Salvador avança como cidade mais sustentável, mas ainda tem barreiras à vencer


Sede da Secis no Comércio, em Salvador (Foto: Max Haack/Secom)

O caminho por uma cidade mais sustentável é inevitável. Segundo um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o meio ambiente nos últimos cinco anos, é urgente que medidas sejam tomadas frente à questão climática. Caso ações não sejam realizadas, os danos podem ser tão desastrosos, que até a saúde humana será ameaçada. Em Salvador, indicadores e planos vêm sendo utilizados com o objetivo de mitigar os efeitos dessas mudanças, e também trabalhar em outras frentes, como desigualdades sociais e econômicas, além de transformações urbanas. Mas, apesar do avanço, ainda há barreiras a serem vencidas.

Segundo a Secretaria de Sustentabilidade e Resiliência de Salvador (Secis), a primeira a atuar com este foco no país, diversos programas vêm sendo realizados na capital baiana. O objetivo é executar e promover iniciativas de desenvolvimento sustentável e de resiliência em Salvador, e também inserir inovações nas políticas públicas. 

Não à toa, no último relatório divulgado pelo “Programa Cidades Sustentáveis”, em setembro de 2021, Salvador ocupava a 13° posição entre as capitais brasileiras com melhor índice de desenvolvimento sustentável, e a 5° colocação entre cidades baianas, atrás apenas de Madre de Deus, Vitória da Conquista, Itaparica e Lauro de Freitas. A métrica avalia o progresso das cidades quanto aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que fazem parte da Agenda 2030. 

Agenda 2030 e Salvador 

Projeto iniciado em 2015, a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) são um pacto para o enfrentamento dos principais desafios globais. O acordo foi assinado por autoridades dos 193 Estados-membros da Organização das Nações Unidas (ONU), incluindo o Brasil. 

Ao todo, são 17 objetivos e 169 metas avaliadas. Segundo os dados do Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades, Salvador ocupa na classificação geral a posição 357 de 770, com uma pontuação de 55,2 de um total de 100, que avalia o desempenho no cumprimento dos ODS.

Atualmente, de acordo a avaliação do programa, a capital baiana tem 8 objetivos mais urgentes. “Saúde de Qualidade”; “Educação de Qualidade”; “Igualdade de Gênero”; “Trabalho Digno e Crescimento Econômico”; “Reduzir as desigualdades”; “Cidades e Comunidades Sustentáveis”; “Proteger a Vida Terrestre”, “Paz, Justiça e Instituições Eficazes” apresentam, ainda, grandes desafios a serem vencidos. 

Por outros lado, as ODS “Energias Renováveis e Acessíveis”, “Ação Climática” e “Proteger a Vida Marinha” já foram alcançadas. Enquanto que “Erradicar a Pobreza”, “Erradicar a Fome”, “Água Potável e Saneamento”, “Produção e consumo sustentáveis” e “Parcerias para a Implementação dos Objetivos” se enquadram entre aquelas que já tiveram avanços, mas que necessitam alcançar indicadores base.  

Salvador sustentável?

É com este cenário que Salvador vem desenvolvendo iniciativas, no caminho para ser cidades mais sustentável. E de acordo com Leonardo Barros, engenheiro e sócio-fundador da EKOA Educação, startup que prepara profissionais para os desafios da sustentabilidade, Salvador é, sim, uma cidade mais sustentável, e os projetos realizados na capital baiana têm contribuído para as melhorias. As ações são realizadas tanto na terra, quanto no mar. 

Caravana da Mata Atlântica distribui mudas no Parque Pedra de Xangô, em Salvador (Foto: Jefferson Peixoto/Secom)

“A sustentabilidade, quando a gente pensa no conceito dela em si, é sobre o fato do desenvolvimento econômico estar sempre aliado aos aspectos ambientais e sociais. Salvador está no caminho para se tornar uma cidade cada vez mais sustentável. Com movimentos muito importantes, já feitos, desde criação de secretarias específicas para tratar do tema, recepção de grandes eventos, promoção de eventos para discutir a pauta da sustentabilidade, desenvolvimento de projetos específicos que envolvem comunidades e a sociedade como um todo”, explica Leonardo Barros. 

Segundo o engenheiro, a capital baiana tem assimilado a importância de desenvolver a sustentabilidade e, este primeiro passo, deve estimular mais projetos. Ele esclarece que urbanismo sustentável está muito ligado a promover segurança, qualidade de vida e integração dos habitantes dessas cidades com o meio ambiente. 

“O fortalecimento dos parques, revitalizações, fazendo com que as pessoas tenham mais espaços ao ar livre para interagir, conexão, transporte, mobilidade, fomento a benefícios tributários para que as pessoas desenvolvam uma sustentabilidade dentro das suas edificações… tem alguns passos importantes que estão sendo feitos e também tem ainda muito espaço para favorecer isso. Trazendo esse conjunto de segurança, espaços adequados, integrados, que promovam serviços ambientais para a população, vai fazer com que cada vez mais essas pessoas queiram interagir com exterior, com o externo, e isso traga mais qualidade de vida, que é o grande desafio em se promover o urbanismo com sustentabilidade”, afirma. 

