De bebida tradicional à renda no período junino: conheça a história do licor que atravessa gerações


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Uma bebida tradicionalmente nordestina? Bom, parece que a história do licor foge um pouco daquilo que conhecemos hoje. Apesar não saberem ao certo, pesquisadores acreditam que sua a produção começou a alguns oceanos de distância do Nordeste do Brasil.

Alguns relatam que o termo “Licor” começou a ser associado a bebidas alcoólicas por volta do século XIV, antes mesmo de ser o liquido como conhecemos hoje. Vinhos ou destilados levavam esse nome por conta do latim liquor, que significa “líquido”.

Mas o licor “abrasileirado” não surge daí. Muitas histórias contam a sua origem através de feitiços e bruxarias. No entanto, sua criação se deu através do alquimista catalão Arnould Villeneuve, lá em 1250, em uma tentativa de extrair sabores de ervas.

A bebida caiu no gosto da corte e passou a ser comercializada. Sua chegada ao Brasil acontece por intermédio dos imigrantes, e se populariza durante o período junino graças ao clima mais frio.

Licor: uma nova fonte de renda

Durante os meses de junho e julho, a bebida se torna protagonista no mercado baiano. E não é pra menos, além de saborosa, é um dos principais produtos usados pelos pequenos comerciantes para garantir uma renda extra.

O agricultor familiar Austregésilo Júnior, mais conhecido como ‘Seu Júnior’, é exemplo disso. Ele é dono da empresa “Licor do Gordo”. Mas sua história com o licor começou desde cedo. Ensinado por seu avô, o empresário aprendeu a produzir os tradicionais sabores da bebida ainda na infância.

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Durante um período difícil, ao ficar desempregado, Júnior viu o licor como uma solução financeira.

“Na realidade, em 2003, quando fiquei desempregado me veio a ideia. Desde pequeno eu fazia licor com o meu avô. Foi pelo conhecimento e pela necessidade do momento, que comecei a fazer em pouca quantidade”, conta Júnior.

Buscando novos públicos, ele saiu dos tradicionais sabores ensinados e atualmente conta com mais de 15 opções em seu cardápio. O agricultor começou com uma pequena produção de 100 litros, e agora, durante o período junino, tem uma demanda de mais de 15 mil litros.

Atualmente, Seu Júnior é um dos principais participantes do ‘Festival do Licor’, que acontece todos os anos na cidade de Cachoeira, interior da Bahia.

Apesar da queda das vendas em cerca de 50% do valor rentável durante a pandemia, a recuperação foi à altura. Neste ano, o ‘Licor do Gordo’ têm a expectativa de movimentar mais de R$ 100 mil no período de São João.

O produtor ainda conta que a bebida tem sido buscada por um público mais novo. “Eles não gostam do tradicional, a ‘garotada’ tem procurado o licor mais cremoso, que eu nem diria ser licor mesmo”, brinca Seu Júnior, ao falar sobre o alcance de vendas entre a faixa etária entre 18 e 24 anos. Que tem se tornado mais da metade do público-alvo.

A busca por inovação deu bons resultados. O empresário conta que os sabores com maior saída de venda são Maracujá trufado, Chocolate e Café. Mas os sabores tradicionais ensinados por seu avô continuam entre os mais vendidos.

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Comecei vendendo pouco, ainda é pequeno, não é? Frente a quem vende de verdade”, brinca o produtor, que produz tudo à mão desde a infusão, preparo do xarope, mistura, envelhecimento e seguindo com a clarificação, filtração e envase.

“Minha produção é toda artesanal, até nossa prensa é de madeira, é uma coisa bem manual. Esse é o nosso diferencial”, explica.

Licor: a bebida que atravessa gerações

Assim como Seu Júnior, o licor também é tradição na família do Chef Evandro Magno, que conheceu o amor pela bebida através da mãe.

Magno produzia a iguaria em pequena escala, apenas durante o período junino e com a venda destinada apenas à amigos.

