica ou uso de pomadas para aliviar o sofrimento, agravando o risco de infecções.

“Ele disse que não era pra tomar nada, nenhum remédio e nem botar nada em cima, que era pra deixar sarar por si mesmo. Ave Maria! Dor, queimação, tudo. Porque é ferro quente, feito num raio de moto”.

O impacto da experiência ultrapassou os danos físicos, gerando profundas sequelas psicológicas na vítima e em seu núcleo familiar, que estranharam o método abusivo empregado no local. “Abalou muita coisa, porque eu vejo aí todos os babalorixás e ninguém tem essa marcação de ferro. Aí me abalou muito. Abalou minha mãe, meu pai. Eles estão tudo revoltados com isso”, acrescentou.

Outra testemunha relatou ter sido surpreendida com a agressão física no momento em que realizava o que deveria ser um ato de devoção e entrega religiosa. “Ele falou que a gente ia fazer uma oferenda de Ogum, mandou a gente comprar as coisas e a gente foi e comprou. (…) Aí tinha um canto, que tinha de marcar Ogum, aí ele apontou pra mim. Na hora, eu fiquei gelada, as pernas começaram a tremer e eu disse: ‘Meu Deus, logo eu?’”.


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Segundo os depoimentos, algumas vítimas também afirmaram que passaram dias recolhidas em quartos do terreiro, privadas de banho e de outras necessidades. Foto: TV Subaé

Além das queimaduras, os relatos apontam que os umbandistas passavam dias inteiros confinados em cômodos do terreiro sem as mínimas condições de higiene básica. A água era racionada e o ambiente não dispunha de banheiros adequados para as necessidades mais elementares.

“Colocaram uma esteira lá com as folhas, a gente deitava e colocava água e a gente tomava. A gente fazia as necessidades em um baldinho lá e escovava os dentes só quando saía”, contou uma das vítimas.

A gravidade das acusações ganhou respaldo técnico com o acesso a registros visuais dos rituais. Vídeos gravados no interior do terreiro mostram um homem sofrendo queimaduras no peito com a brasa de um charuto, além de imagens de mulheres vendadas sendo conduzidas e mantidas presas nos quartos de recolhimento.

Entidades repudiam práticas e descartam ligação com a fé afro-brasileira

O caso gerou indignação entre as lideranças das religiões de matriz africana. A Federação de Umbanda e Cultos Afro da Região de Serrinha (Fucabase) manifestou-se de forma contundente, deixando claro que o uso de violência física ou ferro em brasa jamais fez parte da teologia ou da liturgia dessas crenças, assemelhando-se, na verdade, aos abusos do período colonial.

“Essa prática era exercida na época da escravidão, onde as pessoas eram ferroadas, submetidas a vários tipos de maus-tratos, mas nunca foi ligada à religião”, afirmou Michel Barreto, presidente da Fucabase. Barreto também afirmou que a federação deve pedir o afastamento do religioso.


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Michel Barreto e Anailton Pereira, presidente e secretário da Fucabase, informaram que práticas como queimaduras não fazem parte das religiões de matriz africana. Foto: TV Subaé

Reforçando o posicionamento de acolhimento e preservação da vida que rege as comunidades de terreiro, o secretário da federação, Anailton Pereira, repudiou os atos violentos atribuídos ao suspeito. “A essência da nossa religião é cuidar e amar. Toda casa de umbanda e candomblé é um hospital espiritual, é para cuidar e zelar, tanto fisicamente quanto espiritualmente, de todos que chegarem procurando ajuda ou orientação”.

Em nota de esclarecimento, a Fucabase alertou que o ato de infligir sofrimento intenso e castigo físico configura crime de tortura no ordenamento jurídico brasileiro, passível de reclusão de dois a oito anos, além de poder ser enquadrado como lesão corporal de natureza grave ou gravíssima caso as queimaduras resultem em deformidades estéticas permanentes nas vítimas.

A Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA) endossou o coro de repúdio, desvinculando o suspeito da imagem de um verdadeiro sacerdote e pedindo punição legal. “Isto não faz parte de nenhum ritual das religiões afro-indígenas religiosas. Se alguém decidir ser um sacerdote e pratica algo como esse, isso não é um sacerdote religioso, isto é um agressor ou agressora”, afirmou Leonel Monteiro, presidente da entidade. Ele orienta as vítimas a procurarem órgãos oficiais e reunirem provas das denúncias.


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Leonel Monteiro, presidente da AFA, declarou que rituais que causam queimaduras não são aceitos. Foto: TV Subaé

Contraponto e andamento das investigações

Por outro lado, o Terreiro de Oxóssi, onde os episódios teriam ocorrido, saiu em defesa de "Luiz Curador". Em nota compartilhada por meio de redes sociais, filhos e filhas de santo da casa negaram veementemente qualquer prática de agressão, assegurando que todas as atividades contavam com o consentimento e participação voluntária dos frequentadores. O grupo classificou as acusações como "infundadas" e fruto de "perseguição religiosa", argumentando que cada espaço sagrado detém fundamentos específicos e autonomia em suas práticas litúrgicas.

Apesar da contestação da comunidade do terreiro, a Polícia Civil da Bahia mantém o caso sob rigorosa apuração. O inquérito instaurado pela Delegacia Territorial de Araci investiga o crime sob a tipificação de lesão corporal dolosa, e novas oitivas estão sendo agendadas para interrogar testemunhas, as supostas vítimas e o próprio religioso, visando o completo esclarecimento dos fatos.


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Uma das vítima contou que acreditava que o procedimento era necessário para se tornar babalorixá. Foto: TV Subaé

Nota de esclarecimento do terreiro de Oxóssi:

"Nós, filhos e filhas de santo do Terreiro de Oxóssi, viemos por meio desta nota nos manifestar a respeito dos vídeos que vêm circulando nas redes sociais envolvendo o nome do nosso terreiro.

Reafirmamos com total clareza que, em nenhum momento, qualquer filho ou filha de santo foi obrigado(a) a realizar qualquer tipo de prática contra a sua vontade, muito menos submetido(a) a qualquer forma de tortura física ou psicológica. As acusações divulgadas são infundadas e não correspondem à realidade vivida dentro da nossa casa.

Repudiamos veementemente tais alegações, que consideramos fruto de desinformação e, sobretudo, de perseguição religiosa. Infelizmente, esse tipo de ataque parte, inclusive, de pessoas que se intitulam "pais de santo", mas que desconhecem ou desrespeitam a diversidade de doutrinas existentes nas religiões de matriz africana, onde cada casa possui seus próprios fundamentos e práticas.

Informamos também que já estamos tomando as devidas providências cabíveis diante dessas acusações, buscando preservar a verdade, a integridade do nosso terreiro e o respeito à nossa fé.

Nós, filhos e filhas de santo, temos orgulho do nosso pai de santo e da nossa casa. Permanecemos firmes no compromisso de agir com responsabilidade, ética e transparência, sempre abertos ao diálogo e à construção de um ambiente religioso saudável e respeitoso. Seguiremos honrando nossa fé e nossas tradições, sem nos curvar a ataques ou tentativas de descredibilização".

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