A “Horta em Casa”, por exemplo, vai distribuir 600 kits em seis meses para endereços residenciais diferentes que sejam contemplados pelo projeto. O objetivo é estimular o cultivo da alimentação saudável, sem precisar sair de casa. O projeto é uma extensão do programa de Hortas e Pomares Urbanas, desenvolvido desde 2016. Segundo a Secis, mais de 50 hortas já foram implementadas na cidade, entre escolas públicas municipais e áreas de Salvador. 

E atitudes sustentáveis também estão ajudando a pesar menos no bolso. O IPTU Verde, programa da Prefeitura de Salvador, pontua as boas atitudes daqueles que somem 50 pontos, e que podem ter um desconto de até 10% no Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana. As ações válidas para o projeto são distribuídas em cinco eixos: Gestão Sustentável das Águas, Alternativas e Eficiência Energética, Projeto Sustentável, Emissões de Gases de Efeito Estufa e Bonificações. 

Um painel solar para a geração de energia numa residência, também pode garantir abatimentos. O IPTU Amarelo concede o mesmo desconto, a depender da quantidade de energia solar gerada, e de exigências analisadas pela Coelba e pela Secis. 

No mar, o ParaPraia promove o banho nas águas da Baía de Todos-Os-Santos para pessoas com necessidades especiais ou mobilidade reduzida desde 2014. As ações são acompanhadas por equipes multidisciplinares com fisioterapeutas, enfermeiros, profissionais de educação física e estudantes da área de saúde, todos voluntários. 

Já para enfrentar as mudanças climáticas, há um plano de ação cujos resultados devem ser vistos a curto, médio e longo prazo.  O objetivo, segundo o Plano de Ação desenvolvido pela Secis e a Prefeitura de Salvador, é que até 2049 Salvador neutralize a emissão de gases, tratamento de reuso de águas residuais e a universalização dos serviços de água e esgoto. 

“Esses projetos são a materialização do que se pensa em sustentabilidade para a cidade. Quando se traz aí o IPTU Verde, você está trazendo uma política de benefício tributário que é amplamente desenvolvido em outros estados, outros países, que faz com que o setor econômico, também seja envolvido em promover mais ações de sustentabilidade. Isso traz desde economia de recursos, geração de resíduos, utilização de energias renováveis, ou seja, vários critérios que acabam difundindo ações de sustentabilidade”, explica Leonardo Barros.

Ainda segundo ele, esses projetos conseguem impactar muitas pessoas, e levar os conceitos para dentro de casa de uma forma mais transversal.

“Outros projetos como “Horta Em Casa”, “Coleta Seletiva”, são muito importantes porque tem bastante capilaridade, consegue impactar muitas pessoas e trazer esse conceito para dentro das casas e para o dia a dia das pessoas. Isso acaba sendo uma educação ambiental de forma muito transversal e resultando em ações diretas que reduzem o impacto do meio ambiente”, avalia Leonardo, que ressalta a alta procura de pessoas que querem aprender mais sobre como impactar menos o meio ambiente”.  

Caminhos para o futuro 

Mais do que se consolidar, é preciso ser mais sustentável à cada dia. Apesar da complexidade de atuação em Salvador, que deve ser feita em várias frentes, três fatores podem ser determinantes neste caminho: a educação ambiental, a valorização cultural e o desenvolvimento de projetos sustentáveis. 

“Quando a gente pensa em política de sustentabilidade, a gente tem que trabalhar em todos os eixos, com políticas públicas cada vez mais integradas, que beneficiem à todos da cidade”, afirma Leonardo Barros. 

De acordo com ele, o trabalho é contínuo, e precisa ser avaliado, pensado e discutido com a população. Enquanto a sociedade precisa estar apta para atuar com a promoção do desenvolvimento sustentável, cabe aos órgãos responsáveis trazer novas políticas e fomentar a valorização desses setores.

Entre ações que ainda podem ser realizadas, segundo o sócio-fundador da EKOA Educação, estão o aumento de áreas verdes, políticas de redução de resíduos, políticas de infraestrutura e a valorização cultural. 

“O aumento das áreas verdes traz uma melhoria do microtema na cidade, uma relação direta com a qualidade do ar, sendo associado até a questões de saúde. Incentivar o correto gerenciamento de resíduos, com foco na redução. Trazer novas políticas, novas estratégias de redução na geração de resíduos e também o correto gerenciamento na cuminação da sua destinação final. Avançar também nas políticas de infraestrutura como cobertura de esgotamento sanitário, abastecimento de água, drenagem… isso também traz uma qualidade de vida e bem-estar das populações”, considera. 

“E cada vez mais valorizar a nossa cultura, a cultura está envolvida diretamente com a sustentabilidade, a proteção aos patrimônios da cidade, a proteção ao desenvolvimento e fomento de projetos sociais, isso tudo  é muito importante também, está na pauta da sustentabilidade”, afirma Leonardo. 

Ainda segundo ele, o setor de sustentabilidade vai demandar muitos profissionais especializados ao longo do tempo. Nesse sentido, a educação ambiental é quem amarra os fatores, sendo um grande pilar para uma Salvador mais sustentável. 

“A dinâmica dos desafios ambientais ocorrem de forma muito rápida. Então, investir em educação ambiental é um passo muito importante que a cidade pode dar, para fazer com que essa população, já muito criativa e trabalhadora, esteja apta a desenvolver, estejam aptas a atuar com a promoção do desenvolvimento da sustentabilidade. A educação ambiental é um grande pilar para fazer com que a nossa cidade tenha mais sucesso na promoção das suas ações”, conclui. 

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