Corpo de Zelito Miranda é enterrado em Salvador e amigos lamentam: ‘Eu fico órfão de um irmão’


Corpo de Zelito Miranda foi enterrado nesta sexta-feira (12), com a presença de familiares, amigos e artistas (Foto: Iamany Santos/iBahia)

O corpo do forrozeiro Zelito Miranda foi enterrado no Cemitério Bosque da Paz, em Salvador, na tarde desta sexta-feira (12). O artista, que tinha 66 anos, morreu na madrugada desta sexta por problemas no pulmão.

Uma bandeira do Vitória cobriu o caixão do cantor, que era torcedor do time, durante o velório, que reuniu familiares e amigos. Fotos do baiano com familiares e amigos passaram no telão.

Telma Miranda, esposa de Zelito, falou sobre o legado que o artista deixará para o forró e a música baiana.

“É uma perda inestimável. Zelito Miranda é a referência do Forró da Bahia. Zelito Miranda é o percursor do Forró na Bahia. Então, Ele está deixando um legado sem igual, não só da parte de composição, que era uma pessoa inclusiva, que colocava as questões sociais nas suas composições, ele não abria mão de defender as questões sociais no seu repertório. E musicalmente inovador, era o rei do Forró Temperado, justo porque ele fazia a transição do forró tradicional para o Axé Music, a batida do Olodum, que ele amava sempre amou muito”, listou em entrevista ao iBahia.

“Esse era o Zelito Miranda, uma figura alegre para cima feliz amava, o que fazia isso? Tá em cima do palco para ele era o melhor momento da vida dele ou é esse o legado que ele vai deixar pra Bahia pro Brasil e para o mundo”, completou.

Targino Gondim, cantor e amigo pessoal de Zelito, falou sobre a falta que ele fará. “A gente vai sentir falta daquele amigo, amigo querido do peito mesmo que animava todo o ambiente que ele que ele estava. Brincava com a gente chamava todo mundo de cabeludo, sendo que o cabeludo sempre foi ele. Então vão fazer falta as prosas, as conversas, os projetos que a gente participou”, disse ao iBahia.

Já Carlos Pita, amigo íntimo e parceiro de produções de Zelito, falou sobre os 45 anos de amizade e relembrou o que construíram juntos em nome do forró.

“Eu fico órfão de um irmão, porque minha amizade com Zelito são de 45 anos. Nós começamos tudo isso. Quando ninguém imaginava que era possível ter bandas elétricas de baianos, com sanfonas, zabumba, triângulo e os instrumentos elétricos… eu e ele, a gente estudante. Ele fazendo teatro na Escola de Teatro e eu fazendo música na Escola de Música da Ufba, nós montamos as bandas e fomos para o interior. Todo mundo achava que a gente era louco, que tocar forró não era coisa de baiano, que a Bahia não era sertão, não era Nordeste. E nós fomos para o interior fazer forró. Então, naquela época, só tinha o Trio Nordestino, que aparecia de vez em quando aqui na Bahia, que eram baianos, para fazer forró. […] Então, nós começamos a desbravar essa realidade, e hoje, todo mundo se aproveita. Eu e Zelito, nós começamos tudo isso. Éramos amigos, irmãos. Chegamos a dividir apartamento ali em Brotas, com 20 anos, 21.”, refletiu.

Carlos Pitta contou também sobre como ambos se ajudaram no período da pandemia, e os momentos de preocupação quando Zelito deu entrada pela primeira vez no hospital, afirmando ter ficado muito abalado, mas que, ainda assim, ambos seguiam se apoiando.

“Acompanhei a trajetória dele e ele acompanhando a minha. Era raro o dia que a gente não se falava. A gente se falava quase todo dia. Sempre colado. Durante a pandemia, a gente era um suporte um para o outro em todos os sentidos, a gente não deixava a peteca cair. E o tempo inteiro comentando e tudo”, relembrou com saudade.

E destacou as qualidade do amigo de uma vida inteira, com a esperança de que “novos Zelitos” possam levar adiante a cultura do forró e o legado do artista com o “Forró do Parque”.

