Prefeito eleito promete Barra com calçadão, mão única e segurança


Um calçadão amplo, três pistas em sentido único, proibição de estacionamento, segurança e iluminação. O turista e o baiano ganharão um amplo espaço de lazer na orla da Barra. Pelo menos é isso que promete um projeto de requalificação anunciado pelo prefeito eleito de Salvador, ACM Neto (DEM). O anúncio foi realizado  em evento com empresários, na noite de segunda-feira, no Hotel Caesar Business, na Pituba.

Pelo projeto, o trecho entre o Farol da Barra e o antigo Clube Espanhol, que hoje tem quatro pistas, perderá uma para a ampliação do calçadão. Nas três faixas restantes, o trânsito passará a fluir somente no sentido Ondina-Barra. O motorista que quiser circular no sentido contrário terá que vir por dentro, entrando pela rua Marques de Leão, na altura do Farol da Barra.

O estacionamento na orla será  proibido. A ideia é que a orla  se torne um ambiente agradável não somente para a prática de esportes ou passeios diurnos, mas um espaço de lazer 24 horas, inclusive com a instalação de espaços comerciais. Questionado se esses espaços seriam quiosques, Neto não quis entrar em detalhes.  “Vai haver algo, mas que tipo de estrutura vai ser ainda está em estudo”, afirmou.

A previsão é de que as ações comecem já a partir do ano que vem.
Para incrementar a segurança e tornar o ambiente mais aprazível para a vida noturna, o projeto prevê também  a utilização da Guarda Municipal e câmeras de segurança. Neto falou ainda em estimular a instalação de bares, restaurantes e casas de shows de pequeno porte no bairro. “A Barra tem que ser também espaço do entretenimento de nossa cidade”, disse.

Segundo Neto, estudos de viabilidade realizados por sua equipe apontam, “em tese”, que é possível fazer a modificação no trânsito sem gerar engarrafamentos na região. Antes de tocar a obra, entretanto, pretende fazer testes na prática para verificar como o trânsito se comporta.

Em evento nesta terça com artistas do axé e empresários do entretenimento, no Hotel Othon, ACM Neto assegurou ainda que a ampliação do calçadão não atrapalhará o trânsito dos trios elétricos durante o Carnaval.

“Os estudos todos levam em consideração o Carnaval, a dimensão dos trios, dos blocos, assim como  os camarotes se organizam”, disse.

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Autorização
Serão investidos no projeto R$ 16 milhões. Segundo ACM Neto, esse dinheiro já está garantido pelo Ministério do Turismo. Porém, para conseguir efetivamente o dinheiro, o prefeito eleito depende de uma autorização da Justiça Federal para que a prefeitura capte o dinheiro via Programas Regionais de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur).

Isso porque a prefeitura figura, há 2 anos, na lista do Serviço Auxiliar de Informações para Transferências Voluntárias (Cauc), como inadimplente, devido a dívidas com a União.

Com nome sujo, não pode receber recursos voluntários do governo federal. “Mas já há uma sinalização positiva de que talvez seja possível, estou esperando uma resposta na semana que vem”, sinalizou o prefeito eleito.

Avaliação
A ideia  foi elogiada pelo arquiteto, engenheiro, mestre em Planejamento de Transporte Urbano e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Elmo Felzemburg. O especialista acredita que o modelo deve ser apresentado aos moradores da Barra, para verificar a aceitação da comunidade.

Felzemburg diz que só deve vir à orla da Barra quem tem o local como destino final. “Hoje, as pistas são vias de passagem para outros motoristas, o que dificulta o lazer na região. Um exemplo é a cidade de Recife, que só conta com uma pista em alguns trechos da orla. A pista é para dar acesso aos prédios residenciais no local”, explica.

“Do antigo Clube Espanhol até o Farol deveria ser uma via de acesso local para as propriedades. Não é para ser um fluxo de passagem, é para ser transformada preferencialmente para o pedestre”, acrescenta.

Embora o projeto não especifique, o especialista diz que  as calçadas deveriam ser amplas, com mais de 10 metros de largura. “Essa mesma ideia acredito que pode ser usada na Pituba. Porque cidade precisa de área de lazer, de espaços abertos. E é uma lástima o que acontece com a Barra. Um bairro que é turístico”, analisa o especialista.

