Preta Bahia

Coletivo e Plural: conheça Alan Costa, idealizador do 'Afrobapho'

Artista e ativista baiano falou com o iBahia sobre a plataforma 'Afrobapho' e suas vivências pessoais: "Nunca vão poder me colocar dentro de um estereótipo"

Redação iBahia
02/04/2022 às 8h30

6 min de leitura

Foto: Acervo Pessoal

O termo "estereótipo" se refere a uma imagem preconcebida, que define e limita uma pessoa a sua aparência, naturalidade ou comportamento. Dentro desse contexto, é possível tentar, erroneamente, encaixar Alan Costa em algum adjetivo ou estereótipo. Mas o fato, é que nenhum deles será suficiente para descrevê-lo bem. O Preta Bahia desta semana teve o prazer de conhecer Alan Costa, baiano de Santo Antônio de Jesus e idealizador do coletivo ‘Afrobapho‘. 

"Uma caixinha de surpresas" é assim como Alan Costa gosta de se definir, aos 31 anos, tendo em vista que já se acostumou a surpreender e superar as expectativas criadas a seu respeito.  "Nunca vão poder me colocar dentro de um estereótipo" afirmou ele em entrevista ao iBahia. Desde criança surpreendia, não correspondendo ao que se esperava do primeiro menino da família.

"E eu não conseguia me relacionar com as crianças, não jogava bola com os meninos. Na verdade, para mim, esses eram momentos de bastante violência." relembrou.

Essa violência se dava pois meninos geralmente são ensinados a seguir um estereótipo de masculinidade falho e preconceituoso. Alan nunca se encaixou nesse papel e desde criança escolheu a solitude da sua casa a fingir ser o que não é, apenas para ser tolerado.  

Foto: Acervo Pessoal

Esse desencaixe fez Alan perceber que sair de Santo Antônio seria necessário para viver e experimentar suas potências. Foi em Salvador, que ele encontrou espaço e apoio para explorar seus múltiplos talentos. Formou-se em Letras Vernáculas, pensando em explorar sua criatividade para escrita. Mas no meio do caminho concretizou algo ainda maior: a ideia de coletivo que acolheria e representaria pessoas que como ele, não se encaixavam, por sua cor de pele, pela sua sexualidade, pela sua forma de existir no mundo, o ‘Afrobapho’. 

COLETIVIDADE
É difícil até para o próprio Alan falar de si sem citar o ‘Afrobapho’, sua maior criação. O coletivo se tornou, não apenas uma extensão do seu idealizador, mas também o local onde trabalha desenvolvendo sua potência artística e ativista. Além disso, o ‘Afrobapho’ é para Alan um espaço onde ele, junto com os outros 19 participantes, encontra coragem para se colocar em totalidade, seu jeito, sua aparência, sua estética, seu discurso e sua luta.

"Eu acho que o Afrobapho é justamente isso né? Eu trouxe um pouco do que eu aprendi na academia e transformei em um movimento que é popular. Porque a linguagem que a gente utiliza pra falar de certas coisas é uma linguagem que atinge a um outro público. Quando eu vejo esse público entender as coisas, eu fico mais feliz, porque eu comparo com o processo que a minha família passou." refletiu. 

A família de Alan sempre o acolheu amigavelmente mesmo, não o compreendendo muito bem. O entendimento veio coincidir com o crescimento da visibilidade do ‘Afrobapho’, que acabou sendo um grande holofote para o artista. 

Foto: Acervo Pessoal


"Teve esse momento que eu comecei a me tornar uma pessoa pública, aparecer nas emissoras. (…) Foi aí que as pessoas da minha família tiveram um primeiro contato com a minha estética não-hétero-normativa. Dá um nó na cabeça das pessoas, mas foi um processo que acabou fortalecendo minha relação com meus pais. Eles conseguiram, de alguma forma, tirar de letra."
afirmou o ativista. 

Além de estar a frente dos projetos do Afrobapho, Alan também é mobilizador social na campanha "Jovem Negro Vivo" da Anistia Internacional Brasil. E na prática, a vida pessoal dele eventualmente se mistura com sua luta coletiva em prol de uma sociedade mais igualitária, diversa e segura para jovens negros e LGBTQIA+. As vezes não dá tempo de ser apenas um jovem de 31 anos, com sua vida e inseguranças pessoais.  

"Hoje em dia é muito difícil pra mim conseguir separar o Alan que fundou esse movimento do Alan individual. Porque eu fico tentando entender o que realmente faz parte do meu eu, e qual é a parte que foi se moldando a partir do Afrobapho." 

PLURALIDADE
Para além da militância, encontramos ainda um Alan mais íntimo, quase tímido, gentil, acolhedor, leal com quem o cerca e sempre disposto a ajudar e ser base para quem o solicita. Na individualidade, há também um Alan inseguro, receoso com os malefícios que a sua exposição pode vir à trazer. Afinal, na internet, ninguém está livre de ser cancelado. 

"Já me situei nesse lugar onde as pessoas me acham coerente com meus discursos, e tenho medo de como os meus erros – porque eu erro – podem ser vistos pelas pessoas. E em como isso pode implicar no que eu já criei. Porque a internet tem esse perigo, às vezes você constrói muitas coisas importantes que parecem ser insignificantes a partir do momento em que você erra." refletiu o ativista.  

Ao olhar para o futuro, Alan se vê em palestras, escrevendo livros, dando cursos em universidades, concluindo o projeto de mestrado e doutorado. Mas acima de tudo, Alan seguirá quebrando estereótipos. Em sua trajetória, ele segue se fortalecendo através dos laços que cria e se vendo mais forte e seguro em meio a coletividade. 

"O Afrobapho foi um divisor de águas na minha vida. Não só pensando em criação e produção cultural e artística, mas também principalmente pelas relações sociais e pessoais que eu construí ao longo desses anos e que são suporte emocional para mim, que entendem as minhas dores. O Afrobapho é uma segunda família pra mim, porque há muito acolhimento. É muito gratificante pra mim viver essa relação, porque eu me sinto mais vivo." 

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