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Entrevista Alice Portugal: ‘Vamos ampliar a presença de médicos’

Em entrevista ao Correio, Alice Portugal falou sobre os mandatos como deputada estadual e federal e os planos para a prefeitura

Redação iBahia
15/09/2016 às 7h49

12 min de leitura
Com dois mandatos como deputada estadual e quatro como federal, Alice Portugal (PCdoB) estreia nesta eleição como candidata a um cargo majoritário. Quer ser prefeita da cidade que diz amar. As horas dedicadas ao sono têm sido poucas, conta. O tempo dela tem sido gasto andando pela cidade. Mas tem valido a pena, garante.
Sábado pela manhã, ela sobe os quatro lances de escada no comitê, instalado na Vasco da Gama, brinca com a assessora que preparou a sala mais alta para a entrevista. O sorriso está ali, independente da pergunta. A entonação de voz é diferente da que usa em discursos, por vezes inflamados, na Câmara dos Deputados, mas a postura é a de sempre. “Eu tenho uma história de vida sempre do mesmo lado”, afirma. 

Até o dia 2 de outubro, ela promete lutar para conquistar o direito de iniciar uma nova etapa da própria história, no comando do Palácio Thomé de Souza, onde pretende ampliar os investimentos em saúde pública e dar atenção especial para a população mais carente de Salvador.  Em entrevista ao CORREIO, a candidata falou ainda sobre os seus planos para melhorar os serviços públicos na área de educação e mobilidade urbana.
Esta é a sua primeira disputa de um cargo majoritário. Como está sendo a experiência?  
Hoje eu me sinto pronta, preparada para o desafio de uma campanha majoritária em minha cidade. Está sendo muito importante, porque eu conheço a cidade, mas esta imersão nos dá uma dimensão atualizada da desigualdade, que é a marca de Salvador.
Tem algo que a senhora desconhecia da realidade de Salvador? 
As coisas novas da cidade, infelizmente, são as escolhas da atual gestão municipal. Foram feitas opções pela reforma de cartões-postais da cidade, em  vez de voltar os olhos para a profunda desigualdade.  Em gestões anteriores, mesmo com muita precariedade, você teve escadarias e outras intervenções mais estruturantes. Agora, há uma escolha explícita por uma parte da cidade e isso nos assusta. Na medida em que você aumenta o IPTU, de uma maneira escorchante, os donos de terrenos mantêm os espaços como encubadoras e não constroem. Então, o desemprego que já é estrutural se aprofundou. Salvador voltou a ser a capital do desemprego.
Essa posição de capital do desemprego a cidade nunca deixou de ter. 
Deixou, sim.
Pode ter deixado um mês ou outro e voltou em seguida.
Deixou de ter por bastante tempo e agora, infelizmente, retorna a essa posição. E eu creio que há uma conexão muito forte entre a crise e as escolhas.   
Qual vai ser o seu primeiro ato, caso seja eleita prefeita? 
A primeira coisa realmente a ser feita é a verificação da presença de médicos nos postos de saúde. Onde não houver, nós vamos contratar, porque é um problema muito grave, é algo crítico, ver mães em noites chuvosas, com uma criança febril e não ter o que fazer. 
Como a senhora pretende adequar as suas prioridades à realidade financeira do município?
O município tem  tido uma arrecadação majorada e nós vamos auditar essa receita. Por exemplo, R$ 165 milhões é o que se tem notícia da arrecadação com multas de trânsito em três anos e meio da atual gestão. Eu vou auditar para saber onde está sendo aplicado. Nós vamos trabalhar dentro de um diapasão de não escorchar a comunidade. Outra coisa, vou rever o IPTU. Tenho a impressão de que você pode garantir o escalonamento entre quem pode pagar, quem pode pagar medianamente e quem não pode pagar. 
No caso do IPTU, a senhora pretende então rever o critério para a isenção, porque ela já existe.  
Tem alguma isenção, sim. Hoje é de R$ 100 mil. Nós queremos ampliar para as famílias que têm apenas um imóvel no valor de até R$ 300 mil.
Em relação ao trânsito, a senhora pretende de alguma maneira diminuir a fiscalização?
A fiscalização é uma coisa, pegadinha e indústria de multas é outra coisa. Eu vou fazer um trabalho de educação para o trânsito. Vou fazer uma campanha de educação para o trânsito nas escolas. Temos que, de fato, manter a velocidade dentro dos padrões internacionais, não se pode ter uma cidade em alta velocidade. Isso diminui o número de acidentes, mas uma coisa é isso. Outra é a pegadinha. 