Felzemburg destaca que a Barra não tem grandes problemas de fluxo e que, portanto, não há muito risco de engarrafamento com as mudanças.  “A Barra não é fluxo de passagem. Só vai à Barra quem mora ou quem tem negócios na Barra. Tirar esse conceito de hoje de passagem do bairro já vai diminuir muito o fluxo de lá. A região não é uma Pituba, que todo mundo passa”.

A notícia é bem recebida por moradores como Adilhermino Miranda, engenheiro, professor e morador do bairro há mais de 30 anos. Ele acredita que um dos grandes problemas do local é o trânsito. “Você vai no sentido Ondina-Barra, está o maior engarrafamento e não é nada. Às vezes, você vai no sentido Barra-Ondina, está tudo parado e também não há nenhum problema. Temos que melhorar o tráfego nessas vias”, acredita.

Para ele, no entanto, tirar uma das pistas para ampliar o calçadão é uma faca de dois gumes. Miranda gosta da ideia de ter mais espaço para suas caminhadas, mas tem receio de que essa medida  piore o trânsito nas vias internas.

“O certo é que temos que melhorar essa estrutura que está aí. Porque morar na Barra ainda é prazeroso”, ressalta o antigo morador.

A Barra como cartão-postal
A iluminação noturna nas praias, para torná-las ponto de encontro noturno, também está nos planos. Moradores ouvidos pela reportagem do CORREIO comemoram as propostas de melhorias na região, mas salientam haver outros problemas que devem ser atacados pela gestão municipal. Um deles é a falta de calçadas adequadas.

“Seria maravilhoso, hein? Termos calçadas descentes, onde poderíamos caminhar com tranquilidade”, comenta Marilene Rodrigues, auditora fiscal aposentada, moradora da Barra há 30 anos. Enquanto ela falava com a equipe de reportagem,  outra senhora tomava um tropeção nas calçadas esburacadas da rua Almirante Antunes.

Embora Marilene descreva alguns pontos positivos do bairro, como a proximidade de igrejas, shopping, mercados e bancos, ela não esquece as bagunças da região. “Morar aqui está terrível, por causa dos pontos de drogas, da prostituição e da bagunça nos fins de semana”, enumera a moradora.

Outra moradora que faz coro aos problemas apresentados na região é a pensionista Telma Brito,  que saiu de São Paulo para morar na Barra há quatro anos. “Vim morar aqui por causa da minha família, pela proximidade com a praia. Mas isso aqui não tem mais qualidade. Se não mudar, prefiro voltar para São Paulo a viver deste jeito”, reclama Telma.

Como exemplo, Telma cita o caso de um morador de rua que, segundo ela, adotou como moradia o ponto de ônibus da entrada da rua Princesa Isabel, que dá acesso à Graça, e que ela diz já ter visto  tomando banho nu, em plena luz do dia, nas calçadas do local. “Tem cabimento isso? O bairro precisa de ordem. O que está acontecendo aqui já é uma pouca vergonha”, ressalta.

Neto vai a juiz para buscar soluções para barracas
Para que a requalificação da orla chegue aos demais bairros virados para o mar, o prefeito eleito ACM Neto precisará negociar com a Justiça. Dessa vez, sentará com o juiz federal Ricardo D’Ávila, da 13ª Vara Cível Federal, responsável pelo processo das barracas de praia.

A audiência está marcada para a semana que vem. Neto pretende levar com ele mais quatro secretários municipais, que terão seus nomes anunciados amanhã, para entrar em acordo sobre o que poderá ser feito na requalificação sem infligir  as leis federais.

“Antes eram 590 barracas, e a Justiça acha esse número excessivo. Então, melhor ter 300 do que não ter nenhuma. Essa é uma das demandas da Justiça”, ponderou.

Segundo ele, os novos quiosques nos trechos que tinham barracas terão tamanhos variáveis: nos trechos da orla em que é possível ampliar o calçadão, as estruturas serão mais amplas.

O prefeito eleito, no entanto, afirmou que ainda pretende se reunir com representantes do governo do estado para avaliar qual o melhor modelo de requalificação da orla, já que os gestores estaduais já possuem um projeto orçado em R$ 1 bilhão.

“No que depender de mim, vamos fazer com várias mãos. Não importa partido A ou B”, disse. Após a demolição das barracas de praia, em agosto de 2010, a prefeitura e a Justiça não entraram em acordo sobre a melhor modelagem de quiosques que não descumpram a legislação.

Matéria original Correio 24h
Prefeito eleito promete Barra com calçadão, mão única e segurança; veja como fica