“E Zelito era um cidadão do bem. Uma pessoa pura. Uma pessoa de muito boas intenções. Muito bem posicionada com sua vida política também. Ele sabia o que ele queria. Ele sabia defender. Sempre socialmente foi a favor dos menos favorecidos, ele tinha essa consciência, ele defendia isso, ele ia pra briga com isso. E ele era uma alegria. Zelito é isso. É uma pessoa que vai fazer muita falta, porque é um guerreiro, vai deixar um espaço, uma lacuna muito grande, porque ele tinha uma força muito grande, ele defendia com unhas e dentes esses espaço do forró da Bahia”, afirma.

Familiares, amigos e artistas presta as últimas homenagens à Zelito Miranda (Foto: Iamany Santos/iBahia)

“Zelito é uma pessoa que vai deixar uma lacuna muito grande, fica difícil encontrar uma pessoa com aquele sorriso largo, aquela amplitude e fica difícil de saber que entre os meses de maio e abril não vamos ter mais o Forró no Parque. Tomara que outras pessoas desenhem o perfil do que ele criou. E que a gente tenha novos Zelito, novas pessoas fazendo tudo que deixou de bom plantando. Ele deixou muito boas sementes aí para serem cultivadas”, finalizou.

A cerimônia foi marcada por homenagens e música. Amigos e artistas que estiveram no velório cantaram clássicos do forró, tão defendido e entoado por Zelito na vida e na carreira profissional. As músicas “Espumas ao Vento” de Fagner e “Eu só quero um xodó” foram entoadas pelos presentes, como última despedida ao forrozeiro.

Leo Macedo, do Stakazero, que esteve presente para se despedir, falou da relação de amizade e a parceria de trabalho com Zelito durante a carreira dele. Ele afirmou que sempre acompanhou os shows do forrozeiro e também lamentou a perda.

“Ele foi uma referência. Quando eu comecei ele já tinha muitos anos de carreira. Comecei curtindo os shows dele, vendo ele dançar, que eu sempre gostei muito de forró, dançar forró. Antes de imaginar que ia imaginar viver de forró, viver da música. Eu já curtia muito os shows dele e depois, quando eu estava já trabalhando, ele me acolheu muito bem. Sempre foi um grande parceiro, grande amigo. A gente trocava energia, trocava ideias. E trabalhamos muito juntos no palco, em outros estados, fora do Brasil também. Então é uma perda, bem triste”, lamentou em entrevista ao iBahia.

Uma celebração religiosa foi realizada e ao final, amigos, familiares e artistas bateram palmas para Zelito. O cortejo foi acompanhado pelo grupo até o enterro do corpo.

Foto: Iamany Santos/iBahia

Carreira

Zelito faleceu com 40 anos de carreira e mais de 200 músicas no currículo. Ao longo da vida, ele defendeu a cultura e a tradição do forró. O artista deixa a esposa Telma, e as filhas Clarice, que espera a sua primeira neta, e Luiza.

Nascido no município de Serrinha, a 175km de Salvador, Cabeludo, como era conhecido e gostava de ser chamado pelos amigos, foi um artista multifacetado.

Embora sua intimidade com o triângulo tenha começado ainda na infância, aos 8 anos de idade, Zelito trilhou por vários caminhos, das artes plásticas, ao teatro, ao cinema até chegar a música e ao forró.

Começou na música aos 27 anos. Antes disso, ele fez parte da cultura alternativa da cidade natal, foi ator por 10 anos, era escritor e chegou a tocar MPB e rock.

Na década de 80, fez parte do grupo Novos Bárbaros, que fez sucesso nos trios elétricos em Salvador. Ao todo, foram um DVD e 12 Cd’s gravados.

O primeiro disco veio com um repertório daquilo que ele chamava de MPN (Música Popular Nordestina) mas os pedidos de shows e gravações em forró foram, aos poucos, fazendo com que o artista assumisse a herança de Gonzagão como sua carreira.

Dessa influência do rock, da MPB e da experiência em trio elétrico, ficou conhecido como o “Rei do Forró Temperado”, um som que preserva a sonoridade do gênero, mas se permite a novos instrumentos, arranjos e melodias.

Pioneiro nos ensaios do gênero nordestino nas casas noturnas da capital baiana, Zelito se dedicou a arte de misturar elementos do mais autentico forró pé-de-serra a o que há de mais moderno e cosmopolita.

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