Em relação aos serviços públicos oferecidos pelo município, a senhora já citou a questão da saúde. Tem algum outro que será tratado como prioridade?
Vários deles. Estamos aí com as creches. Salvador precisa de mais 138 mil vagas em creches. Vamos ampliar logo no primeiro ano a oferta de vagas em 50 mil. Este é um problema gritante, porque aqui 48% das famílias são gerenciadas por mulheres e esta circunstância leva a mulher a não ter com quem deixar a sua criança. E a prefeitura tem um programa de dar R$ 50 como auxílio para essas famílias. Ninguém toma conta de uma criança por esse valor, no máximo vai se conseguir melhorar a alimentação. A creche é direito da criança, como reza o Estatuto da Criança e do Adolescente, e emancipa a mulher, dá a ela o direito ao trabalho. 
Tem algo da atual gestão que a senhora pretende manter?
Manter, não. O que nós vamos fazer é realizar os serviços que não estão sendo realizados. Faltam médicos em postos de saúde, a cobertura do serviço de saúde da família… Ele (o prefeito ACM Neto) diz ‘eu dobrei’, mas dobrou com base nos auxílios do governo federal. O município não está no limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal, então podemos chamar concursados e ampliar o número de agentes, o número de servidores, para garantir que esses serviços sejam ampliados. Se eu tivesse R$ 70 milhões, eu iria restaurar o Rio Vermelho, mantendo o bucolismo do bairro,  com R$ 10 milhões. E ficaria lindo. Faria com R$ 60 milhões, pelo menos, 20 creches. A verdade é que dá para fazer escolhas.
Em relação à mobilidade, quais são as suas prioridades? 
A primeira coisa é integrar os ônibus ao metrô. Há muito por ser feito neste sentido. Conseguiu-se integrar os veículos da Região Metropolitana (RMS) antes dos urbanos. Essa demora é uma perversidade com o povo. Segunda coisa é retomar linhas que foram retiradas. Por exemplo, as que ligam Cajazeiras à Barra. Quem trabalha na Barra é o povo da periferia, que precisa da linha. A terceira questão é garantir que o idoso tenho o acesso ao ônibus garantido. Uma coisa importante é que o prefeito prometeu ar-condicionado em ônibus. Nos dias de hoje, não tem porque não ter. 
Esse tipo de investimento não acarretaria em uma elevação na tarifa?
O investimento tem que ser do empresário.
Mas, no fim das contas, não acaba sendo repassado?
Se está no contrato e o prefeito prometeu tem que cumprir, se não denuncia-se o contrato.
Quais os seus planos para o zoneamento urbano?
Salvador é uma cidade repartida. Vamos ter em primeiro lugar que democratizar as relações com a cidade, fazer com que os conselhos funcionem. Nestes últimos quatro anos, não funcionaram. O Conselho da Cidade foi instalado por via de lei, mas não funcionou. O PDDU, que eu vou rever, é um PDDU criado com audiências fraudadas, marcadas em cima da hora em horários e locais inacessíveis para o povo da cidade. É uma proposta que vai sombrear parte da cidade e vai, infelizmente, suprimir 5 mil hectares de área de preservação em Salvador.
Quando a senhora fala em fraude,  passa a impressão de má-fé. É isso mesmo que a senhora quer dizer?
É fraude. Eu não acho que tenha sido de boa fé você fazer audiências de manhã no centro da cidade em vez de fazer à noite em um determinado distrito. As pessoas poderiam sair do trabalho e participar. A consulta não foi realizada. Não foi representativa. A amostragem não foi. Os vereadores receberam o relatório para votar na manhã da votação.
Como gerar emprego e renda?
Vamos incrementar a profissionalização do trabalho informal, vamos regularizar o mercado informal. Vamos adequar, dar o espaço adequado. Mas se alguém está vendendo alguma coisa na rua é para levar o pão de cada dia para casa. Vamos organizar, padronizar, mas deixar o povo trabalhar. É preciso que organize simples e ordenado, claro que não pode tomar as ruas, calçadas…
Mas não era isso o que acontecia antes, o comércio informal desordenado? 
Porque não organizavam, se deixava à vontade… Mas se organiza, o próprio camelô, como a gente costuma dizer, vai pedir a barraca bonita, o seu uniforme, o seu treinamento para atrair o cliente. Dá para a gente organizar, em vez de banir. 
Como está sendo fazer campanha com um período mais curto e financiamento restrito?
Muito difícil, pobre, mas nós estamos fazendo. É uma campanha pé no chão, de militância. Já estamos com um site recebendo doações, por débito ainda, porque a bandeira do cartão, para se conseguir liberar,  é muito complicado. Mas já estamos aceitando débito em conta, é só entrar no site e colocar os dados. Estamos tendo doações, estou procurando empresárias mulheres. Já tive uma boa doação de uma e estou atrás delas. Nós somos uma chapa de mulheres, eu e Maria Del Carmen. Já fizemos o primeiro jantar e faremos um segundo no dia 19, mais popular, porque o primeiro foi mais caro para arrecadar melhor. É assim que a campanha vai, bem politicamente, mas o bolso está vazio.
As notícias de dificuldades financeiras em sua campanha são verdadeiras, então
Sim, são reais e não é nenhum demérito não ter dinheiro. Eu acredito que não seja crime não ser rico.
Se eleita, como a senhora pretende lidar com o governo federal, ao qual faz oposição?
Eu sou oposição diametral.
Como vai ser a relação?
Primeiro, eu de fato sou contra o golpe. Estão tentando me amordaçar, me impedir que eu fale a palavra golpe na televisão. Eu sou candidata no regime democrático, em tese. Então, na minha opinião, o impeachment da presidenta Dilma, sem crime de responsabilidade, o que está sobejamente comprovado, é um golpe parlamentar, um golpe jurídico, e estão querendo me amordaçar. Justo eu que luto tanto contra a lei da mordaça… E eu não apoio o golpe, mas em nome de Salvador vou a todos os poderes, porque o recurso do orçamento da União não é do presidente golpista, é do povo brasileiro.
A população de Salvador não terá que se preocupar com a relação entre a prefeitura de Salvador e o governo federal?
Farei no primeiro dia um ofício pedindo audiência para tratar dos graves problemas de Salvador e quero os recursos federais em Salvador. Espero que ele [o presidente Michel Temer] não discrimine Salvador, porque serei uma prefeita ligada a essas opiniões. São essas opiniões que levaram o povo brasileiro nos últimos 13 anos a ter as maiores conquistas sociais de sua história. Se me discriminar, vou denunciar, mas irei buscar tudo para Salvador em todos os lugares. Nas Nações Unidas, nas relações bilaterais, em cidades amigas, em instituições internacionais, no governo federal, no governo estadual, que já é amigo da cidade, onde for.
Correio24horas