Aos 63 anos, Irá Carvalho esbanja vigor e quer fazer mais pelo entretenimento na Bahia: ‘Não saio desse foco’


Foto: Divulgação

Irailda Carvalho de Jesus, mais conhecida como Irá Carvalho, completou 63 anos na sexta-feira (12). Destes, 35 foram dedicados ao mercado do entretenimento da Bahia. Com ideais firmes, pensamento positivo, pés no chão e fé, a empresária e diretora da Íris Produções se descobriu agitadora cultural ainda na infância.

“Eu sempre gostei de cultura, sempre gostei de estar envolvida com artes da escola, desde o primário. Eu estava sempre envolvida em festa: Dia dos Pais, Dia das Mães, festa da primavera que antigamente comemorava. Todas essas datas bem importantes. Tinha missa, não sei o quê, eu estava no meio. Gostava de matemática, sempre gostei português, mas a arte para mim estava sempre em primeiro lugar”.

Irá Carvalho celebra mais um ano de vida | Foto: Reprodução / Instagram

Acaso, coincidência, sorte ou destino?

O começo da vida empreendedora de Irá Carvalho vem acompanhada de uma história inusitada. Para ela, o destino é quem sorriu após perder uma unha durante um show de Gilberto Gil e Jimmy Cliff, realizado na Fonte Nova, em 1980. Foi a partir dali que a vida de Irá mudou completamente e uma empresária nata surgiu.

“O show foi tumultuado, eu perdi a unha e fui para para uma clínica no Canela. Quando eu saí de lá já não tinha mais ônibus, eu não tinha carro, não tinha dinheiro para táxi, morava muito longe e fiquei pedindo carona na esquina. E foi aí que passou Estácio, meu ex-marido, que já trabalhava com eventos e shows”.

“Eu não sabia de nada. Eu não tinha noção como era, não tinha celular, não tinha computador, não tinha nada. O contrato na época vinha pelo correio e dias depois a gente devolvia o contrato assinado e assim nós começamos e nos tornamos uma referência para produzir o pop rock que foi o auge da década de 80 e 90”.

“A gente produziu quase todo mundo: Legião Urbana, Titãs, Cazuza, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso… Pela MPB fizemos Caetano Veloso, Marina Lima, fizemos a estreia de Marisa Monte em Salvador”.

No início dos anos 90, o Axé Music estourou nacionalmente. Quando Luiz Caldas e Paulinho Camafeu compuseram juntos o primeiro sucesso nacional (“Fricote”) daquele ritmo musical genuinamente soteropolitano, o Pop Rock de imediato viu o público cair. O que não foi nada bom para os negócios de Irá e do marido na época. No entanto, a palavra “desistir” não está no dicionário da baiana que seguiu firme.

“O público começou a diminuir para esses shows, porque o Axé ficou muito forte. Mas a gente nunca desistiu. Eu nunca desisti do pop, do rock, da MPB. Foi onde tudo começou na minha vida, foi a essência de tudo. E eu, mesmo em baixa, continuei”.

“Com isso eu fazia um show ali, outro aqui, eu acreditava e nunca deixei de fazer. Tanto que hoje esses artistas estão em alta. Fiz todos esses eventos de agora: Djavan, Lulu Santos, Roupa Nova, todos lotados. Eu tenho uma boa relação com os artistas porque sempre acreditei e hoje eu colho muito os frutos disso”.

Pandemia

Em 2020, o mundo virou de cabeça para baixo após a chegada da pandemia do Coronavírus. Mas quais foram as saídas que uma empresária experiente como Irá Carvalho? Boas relações com empresários dos artistas e o Drive In foram alternativas encontradas por ela.

“Quem trabalha com show, com eventos culturais, foi quem sofreu mais. Parou tudo real e eu achei que voltaria em dois ou três meses. Eu sou muito positiva, muito otimista, e tinha uma reserva e eu disse: ‘é com ela que eu vou me agarrar, vou ficar com ela até quando puder voltar'”.

“Eu fui uma das poucas que apostou no Drive In e tive bons resultados. Vendemos 400 ‘carros’ e 30 ‘carros’ extras. Fiz Melim, que foi um sucesso e isso deu assim um fôlego e tanto”.

“Aí achei que íamos voltar no verão de 2021 e com isso não parei de dialogar com os empresários dos artistas. Batia papo, mandava mensagem, planejava, marcava, remarcava, e passou. Quanto eu tive a primeira oportunidade em 2022, eu fiz o primeiro show, que foi Nando Reis e Jau, lá em Praia do Forte [litoral norte da Bahia]”.

“Eu tenho um espírito muito de empreender, de acreditar. Eu acho que só não tem jeito para a morte. Eu uso essa frase o tempo todo, para mim foi sofrido. A gente sabe que a pandemia mudou o mundo, a gente está vendo uma situação bem diferente, com guerra, novas doenças, mas a gente tem que continuar”.

Volta por cima

Soteropolitana raiz e de família humilde, Irá já morou na Ribeira, São Caetano, Fazenda Grande e Marechal Rondon. Durante a entrevista, ela revelou que passou por todos os tipos de perrengues, mas com persistência se manteve firme a fim de virar o jogo não só para ela, mas para todos os parentes.

