‘Só vou me sentir realizada quando for comum a nossa presença nesses espaços’, diz Luana Souza sobre apresentadores negros na TV


Luana Souza apresentando o Mosaico Baiano – Foto: Reprodução / TV Globo

Luana Souza já passou por diversas áreas da comunicação como rádio, assessoria parlamentar, redação online e produção cultural, mas foi na TV que a jornalista, de 26 anos, natural de Cachoeira, recôncavo da Bahia, se encontrou.

O carisma de Luana chega antes da sua presença. Tendo Glória Maria, a primeira repórter negra da TV brasileira como referência, a baiana contou em entrevista ao iBahia que desde muito pequena dizia que tinha o desejo de que sua família a visse na televisão.

“Eu ficava na frente do espelho imitando Glória Maria. Ela era a única referência de mulher negra no jornalismo que eu tinha na infância e eu adorava ver aquela mulher brilhando, mostrando poder, altivez […] eu falava: ‘eu quero ser ela, quero fazer o que ela faz’. Minha família toda reunida empolgada vendo o jornal, ficava dizendo: ‘Eu quero que a minha família toda me assista também’”.

Embora a empolgação da infância, aos 15 anos Luana começou a duvidar de si mesma e a questionar se de fato era aquilo que gostaria de fazer. Essa dúvida está atribuída a sua melanina acentuada. Os desafios para pessoas pretas são inúmeros e maiores. Para mulheres pretas que não se encaixam num padrão eurocêntrico e um tanto irreal, ainda mais.

O processo de empoderamento da própria imagem veio aos poucos. Segundo Luana, até hoje ela precisa de terapia para entender questões do passado como essa citada acima. Mas a vida sorriu para a comunicadora cachoeirana que em 2020 ingressou na TV Bahia.

Desde então, ela fez reportagens para o jornalismo e também para programas de entretenimento como Conexão Bahia, comandado por Aldri Anunciação. Em 2021, ela assumiu a apresentação do Mosaico Baiano ao lado de Pablo Vasconcellos. A jornalista também já participou do Conversa Preta ao lado de todos os outros apresentadores e repórteres pretos da filiada da TV Globo.  

Aos risos, Luana contou que quando recebeu a ligação para a nova oportunidade achou que fosse trote e disse que estava “sem tempo na agenda”.

Luana recém-chegada na filiada da TV Globo – Foto: Reprodução / Instagram

“Já tinha completado o curso, mas continuei na web TV [Saberes Cruzados] da faculdade onde eu era a apresentadora. Apenas por hobby, diversão e foi de lá que eu vim parar na TV Bahia. Eu lembro que meu telefone tocou, era uma pessoa da emissora dizendo que gostaria de marcar uma reunião comigo. Eu achei que era brincadeira e disse: ‘Oh minha senhora, minha agenda tá lotada. Eu não tenho tempo’. No entanto a pessoa insistiu, mandou mensagem, e eu fui pesquisar se a pessoa realmente era quem dizia, aí eu voltei atrás na hora. Jamais imaginie que fosse oportunidade para ser repórter”.

Com pés no chão, valor herdado principalmente da sua avó, Luana não se acomoda com o fato de estar numa posição de privilégio e segue estudando para mais. Mestra em cultura e sociedade, ela possui quatro livros publicados sendo um solo e outros três em publicações coletivas. Atualmente ela é doutoranda em comunicação.

”Minha avó era professora e ela sempre me educou dizendo para que eu nunca parasse de estudar, mesmo já trabalhando, formada, eu continuei estudando, e foi assim que eu fiz mestrado e hoje ingressei no doutorado. Várias pessoas me questionam: ‘você já chegou na TV Bahia, já chegou num patamar’, mas eu sempre digo que preciso continuar estudando e isso tem muito do que eu aprendi com a minha avó. É um legado que eu trago na minha vida e as vezes me desdobro em várias, mas tem valido a pena”. 

Foto: Reprodução / Instagram

Referência para a nova geração

Luanas, Ritas [Batista] e Manoels [Soares] são importantes e necessários para meninos e meninas pretas que querem ingressar no Jornalismo. Eles são os espelhos para que a nova geração veja que existe a possibilidade de chegar a um patamar legal dentro das telinhas.

A baiana tem consciência disso e faz de tudo para ser a mais assertiva possível. No entanto, ela quer mais e almeja que no futuro, a televisão esteja cheia de rostos pretos no comando de jornais e programas de entretenimento.

“Às vezes não cai a ficha. Eu fico: ‘caramba! Porque ela está dizendo isso para mim?’, várias alunas mandam mensagens e quando eu vejo onde Rita está, Manoel está, eu que estou chegando, ter esses espelhos e ser também esse espelho é muito gratificante. Mostra que a caminhada tem dado certo, mas eu não quero ser uma das poucas, para mim não vale ser só uma das eu quero ver esse universo da televisão com cada vez mais pessoas pretas, com mais da nossa cara, eu só vou me sentir realizada quando for comum a nossa presença nesses espaços”.

“Tem uns dias que eu estou alegre, de boa, solta, já em outros eu estou tímida e me questionando que isso não é para mim. A pressão é muito grande. A gente não pode errar. Durante muito tempo disseram que o nosso perfil não se enquadrava em televisão, e antes que a pessoa até me perguntasse se eu queria estar ali [na TV] eu já dizia que não. Hoje eu amo fazer televisão”.

Luana Souza, apresentadora da TV Bahia.
Luana Souza ao lado da xará, a jornalista Luana Assiz nos bastidores do Conversa Preta – Foto: Reprodução / Redes sociais

E quando o trabalho é reconhecido?

A filha do recôncavo baiano atualmente é uma das indicadas ao prêmio Troféu Mulher Imprensa. Essa é a única premiação do país destinada a reconhecer o trabalho jornalístico de mulheres, dentro e fora das redações em 2021/2022.

A 16ª edição do evento está com as votações abertas e Luana concorre na categoria de jornalista revelação. As vencedoras serão anunciadas em setembro.

“Eu fiquei sabendo por uma amiga do Ceará que está concorrendo junto comigo. Meu coração está ansioso, nervoso, todo dia quero pedir voto, a TV tem feito campanha, a cidade [Cachoeira] parou, as rádios também estão nessa”.

É um prêmio que vai reconhecer não só o meu trabalho, mas vai ser muito importante para meninas e mulheres pretas que se inspiram no meu trabalho e me têm como referência. A gente está aí, causando! Conto com seu voto”.  

Apaixonada por feijoada, Luana ainda fez questão de finalizar a entrevista enviando uma mensagem para a menina que ficava em frente ao espelho, assistindo Glória Maria na TV Globo e também para todas as meninas pretas que almejam chegar aonde as duas jornalistas chegaram.

“Nenhum caminho e nenhum percurso é fácil e eu posso garantir. Vai ter momento de dor, de tristeza, mas acreditem em todo mundo que preparou esse espaço para que você pudesse chegar. É por você e por quem está vindo. Não desistam!”

Luana Souza, apresentadora da TV Bahia.

Leia mais sobre Preta Bahia no iBahia.com e siga o portal no Google Notícias

Veja também: