Depois de uma semana chuvosa na Chapada Diamantina, caminhando por trilhas e atravessando paisagens que naturalmente desaceleram o ritmo interno, vivi uma experiência de quase morte. Em um dos dias, já no Vale do Capão, resolvi seguir até a Cachoeira da Purificação. Para quem conhece, sabe que é uma trilha que exige atenção, com caminhos que entram pela mata, trechos pouco sinalizados e mudanças de direção que pedem presença.

O céu já estava nublado, mas ainda assim escolhi ir, entendendo que muitas vezes começamos um caminho sem todas as certezas. A trilha exigia cruzar o rio algumas vezes. Em alguns trechos, me perdi, voltei, com ajuda de outra pessoa, reencontrei o caminho e segui. Consegui chegar naquele local lindo, mergulhei na água gelada e iniciei o retorno antes que a chuva apertasse, mas não foi suficiente.
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No caminho de volta, a chuva caiu e, pouco tempo depois, o rio começou a subir rapidamente, formando o que se conhece como cabeça d’água. Trechos que antes eram simples ficaram fortes, largos e perigosos. Foi necessário parar. E parar, quando não foi planejado, costuma nos colocar diante de algo que não controlamos, não é mesmo?!

Outras pessoas também estavam ali, observando o nível da água e tentando decidir o que fazer. A espera me trouxe uma mistura de tensão e presença. O tempo passava e o rio seguia forte. Em certos momentos, surgiu a possibilidade real de termos que permanecer ali durante toda a noite, até a água baixar completamente. A incerteza apareceu de forma concreta.
Quando o volume diminuiu um pouco, decidimos atravessar juntos. Sozinhos, seria arriscado demais. Demos as mãos para formar uma corrente humana e começamos a travessia com passos lentos, procurando apoio nas pedras que já não apareciam com clareza. A força da água impressionava. Em um dos trechos, um rapaz escorregou e por pouco não foi levado pela correnteza.
Ali ficou evidente algo simples e profundo: não era possível atravessar sozinho.
Cada parte vencida trazia alívio, mas também a consciência de que ainda havia mais caminho. O medo aparecia, a dúvida também, mas voltar já não fazia sentido. Seguir exigia presença, cooperação e confiança.
Essa experiência acabou funcionando como uma metáfora natural de muitos processos emocionais. Nem sempre o desafio está em iniciar uma caminhada, mas em sustentar o percurso quando surgem imprevistos. Na vida cotidiana, é comum alternarmos entre duas posições: tentar controlar tudo ou evitar aquilo que gera desconforto. Raramente escolhemos permanecer tempo suficiente para compreender o que a situação pede.

Isso aparece em decisões pessoais, em fases de mudança e principalmente nas relações. Em muitos momentos, o impulso é se afastar diante da dificuldade, como se evitar fosse proteger. Mas há situações em que o que organiza não é a distância, e sim a presença. Assim como naquela travessia, certos processos pedem diálogo, apoio e tempo compartilhado. Quando silenciamos ou nos isolamos, o risco emocional costuma aumentar.
Enquanto voltava pela trilha, ainda com os pés molhados e o corpo atento ao caminho, ficou clara uma ideia que tenho revisitado com frequência: processos internos não seguem a lógica da pressa. Algumas experiências precisam de pausa para que façam sentido.
Desde então, tenho me feito algumas perguntas que compartilho aqui, porque talvez também ajudem quem está lendo:
- Tenho evitado atravessar situações importantes por medo do desconforto?
- Quando surge um conflito, eu me afasto ou procuro construir apoio?
- O que hoje pede mais presença e menos reação automática?
- Em quais áreas da vida estou tentando resolver rápido algo que precisa primeiro ser compreendido?
Nem sempre conseguimos prever a chuva, mas podemos aprender a caminhar com mais consciência quando o caminho muda. Às vezes, maturidade não é evitar a correnteza, mas reconhecer que existem travessias que só acontecem quando aceitamos não caminhar sozinhos.

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