“Passei pelo pão que o diabo amassou. Eu sou a mais velha de 8 irmãos. Eu morava ali na Ribeira, era na maré, de noite eu via a água passando por debaixo da cama. Mas isso não me afeta. Isso passou, foi aquela história ali. A gente teve que separar, eu e minha família. Todos os irmãos. Um foi para casa de um parente, eu fui para Feira de Santana com meu tio, que é meu padrinho. Só anos depois que a gente se uniu”.

Irá Carvalho e família | Foto: Reprodução / Instagram

Nem mesmo a separação afetou a união da família. Muito pelo contrário, as dificuldades enfrentadas pelos oito irmãos só fortaleceram a relação entre eles. “Somos muito unidos. Existe uma relação de amor entre nós e isso é muito da minha mãe, que hoje tem 85 anos. Ela agrega, está sempre presente. Cinco irmãos trabalham com produção, quem eu pude trazer, eu trouxe. Saímos daquela situação, daquela zona e hoje estamos bem, morando em um bairro mais legal. Eu sempre busquei trazer os meus”.

Ser mulher preta no mercado de trabalho é desafiador

O universo do trabalho vem sofrendo importantes e significativas mudanças no que tange à estrutura produtiva e relações hierárquicas. Embora o Brasil seja o país com maior percentual de população negra fora da África, com 55,8% segundo o IBGE, as mulheres líderes no mercado de trabalho é de apenas 9%, segundo o Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC). Irá está incluída nessa estatística e tem consciência disso.

É por causa desse e outros motivos que a produtora cultural faz questão de erguer a cabeça e mostrar do que é capaz dia após dia, mesmo sofrendo racismo por pessoas que ela própria contratou para os eventos.

“É difícil. Eu sei quem me encara como profissional, quem me respeita, eu sei onde eu entro, como sou recepcionada […]. Mas eu entro de cabeça em pé, com a cabeça erguida e encaro qualquer situação. Eu já sofri racismo e isso só me fortalece. Tem exemplos de seguranças que me barram, seguranças que eu estou pagando, que eu contratei para os meus eventos. A gente tem que romper essa barreira e a primeira coisa que a gente tem que fazer é se igualar”.

“Eu vivo a minha vida exatamente como eu quero, desde que consegui um trabalho, uma rentabilidade, isso me fez ter um conforto melhor para mim e para os meus. Eu não vou estar bem se os meus [mãe, irmãos, filhos e netos] não estiverem”.

Irá Carvalho e Marisa Monte | Foto: Arquivo pessoal

Produção é sinônimo de problema?!

Não há aquele produtor cultural que diga que nunca passou por um problema durante um evento. Irá, por exemplo, já passou por perrengues pesados de artista que resolveu quebrar itens dentro do hotel, até mesmo shows que tiveram de ser paralisados por problemas no som.

“Produção chama-se problema. Eu digo toda hoje, se não tiver problema não é produção. Por mais que planeje, organize, na hora vai acontecer alguma coisa. Recentemente, com Lulu Santos, na primeira música o som parou. Eu gelei. O som ficou fora por um dez minutos”.

“Outros perrengues que eu passei foi do artista quebrar coisas no hotel, quebrar espelho de elevador. De ter que providenciar o impossível”.

“Às vezes acontece de ter um prejuízo de um show não ser legal, mas eu estou sempre a mesma, as minhas reações são iguais, entendeu? Porque eu posso não ganhar hoje, mas eu ganho amanhã com esse mesmo artista, e isso é uma coisa que eu aprendi nesses anos de estrada”.

Irá Carvalho e filhos | Foto: Reprodução / Instagram

Disposição e inspiração

Engana-se quem pensa que passa pela cabeça de Irá Carvalho uma possível aposentadoria. Renovada para fazer ainda mais dentro do cenário do entretenimento baiano, desacelerar está longe de ser uma realidade para a empresária.

“Eu tenho uma energia, isso é de mim. Eu tenho amigas com 60 que já pararam, que só querem ler um livro. Ainda bem que eu não tenho isso, que eu estou bem de saúde, graças a Deus. Eu gosto de trabalhar, eu durmo trabalhando, acordo trabalhando[…] durmo tarde, mas no outro dia estou ótima”.

“Eu gosto de fazer farra, cozinhar, gosto de viajar, de praia, adoro o campo. Gosto de sair com meus dois netinhos para tudo, cinema, shows. Teve um show recente que eu levei os meninos e saí de lá às 5 da manhã. Eu me divirto com isso, me sinto bem“.

Irá terminou a entrevista deixando uma mensagem para a nova geração que almeja empreender, seja ele qual for o seguimento.

“Foque no que você vai empreender, naquilo que você quer, porque o universo é muito amplo. Às vezes você quer fazer o negócio que você não domina, que você não gosta, mas acha que é legal, mas não tem a ver com você […] você tem que gostar de fazer o que quer empreender. Você tem que estar completamente segura daquilo e acreditar. Eu faço isso. Eu trabalho com os artistas e eu não saio desse foco”.

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