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Entre os compradores fiéis estava o empresário Iuri Paulino, um dos apoiadores do projeto, que viu no sabor do licor uma oportunidade de crescimento.

Durante o ano de 2020, a pequena clientela de, apenas 20 pessoas, triplicou e as bebidas ganharam uma identidade: o licor “Sonatta”. Evandro conta que o nome escolhido pela dupla traz a ideia de celebração.

“A tradição que herdei dela serviu de alicerce para produzir as nossas receitas de hoje.
Nosso ideia e apresentar ao público um licor, que sim tem as características da tradição nordestina, mas que dialogue com o contemporâneo”,
conta o Chef Evandro, responsável pela produção.

Enquanto muitos comerciantes fechavam durante o pior período do pandemia, a empresa teve um salto de crescimento. Iuri conta que 100% das vendas foram feitas via delivery, e mesmo sem loja física superaram as expectativas.

“A gente acreditou que ia dar certo, nossa divulgação foi toda nas redes sociais e a ideia era a venda de 600 garrafas, mas acabou vendendo 1.100”.

Apesar da tradição, o cardápio da Sonatta vem inovando e conquistando um público ainda maior. O segredo para atrair a clientela é fugir dos sabores comuns e trazer opções inéditas, como Pitanga e Doce de leite.

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A parceria tem dado tão certo que a expectativa de vendas para esse ano é cerca de 4 mil garrafas. Sobre perspectivas futuras, os empresários contam que a principal missão é fazer com que o licor se torne uma bebida atemporal.

“Licor é tão bom! Porque só beber no São João, né?”, brinca Iuri que completa explicando que a “missão” do grupo “é fazer do licor uma bebida para ser consumida o ano todo”. Neste ano, a Sonatta começará a expandir ainda mais o negócio com a importação da bebida para outros países.

Licor como patrimônio histórico

O tradicional Licor de Cachoeira ganhou espaço na história e fará parte da Construção do “Inventário do Saber e Modo de Fazer do Licor de Cachoeira”. A pesquisa foi iniciada na última terça-feira (31) pela equipe da Fundação Hansen Bahia (FHB).

O trabalho de pesquisa é uma das fases para tornar a técnica artesanal que envolve a produção do tradicional licor de Cachoeira, um Patrimônio Cultural Imaterial do Estado. A abertura do processo de Registro Especial foi realizada no dia 4 de fevereiro deste ano. 

Dentre os produtores entrevistados estão o Senhor Roque Amorim e a sua esposa Tânia Regina, que trabalham com a produção artesanal há cerca de 15 anos. O “O Licor A Gauchinha” produz cerca de 3.500 litros da bebida por ano.

“Trabalhamos com 16 sabores de licores e entre os mais vendidos estão o de Jenipapo, Banana e Tamarindo. Este ano estou lançando o Licor de Açaí com Guaraná, 36 horas no ar. É um licor energético, para não dizer afrodisíaco, esse promete deixar os meninos ainda mais animados”, contou Roque.

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O processo de algumas bebidas, como o Licor de Jenipapo levam cerca de 9 a 10 meses para serem finalizados. “Eu compro a fruta, lavo, deixo na fusão, coloco no álcool e na água, na quantidade exata; após 6 meses eu vou prensar, para tirar só o caldo”, destacou.

Movimentação na economia

Assim como Júnior, outros produtores baianos também aproveitam da época para produzir a bebida. De acordo com organizações produtivas da agricultura familiar baiana, o licor movimenta mais de R$ 1 milhão nos municípios de Monte Santo, Ilhéus, Uauá e Capim Grosso.

A expectativa para esse ano é de que a renda voltada aos comerciantes seja triplicada, já que houve um aumento de 35% na produção. Além dos produtores, os agricultores locais também são impactados com a venda da bebida, afinal é esperado de compra de 2 milhões de kg de licuri.

*Sob supervisão do repórter Lucas Salles.
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