‘O Balé Folclórico é meu corpo político e o Bando de Teatro é minha voz’, reflete Zebrinha sobre direção artística de duas das maiores instituições negras do país


Foto: Reprodução/Instagram

“O Balé Folclórico da Bahia é meu corpo político e o Bando de Teatro Olodum é minha voz política”. É dessa forma que Jose Carlos Arandiba, ou somente Zebrinha, como é conhecido, reflete sobre o papel que desempenha como diretor artístico de duas das maiores instituições negras do país. Símbolo de representatividade, o renomado coreógrafo baiano é fonte da Preta Bahia desta semana. Em entrevista à editoria, o artista deu mais detalhes sobre o trabalho que desenvolve.

“É através desses dois grupos que eu faço política de verdade. É através desses dois grupos que eu sou esse artista. Eu não acho que eu sou militante não. Eu acho que eu sou a própria reivindicação da vida artística. De um lugar de respeito, de um lugar de fala, de respeito. É através desses dois grupos que eu me manifesto desse jeito, inclusive pelos trabalhos que a gente produz”.

Para Zebrinha, a importância que têm as duas entidades, onde se formaram alguns dos maiores artistas baianos, diz muito sobre quem ele é também. Aos 68 anos, o coreógrafo não esconde o orgulho que tem do talento que lapidou e desenvolveu ao longo de cinco décadas de carreira. Em breve, inclusive, o Balé Folclórico ganhará um documentário sob direção da atriz Glória Pires.

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“Essas são as duas grandes instituições artísticas pretas nesse país, e você estar à frente dessas grandes instituições quer dizer que você também é enorme. Eu me acho assim. Eu gosto de ser grande. Não sei se sou, mas eu gosto de ser grande. E quando você é grande e gosta de ser grande, você espera acompanhar pessoas grandes. Eu considero meus alunos monstruosos”.

Nascido e criado no bairro da Liberdade, em Salvador, Zebrinha começou a dançar ainda na adolescência, na escola. Ele lembra da estreia nos palcos, durante um trabalho de química. “Eu me descobri o artista que eu sou dançando a molécula da água. Foi uma experiência de química. Nós estávamos estudando moléculas e fizemos uma coreografia que representava a molécula da água. Eu era o núcleo”.

Na época, o coreógrafo sonhava em ser veterinário e, após a formação no que hoje é o ensino médio, chegou a ingressar no curso. No entanto, acabou abandonando a faculdade para seguir atrás de um sonho ainda maior: a dança. O talento e as oportunidades que encontrou no caminho o levaram para fora do Brasil, onde pôde aprimorar o talento que já tinha.

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Zebrinha lembra que não foi fácil abandonar a formação na Bahia para seguir atrás da dança, mas não deixou de fazer. “Imagina você, filho de família pobre, abdicar de uma faculdade? A minha grande sorte foi que em seguida eu achei meios de sair do Brasil e estudar fora. Hoje em dia até que seria compreensível, mas na minha época, para você investir em educação era preciso tirar de alguma coisa, às vezes até da comida”.

E foi na família que o baiano encontrou apoio. Descendente direto de negros escravizados, o coreógrafo destaca ancestralidade e tudo o que ela o ensinou. “Eu sou filho daí. Eu sou filho dessas pessoas que prestavam serviço para essa família há quase 2 séculos. Então, minha vida era traçada para não dar certo. Minha vida era para eu continuar, talvez, sendo caseiro da casa de um desses herdeiros”.

Uma possibilidade que nunca se tornou realidade por influência de alguém que o artista exalta e onde encontrou apoio: o avó materno. Homem que também foi um pai para ele. “Meu avô tinha uma visão muito à frente do tempo dele, e ele dizia que ele faria pelos netos o que ele não conseguiu fazer pelos filhos. E isso ele conseguiu. Fazer que todos os netos estudassem, todos fossem para a faculdade. Somos a primeira geração da família a ter uma formação”.

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Atualmente, Zebrinha fala cinco línguas diferentes e coleciona passagens por escolas de danças de diversos países, como Estados Unidos, Holanda, Colômbia, Canadá, Alemanha e Suécia. No entanto, ele conta que nunca precisou pagar para ter a qualificação artística.

“Eu nunca paguei um curso na minha vida. Nem curso de língua, nem curso de mestrado. Eu falo cinco línguas, estudei de verdade três, e eu nunca paguei. Eu falo sempre que eu tenho uma das educações mais caras do Brasil e eu nunca paguei um centavo por isso. Sempre tive oportunidades. Eu tive chances. No meu caminho, eu achei portas abertas”.

