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Estudo

Violência em Salvador: 59% dos tiroteios ocorrem em dias de aula

Estudo revela o impacto dos disparos em dias letivos, mapeia áreas de risco nas escolas e aponta a desigualdade racial e territorial da violência

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Redação iBahia

- há XX semanas
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Um estudo inédito sobre os impactos da violência urbana na rotina escolar de Salvador revela que a maioria dos episódios com tiros na capital baiana ocorre justamente quando as salas de aula estão funcionando. De acordo com a pesquisa “A Geografia da Exposição: disparos de arma de fogo, território e escolas afetadas em Salvador”, produzida pelo Instituto Fogo Cruzado em parceria com a Iniciativa Negra Por Uma Nova Política Sobre Drogas e apoio da Imaginable Futures, 59% de todos os tiroteios registrados entre 2023 e 2025 aconteceram em dias letivos.


					Violência em Salvador: 59% dos tiroteios ocorrem em dias de aula
Foto: Rildo de Jesus/TV Bahia

O levantamento georreferenciado contabilizou 3.748 episódios de disparos no período analisado, o que representa uma média diária de 3,4 ocorrências na cidade. Do total de tiros, 2.206 ocorreram durante o ano letivo.

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Além de desafiar a percepção comum de que o confronto armado se concentra no horário noturno, o relatório aponta que 40% dos casos acontecem de manhã ou à tarde, coincidindo diretamente com os horários de circulação, entrada, intervalo e saída dos estudantes.

A pesquisa detalha a origem dos confrontos registrados nos dias com atividades escolares. Quase 70% desses episódios estão concentrados em duas dinâmicas principais:

  • Intervenções policiais: correspondem a 37,4% dos tiroteios registrados em dias de aula.
  • Homicídios e tentativas de homicídio: somam 32% dos casos no mesmo período.

Índice de Risco do Entorno Escolar (IREE)

Para mensurar o nível de exposição das cerca de 600 unidades da rede pública soteropolitana, que atendem anualmente cerca de 275 mil alunos, os pesquisadores criaram o Índice de Risco do Entorno Escolar (IREE). O indicador cruza dados de proximidade (num raio de até 1 km), gravidade (letalidade dos episódios) e persistência (frequência ao longo das semanas).

O diagnóstico aponta uma profunda assimetria: enquanto a maior parte da rede passa por baixos índices de exposição, um grupo concentrado de unidades de ensino vive sob estado de vulnerabilidade contínuo:

  • 120 colégios integraram zonas classificadas como críticas em pelo menos um dos anos pesquisados.
  • 6 escolas permaneceram no patamar máximo de risco de forma ininterrupta durante os três anos do estudo (2023 a 2025).
  • Evolução anual de impactos: em 2023, 81 escolas tiveram mais de 40 dias afetados por tiros (chegando a até 74 dias num único ano). Em 2024, 71 unidades superaram a marca de 40 dias atingidos (máximo de 80 dias). Em 2025, 23 estabelecimentos ultrapassaram os 40 dias de exposição.

Considerando o calendário de 200 dias letivos, os dados confirmam que a violência não é um evento episódico para milhares de crianças e adolescentes, mas um fator estrutural que interrompe o aprendizado e compromete o direito fundamental à educação.

Desigualdade racial e territorial da violência

Os números do estudo evidenciam o recorte racial e socioeconômico da violência armada em Salvador. Apenas 8 dos 163 bairros da capital baiana concentram aproximadamente 20% de todos os tiroteios mapeados.

Em todas essas oito localidades, a população negra e indígena (não-branca) é ampla maioria, superando 83% dos moradores e atingindo até 92,9% no bairro do Lobato. A renda média mensal por pessoa em seis dessas regiões é inferior a R$ 900.


					Violência em Salvador: 59% dos tiroteios ocorrem em dias de aula

Alunos sob maior risco concentram-se em duas regiões

Em 2025, mais de 23,5 mil estudantes estavam matriculados em colégios situados em áreas de alto risco ou críticas. Esse público não está disperso de forma homogênea: quase 17,9 mil desses alunos frequentam unidades em apenas duas regiões da cidade:

  1. Prefeitura-Bairro Liberdade / São Caetano: concentra 12.643 matrículas sob risco severo.
  2. Prefeitura-Bairro Cidade Baixa: reúne 5.242 alunos em territórios críticos.

Ambas as regiões foram enquadradas no relatório como áreas de "Prioridade Muito Alta" para intervenções governamentais emergenciais.

Recomendações para políticas públicas

Diante dos achados, os organizadores do estudo defendem que as autoridades públicas abandonem abordagens genéricas para a rede de ensino e adotem políticas territorializadas.

As principais recomendações do relatório incluem:

Uso de dados georreferenciados e do IREE para orientar o planejamento das secretarias municipais e estaduais.

Protocolos intersetoriais integrados reunindo Educação, Segurança Pública, Saúde e Assistência Social para respostas rápidas antes, durante e após crises de violência.

Apoio psicossocial e pedagógico reforçado para alunos e profissionais que atuam em bairros prioritários, com foco em conter os danos cognitivos e emocionais provocados pela exposição diária ao medo.

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