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CINEMA

Vai assistir o drama 'O Clã'? Leia crítica do filme

Baseado na história de uma das gangues mais conhecidas da Argentina, os Puccio

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17/12/2015 às 23:31 • Atualizada em 01/09/2022 às 4:23 - há XX semanas
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Uma das piores experiências como cinéfilo não é, apenas, assistir a filmes ruins, mas a filmes meramente bons que tinham potencial para ser excelentes. O Clã é um exemplo perfeito disso. Trazendo na direção Pablo Trapero (um dos mais fortes nomes do cinema latino-americano e argentino) temos aqui uma reconstituição de época bem feita, um elenco acertado e uma história extraordinária baseada em eventos reais que deixaria até o mais cético dos seres abismado pela quantidade de bizarrices envolvida. O que faltou então? Comecemos pelo começo. A história verídica vista n’O Clã retrata a vida da aparentemente normal família Puccio, que durante a ditadura militar na Argentina dos anos 80 sequestrava pessoas abastadas em troca de resgates polpudos. Doentia por natureza, essa é uma trama que promete momentos de choque a rodo durante toda a projeção. Não é o que acontece. Logo de cara, Trapero escolhe desenvolver de forma lenta seus minutos de apresentação, contextualizando demais e deixando pouco espaço para que o espectador preencha lacunas nem tão complexas. O que não seria problema, caso o resto do longa seguisse de forma menos óbvia. Não é o que ocorre.
A montagem paralela entre a “ascenção” e captura dos Puccio é uma escolha extremamente errada, revelando de cara o destino de personagens importantes sem o menor motivo para tal. É um problema grave para quem gostaria de saber como tudo decorreu de forma gradual e um equívoco cabal para um filme que poderia ser perfeitamente contado de forma cronólogica com resultados muito mais satisfatórios.O outro grande, enorme, imperdoável equívoco da direção é a forma como apresenta as cenas envolvendo os sequestrados, a tortura psicológica envolvida nisso e as execuções de forma, quase sempre, complementadas por uma música descontraída e que não casa de forma alguma com o que está em tela. Se Stanley Kubrick, praticamente, patenteou o uso de música clássica como banda sonora oficial de violência perturbadora e Martin Scorsese soube aproveitar disso para utilizar seus rocks clássicos e sessentistas também com seus delinquentes, Trapero parece beber na mesma fonte, mas de forma grosseira.Momentos supostamente tensos são sabotados de forma completamente esdrúxula por uma montagem paralela e música errada a todo volume que parecem ter sido escolhidas a esmo para distrair e evitar qualquer chance de perturbar o espectador com as imagens apresentadas.
Mesmo com esses erros crassos, o diretor ainda oferece momentos excelentes de direção que remetem a seus filmes anteriores. Os planos longos segurando a tensão de forma contínua que resultarão em explosão de violência e o elenco sem pontos fracos conseguem segurar o filme entre os erros e momentos que não oferecem nada demais. O contexto sócio-econômico é apresentado de forma convincente e dentro da lógica do clã, que dá título ao filme, torna-se algo, relativamente, compreensível para sua ações – ainda que não as justifiquem.Além de algumas cenas memoráveis, temos aqui um protagonista fascinante na sua psicopatia e do qual é impossível tirar os olhos de todos os momentos em que aparece em tela. O Arquimedes Puccio vivido por Guillermo Francella é a alma do filme e sua graça salvadora, do qual é inevitável escapar. Se o personagem funciona por conta própria, ele torna-se ainda mais provocativo ao imaginá-lo como um resumo perfeito da ditadura da época: matando, manipulando, extroquindo e levando os seus ao exílio como única forma de escapar de suas garras. É uma pena que boa parte do longa concentre-se no seu filho Alejandro, personagem muito mais frágil, chato e cansativo.É muito difícil não imaginar como O Clã poderia ser melhor com algumas alterações na sua cronologia e mudança completa de escolhas musicais equivocadas. Lamentavelmente, quase toda a culpa recai sobre Trapero, conhecido pelo estilo realista e forma livre de firulas com qual conta suas histórias (a exemplo de Abutres e Elefante Branco). Lidando pela primeira vez com uma época passada e eventos reais, parece que o diretor está aqui preciosista demais e esquece de suas maiores qualidades. Ainda assim passa longe de ser um erro, mesmo com um produto final aquém do esperado e um grande filme soterrado por decisões erradas.

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