As oportunidades o artista conta que conquistou ciente do lugar que ele queria alcançar. Ainda novo, ele já sonhava e queria ser referência no que já fazia na época. Agora, passa os ensinamentos para os alunos. “Eu sempre soube o lugar que eu queria ocupar no mundo e isso é o que eu ensino aos meus alunos. Faço que eles vejam que são donos do próprio destino. A pessoa que eu sou hoje é a pessoa que eu quis ser. Nada foi por acaso. Foi a pessoa que eu construí”.

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Zebrinha destaca o papel da arte na formação e de como é importante reconhecer a grandeza quando ela existe. “Eu acho que a arte deve fazer parte da educação de toda criança, de todo ser. É daí que você vai criar cidadãos críticos, criativos. É a partir da educação artística. Para você chegar à excelência artística, você precisa reconhecer que você tem esse talento e que nem todo mundo tem”.

E esse papel ele herdou dos mestres que teve durante a formação. Artistas que o coreógrafo faz questão de exaltar como parte do que ele é hoje. “Quando essas pessoas me têm como inspiração, não é a mim somente. É a essas dezenas de pessoas que fazem parte da formação da minha vida, de caráter, artísticos. Eu sou a soma dessas pessoas”.

Recentemente, enquanto jurado do quadro “Dança dos Famosos”, do programa “Caldeirão”, da TV Globo, Zebrinha protagonizou pelo menos dois lindos momentos de homenagens. Citações de dois dos candidatos da competição: a atriz Jéssica Ellen e o ator Sergio Menezes. Em momentos distintos, primeiro com Jéssica e depois com Sergio, o artista foi homenageado pela representatividade.

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“Eu fico tocado com o reconhecimento disso, e essas manifestações públicas me tocam muito, mas eu também acho que é a maneira da gente celebrar os nossos, porque eu celebro os meus desse jeito. Alguns deles já se foram e eu vou continuar falando deles. Eu acho que é obrigação dos mais velhos serem exemplo para os mais novos, e obrigação dos mais novos celebrar sempre os mais velhos”.

E Zebrinha comemora o sucesso. “Uma coisa que eu acho que aprendi muito cedo é que minha dignidade é intocável. Então, eu chegar aqui com minha dignidade intocável, com a reputação que eu tenho, isso é o maior diploma de todos. O meu sucesso é minha felicidade”.

É partindo desse pensamento, que o coreógrafo destaca a importância do resgate e valorização da memória preta, principalmente com o Dia da Consciência Negra.

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“Todas as vezes que tivermos a possibilidade de falarmos na gente, vamos falar. Todas as vezes que tivermos a possibilidade de celebrarmos a gente, vamos celebrar. Todas as vezes que tivermos a possibilidade de contarmos nossa história, vamos contar. Como nós não temos essa oportunidade todos os dias da vida, porque a mídia não nos dá atenção, porque somos invisíveis, vamos aproveitar esse dia reivindicando para que sejam todos os dias. Mas vamos celebrar. Por enquanto, é o que temos, é o que conquistamos”.

Para o artista, só não há espaço para as pessoas negras que fazem o processo contrário. “Eu acho muito desrespeitoso é as pessoas que lutaram para que esse dia exista e existe muito preto que cospe em cima disso. Isso é cuspir em cima da luta de muita gente. Ficar criticando, cuspindo, porque é um dia só, porque deveria ser todo dia, porque a raça é humana, a raça é aquilo, é só dar armas ao nosso opressor, é fornecer munição aos nossos opressores”.

Do Bando para a vida

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Durante a entrevista, Zebrinha também comentou sobre a relação que tem com o ator Lázaro Ramos, que foi aluno dele no Bando de Teatro Olodum. Sempre próximos e inseridos um na vida do outro, os artistas desenvolvem papéis muito parecidos com o de pai e filho. Algo que se estende também para a atriz Taís Araujo, com quem Lázaro é casado.

“É uma relação de puro amor e afeto. São pessoas que não são da minha família, mas eu criei uma família fora da minha família, que é muito mais importante que a minha família. Esse núcleo deles é de uma importância enorme na minha vida. Tanto que a gente não gosta de se desgrudar. A gente gosta de ficar juntos”.

Para falar sobre essa proximidade, Zebrinha lembra de uma grande perda que teve no ano passado, quando o filho morreu em decorrência da Covid-19. De lá para cá, além da família de sangue, o artista conta com o apoio da de coração. “Eu tenho um neto e uma neta, que meu filho deixou, que tem mais ou menos a mesma idade que os filhos de Lázaro e Taís. O projeto é deixar essas crianças juntas”.

“Agora, no final do ano, o projeto é passarmos o final do ano juntos. O projeto é falar do outro a vida toda. É celebrar o outro a vida toda. Esse núcleo de família é assim. É uma relação que a gente se fala quase todos os dias. É um negócio que é fora dos padrões. É enorme”, completou o coreógrafo.

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