‘Quero motivar os brasileiros a conhecer o continente africano com um olhar de riqueza pessoal’, diz Kety Kim Farafina


Foto: Reprodução / Instagram

Kety Kim Farafina é uma mulher de sonhos e conquistas. Soteropolitana do bairro periférico de Santa Mônica, mas com fortes laços com o Curuzu, ela atua como produtora executiva e pesquisadora, tendo como foco a divulgação das culturas do oeste africano. 

O primeiro passo para chegar onde está aconteceu quando tinha 15 anos. Ao ouvir uma brincadeira de sua família sobre fazer ela uma viagem para o parque da Disney, nos Estados Unidos, respondeu: “Eu quero conhecer a África”. 

Uma década mais tarde, isso aconteceu: Kety conheceu o Senegal e Guiné-Conacri, dois países que, segundo ela, a transformaram em uma nova mulher. Em entrevista ao iBahia, ela falou sobre essa experiência, projetos e todos os efeitos das realizações de suas metas. 

Nascimento dos sonhos

O interesse de Kety pela África surgiu na adolescência, ao considerar baixa a presença de elementos culturais do continente em Salvador. “Sentia falta de colocar no rádio e ouvir uma música de Moçambique, de Cabo Verde, da África do Sul, e entender de onde veio cada uma delas”, conta. 

Nessa época, ela começou a entender mais esse contexto por meio do bloco afro Ilê Aiyê, em uma conexão que começou de uma forma um tanto quanto incomum. “Ficava chateada porque ninguém da minha família me levava [aos ensaios do bloco]. Um dia, aos nove anos, eu aprendi o caminho e fui escondida. Achei tão bonito. Aquelas mulheres com o cabelo trançado, pele retinta, maquiagem incrível”, afirma. 

Daí nasceu uma forte relação com o fundador e presidente do bloco, Antônio Carlos dos Santos, o Vovô do Ilê, que a apoiou fortemente a viajar para o continente africano. “Quando eu entendi que tudo que a gente estuda na tecnologia, no mundo, em todas as coisas, veio da África, criei uma frase que gosto muito: ‘A África é o maior aspiracional do mundo. Tudo que você buscar, pesquisar e encontrar, verá que nasceu na África”.

Com isso em mente, ela traçou o percurso: “Preciso ir ao continente africano. Preciso aprender o que os griots, percussionistas, o que as culturas africanas têm para me passar”. E assim foi feito. “Quando meus pés tocaram no continente africano, falei: ‘eu consegui”’, afirma. 

O contato direto com tudo aquilo que até então só conhecia de longe gerou em Kety sensações além das que já esperava. “Foi muito forte sentir o cheiro do Senegal, ouvir a sonoridade da cultura, dos cânticos muçulmanos, das rezas. Foi muito especial, não tive como contar a lágrima. Era um projeto de desde os 15 anos. Foi algo que transformou a minha vida”, explica.

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Retorno ao Brasil

Após um ano de viagens entre Senegal e Guiné-Conacri, Kety retornou ao Brasil com muito mais conhecimento em sua bagagem. “Fico muito feliz de ser uma mulher negra, nordestina, que pôde conhecer o continente africano. Não só passear, mas morar, aprender francês e línguas nativas. Não voltei a mesma pessoa, voltei uma nova mulher”, diz. 

Essa nova mulher colocou em prática tudo que sempre desejou. Trouxe os ensinamentos que teve e se propôs a difundi-los por aqui. “Quero motivar os brasileiros a conhecer o continente africano com um olhar de riqueza pessoal e conhecendo também as técnicas ancestrais que esse lugar ainda ainda tem para nos transmitir”, explica. 

A decisão de trabalhar a favor de uma imagem positiva da África veio após um incômodo ao perceber como o continente é tratado no Brasil. “Pouquíssimas vezes ligamos a TV e conseguimos ver informações reais do que acontece nos países africanos. Eu percebi que precisava me comunicar com os brasileiro de alguma forma”, afirma Kety.

A primeira ação foi resgatar o Dia Internacional da África, celebrado em 25 de maio. Para Kety, é um momento que deveria ser mais destacado, possibilitando reflexões e marcando presença, por exemplo, nas escolas e nos veículos de imprensa. 

Para isso, a pesquisadora promove diversos eventos pelo Brasil baseando-se sempre nas temáticas do oeste da África, salientando todas as complexidades e riquezas dessa região. Recentemente, promoveu na cidade de São Paulo o curso gratuito “África e suas múltiplas riquezas artísticas e tecnológicas”, iniciativa que ainda deve acontecer em outros lugares do país. 

Outra ação foi apresentar características de uma dança baseada no ritmo musical marfinense coupé-décalé (“o corte do ritmo”, em português), que a surpreendeu quando escutou pela primeira vez. “Estava na rua ouvindo um som e falei: ‘Isso me lembra algo muito familiar. Que som é esse? É uma mistura de Timbalada com o pagode da Bahia’”, relembra, aos risos. 

Ao descobrir como se dança, mais uma surpresa. “Parece um pouco com o arrocha. Para mim, foi como se estivesse em casa, como se eu voltasse ao Curuzu e estivesse dançando na rua com meus amigos”, conta. 

Por isso, Kety faz questão de destacar que o coupé-décalé é uma dança que desenvolve a saúde dos corpos pretos, principalmente das mulheres. “O corpo cura. A dança cura. O conhecimento ancestral também cura. Nosso corpo ancestral tem memória”, defende. 

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Futuro

Kety conta que está desenvolvendo novos projetos que também se baseiam na divulgação sobre a África, inclusive, em relação a como um brasileiro pode viajar e conhecer o oeste do continente: “É preciso que as pessoas prestem muita atenção no continente africano e deixem de achar que é um lugar de mazelas. Não tem só isso. Tem riquezas, heranças e tecnologias ancestrais”.

Com a mesma motivação da adolescência e uma trajetória de conquistas, ela reforça que toda vontade é deve ser seguida. “O que está na sua cabeça não é loucura. Se você ouvir, acredite. Foque, pesquise, e isso será uma grande transformação na sua vida, assim como foi pra mim”, finaliza. 

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