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CINEMA

Confira crítica cinematográfica do filme 'Perdido em Marte'

Durante uma missão tripulada a Marte, Mark Watney é dado como morto após uma tempestade feroz e deixado para trás por sua tripulação

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03/10/2015 às 17:01 • Atualizada em 01/09/2022 às 1:47 - há XX semanas
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Cinemáticos Redação Cinemáticos
Ridley Scott parece achar na ficção científica sua verdadeira razão de existir como diretor. Mesmo em obras falhas como Prometheus é possível apreender uma ideia de certitude, como se os objetivos estéticos e narrativos fossem alcançados de forma quase plena.Perdido em Marte, certamente, não será um filme tão influente quanto as duas maiores e mais densas obras do cineasta – Alien e Blade Runner –, mas guarda uma identidade própria na sua irreverência e otimismo. Se levarmos em conta que seu último filme foi a bomba atômica Exôdo, é possível classificar este como um dos lançamentos mais surpreendentes de 2015.Perdido em Marte começa chato, mas melhora consideravelmente após seus quinze minutos iniciais. A forma como uma tempestade de areia separa o astronauta Mark Watney (Matt Damon) de sua equipe é feita de forma visualmente confusa e não anima, ainda que a sequência em questão mereça elogios por ser direta e “realista”, mesmo sem causar tensão.
Ao acordar sozinho num planeta inabitado e tendo de se virar para sobreviver começamos a simpatizar com o filme e realmente criar identificação, tanto com o marciano do título quanto por sua luta pela vida. Scott aproveita aqui seu talento para criar universos imersivos e o 3D desde o início se prova fundamental para que o espectador sinta-se parte da tensa experiência vivida por Watney.O cineasta utiliza de forma competente a profundidade de campo da sua Marte e consegue imagens belas e marcantes também fora do planeta em questão, seja na Terra – que resume-se basicamente à NASA e salas de reunião – ou na espaçonave na qual a tripulação comandada pela sempre competente Jessica Chastain encontra-se.
Contando com um elenco estelar e extremamente talentoso, Perdido em Marte tem essa como uma de suas maiores virtudes. Começando por Damon e seu talento para viver papéis de homens em situações-limite temos um protagonista que sustenta o filme sem qualquer tropeço. Seu Mark Watney é um sujeito que consegue manter o humor apesar de inúmeras adversidades e consegue convencer tanto em momentos de irreverência quanto de tensão.
Chiwetel Ejiofor em seu primeiro papel de destaque desde 12 Anos de Escravidão é quem mais tem tempo em tela junto a Damon, e aproveita cada segundo como um sujeito racional que faz de tudo em seu poder para ajudar alguém a apenas alguns planetas de distância, mesmo o tempo todo dando de cara com a parede burocrática encarnada de forma competente e nem um pouco maniqueísta por Jeff Daniels.Chastain, Kate Mara e Michael Peña tem pouco tempo para desenvolver personagens, mas tornam-se importantes para o final do filme e provam que carisma de sobra mesmo em papéis pouco desenvolvidos conta muito. Donald Glover e Sean Bean também se destacam na coadjuvância, tendo apenas Kristen Wiig um pouco perdida no seu papel que serve como alívio cômico pouco útil.Talvez a maior qualidade de Perdido em Marte encontre-se no espírito otimista da obra. Suas referências religiosas estão presentes, mas a maior delas é com certeza a reverência à ciência e a forma como ela é utilizada não apenas como instrumento de sobrevivência, mas manutenção de ordem e sanidade além de possível salvação para alguém perdido/abandonado.Competente na forma de apresentar as soluções de Watney para alimentar-se ou tentar algum tipo de comunicação com seus colegas terráqueos, o filme nunca martela sua intenções ou discursos na cabeça do espectador, utilizando seu vídeo-diário como exposição justificada em situar o espectador e evidenciar seu estado de espírito sempre confiante na ciência.
Como dito anteriormente, Perdido em Marte é um filme por vezes engraçado, e a utilização da música diegética é um exemplo perfeito disso com hits da dance music causando risadas, mas criando um paralelo interessante com a sofisticada música de Harry Gregson-Williams composta para a própria obra, esta casando com momentos sóbrios e desoladores do filme (que não são poucos).Pois dessa combinação fascinante entre leveza e seriedade vem o diferencial do longa; Scott é conhecido pelos filmes com pouco humor, e aqui é surpreendente seu talento para um certo timing cômico que não se destaca negativamente do drama ou cenas tensas. Equilibrando-se perfeitamente entre a grandiosidade de Marte e o intimismo inevitável da solidão vivida por Mark Watney, Ridley Scott pode ter feito um dos filmes mais sinceros e significativos de sua vasta e errática carreira.

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