Especial

Cinemas de Salvador resistem ao tempo no coração da capital

Em pleno funcionamento, os cinemas de rua de Salvador mostram que a experiência cultural pode ir muito além de assistir ao filme

Redação iBahia
29/03/2022 às 7h30

7 min de leitura

Fora os prédios consagrados, instalações reconhecidas e até locações de um clipe do Michael Jackson, o Centro Histórico de Salvador é a casa dos cinemas de rua que atravessaram o tempo e resistiram aos mais diversos fatores que ameaçaram sua existência.

Os cinemas de shopping, o streaming e, mais recentemente, a pandemia, são alguns obstáculos que até afugentaram o público, mas nunca afastaram os amantes das telonas de se conectarem de uma forma mais íntima com a capital baiana e com as obras exibidas.

“O cinema de rua conversa com o entorno, com os habitantes daquele bairro, daquela localidade, deixam a rua mais movimentada e menos perigosa. São cinemas que normalmente costumam exibir filmes mais independentes, filmes nacionais”, explica Suzana Argollo, sócia do Circuito Sala de Arte, em entrevista ao iBahia.

Completando 473 anos nesta terça-feira, 29 de março, Salvador possui um circuito de cinema intitulado “Sala de Arte”, com salas espalhadas pela cidade em lugares como o Corredor da Vitória, Solar do Unhão (MAM), Itaigara e Vale do Canela, esta última na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Foto: Reprodução

Já na Praça Castro Alves, quem reina absoluto é o Cine Metha Glauber Rocha, que desde 1919 apresenta filmes com diversidade temática e ocupa o centro como um espaço cultural que vai além dos filmes.

“O centro histórico é um bairro muito sensível para o desenvolvimento de Salvador e ele deveria sempre ser pensado nessa lógica de pensar o que queremos atrair pra cá, pra que a população possa contar com o centro histórico que é vital, é o coração da cidade, sempre pleno, funcionando”, explica Claudio Marques, sócio do cinema. 

Pandemia

Apesar de estarem funcionando a plenos pulmões, os cinemas de rua, assim como toda uma indústria cinematográfica, viram as portas fecharem com a pandemia do coronavírus. Por serem locais fechados e ainda sem existir grande conhecimento sobre o vírus, as salas perderam os risos, choros e sustos do público em março de 2020.

Nessa época, o cinema do MAM tinha reaberto apenas 8 meses antes. “O cinema do MAM ficou praticamente 10 anos fechado porque fazia parte de um prédio que foi reformado. Fomos combinados para retornar quando o MAM estivesse com o prédio todo pronto, então nós equipamos todo o cinema, fizemos uma sala nova. […] Ele voltou em julho de 2019 e, em março de 2020, quando era um cinema que estava começando a se restabelecer, foi fechado com a pandemia e a gente levou mais de um ano e meio com essa sala fechada”, explicou Suzana.

Cinema do MAM/Foto: Lucas Mascarenhas/iBahia

O período foi de perdas culturais irreparáveis para todo o mundo que enfrentava um vírus silencioso e desconhecido. Durante o período de portas fechadas, o Glauber Rocha perdeu o principal patrocinador, que decidiu encerrar as atividades nas salas de cinema da capital baiana.

Abraçaço

Para além do título do disco de Caetano, lançado em 2012, “abraçaço” foi a primeira reação do público na tentativa de resgatar os cinemas de rua após as consequências da pandemia com um ano e meio de portas fechadas, equipamentos sem manutenção adequada e receita inexistente nos caixas.

“As salas se deterioraram bastante durante esse tempo, apesar de termos feito algumas manutenções e estar abrindo, ligando os equipamentos. E foi difícil porque ficamos completamente sem receita e sem dinheiro. O que aconteceu foi que as dívidas cresceram e quando os cinemas começaram a reabrir a gente fez uma campanha de arrecadação virtual e fomos muito bem recebidos pelo povo”, contou Suzana.

A campanha de “vaquinha online” literalmente reabriu as portas dos cinemas e sensibilizou os olhares para a importância da cultura nas ruas de Salvador.

“O público realmente abraçou, foi uma campanha super vitoriosa, não apenas pela meta financeira que a gente bateu, mas foi o público nos dizendo que a existência do Circuito Sala de Arte é importante para a cidade e isso também nos deu muita força para continuar”, completou.

Foi o burburinho dos internautas de todo o Brasil que chamou atenção para o momento delicado vivido também pelo Glauber Rocha.

“A gente passou por uma situação muito difícil na pandemia, a gente perdeu nosso patrocinador de uma forma abrupta. Houve uma comoção, não apenas na cidade, não apenas no estado, mas foi nacional. Isso dá a importância do trabalho que a gente vem desenvolvendo, da importância simbólica desse cinema pra toda a sociedade, não apenas daqui, mas de todo o Brasil. Foi muito importante perceber essa comoção, esse apoio vindo de todas as partes do Brasil”, explicou Claudio. 

Experiência

Em pleno funcionamento, os cinemas de rua de Salvador mostram que a experiência cultural pode ir muito além de assistir ao filme, seja de qual gênero for. Dentro de uma sala de cinema, as emoções são amplificadas, levando o público a experimentar diversos sentidos, olhares e vivências através de bate-papo e outros artifícios. 

“Assistir a um filme em uma sala de cinema é muito diferente de ver um filme em uma televisão, por mais tecnológico que seja esse equipamento. No cinema se agrega à experiência coletiva, aquela sensação de que você está vivendo aquela experiência com outras pessoas se amplificam as sensações e as emoções”, diz Suzana.

“Após os filmes, a gente faz bate-papo, prologando a experiência do filme para falar sobre aquele filme, para entender mais, onde todas as pessoas podem falar sobre a experiência de assistir aquele filme. A gente tá sempre pensando em ir além do assistir o filme, além do que exibido na sala de cinema, a gente tentar fazer dessa experiência algo maior e que aquilo seja transformador”, completa.

Visitar o coração de Salvador no momento de conferir aquele filme que se pretende assistir na companhia dos amigos, também é um diferencial na forma receber a história passada pelas telonas. 

“Ir ao cinema é uma experiência insubstituível, você se veste, até uma sala de cinema, combina com amigos ou vai sozinho […] Ir ao cinema é uma experiência que não vai se perder, ela é única”, conta Claudio. 

Além dos filmes

Entre os grandes motivos para serem visitados, além das obras, os cinemas de rua trazem as belezas de suas instalações, além de projetos especiais e ingressos acessíveis em promoções que podem ser checadas em suas respectivas redes sociais. 

“A gente também vai agregar uma experiência com a música, a gente vai fazer um projeto que vai começar a partir de maio, “Cine Som”, que a gente vai agregar cinema e música. Vai ter um filme e logo depois um show com repertório que vai dialogar com o filme que você acabou de ver. Depois do filme você pode sentar pra ouvir essa música, estar com amigos, conversar com o filme. É fazer com que aquele filme mexa muito mais com você”, explica Suzana sobre os cinemas da Sala de Arte. 

“A gente tem uma programação bastante diferenciada: uma curadoria, festivais de cinema, uma vista inacreditável de bela, a companhia de teatros de uma região que é extremamente importante, há uma livraria, há um restaurante. A gente tem um diálogo muito grande com pessoas de todas as idades. Nós temos promoções pra professores, pra jovens, pra idosos, promoções populares e de filmes a R$4, enfim, são muitos atrativos para que as pessoas venham pra cá”, finaliza Claudio sobre o Glauber Rocha.

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