Dez anos depois, o que ficou dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro
Uma década após a pira acesa no Maracanã, a Rio 2016 continua como a festa mais grandiosa e o legado mais controverso do esporte brasileiro

Parece que foi ontem. Mas já se passaram dez anos desde que Gisele Bündchen desfilou ao som de “Garota de Ipanema”, uma réplica do 14 Bis sobrevoou o estádio e Vanderlei Cordeiro de Lima subiu ao alto do Maracanã para acender a lindíssima pira olímpica e inaugurar oficialmente os primeiros Jogos realizados na América do Sul. Durante 17 dias, o Rio de Janeiro foi o centro do mundo esportivo e o Brasil viveu uma experiência difícil de repetir: a de se reconhecer não apenas como país-sede, mas como protagonista de uma Olimpíada que deixou heróis, imagens inesquecíveis e uma pergunta que permanece uma década depois: afinal, o que realmente ficou?

Aquele momento que a gente pensa: os Jogos Olímpicos começaram! 🤩🔥
— Jogos Olímpicos™ (@JogosOlimpicos) June 13, 2024
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Os Jogos Olímpicos de 2016 aconteceram em um dos períodos mais turbulentos da história recente do país. O Brasil atravessava uma crise econômica e política, com o processo de impeachment de Dilma Rousseff em andamento, enquanto o Rio de Janeiro enfrentava dificuldades financeiras. Havia dúvidas sobre segurança, transporte, instalações, água, organização e até o impacto do vírus da zika. A desconfiança e a pressão internacionais eram enormes. Quando a cerimônia de abertura começou, porém, as preocupações deram lugar a uma festa que rapidamente ganhou o mundo.
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O Brasil terminou os Jogos com 19 medalhas (sete de ouro, seis de prata e seis de bronze), até então sua melhor campanha olímpica. Mas os números não explicam inteiramente o significado daquele evento. A Cidade Maravilhosa não entregou apenas medalhas: apresentou atletas, recuperou histórias e criou referências que continuariam a crescer nos ciclos seguintes.
A primeira grande personagem foi Rafaela Silva. Nascida e criada na Cidade de Deus, a judoca havia deixado Londres 2012 sob uma avalanche de críticas depois de ser desclassificada. Em casa, quatro anos depois, transformou a frustração em ouro e tornou-se a primeira campeã olímpica brasileira nos Jogos do Rio de Janeiro. Foi uma conquista esportiva, mas também uma narrativa poderosa sobre origem, preconceito, superação e pertencimento.
Robson Conceição produziu outra página inédita. Depois de duas experiências olímpicas frustrantes, conquistou o ouro no boxe e deu ao Brasil seu primeiro título olímpico na modalidade. Thiago Braz, no salto com vara, também desafiou a lógica. Diante do francês Renaud Lavillenie, então campeão olímpico e favorito, saltou 6,03 metros, estabeleceu recorde olímpico e transformou o Estádio Olímpico em uma arena de emoções.
A torcida, aliás, foi uma personagem à parte. O público brasileiro não se limitou a assistir. Cantou, vaiou, provocou, adotou estrangeiros e transformou situações inusitadas em fenômenos de arquibancada. O episódio envolvendo Lavillenie, que reclamou das vaias, virou um dos símbolos daquela relação entre atletas e torcedores. Outa que recebeu holofotes foi Hope Solo, goleira dos Estados Unidos, que ganhou o apelido de “Zika” por causa de declarações sobre o vírus. A seleção de handebol feminino de Angola virou uma das queridinhas do público. Até músicas populares encontraram lugar em modalidades improváveis. Era a velha arquibancada brasileira aplicada a um evento global. E funcionou.
Os Jogos de 2016 também preservaram a tradição brasileira. Martine Grael e Kahena Kunze conquistaram o ouro na vela em uma chegada dramática. Alison e Bruno Schmidt venceram o vôlei de praia em Copacabana. A seleção masculina de vôlei, depois de uma primeira fase irregular, recuperou-se e venceu a Itália na final.
O ouro que faltava e a redenção
O futebol masculino brasileiro jamais havia conquistado uma medalha de ouro olímpica. Depois do trauma do 7 a 1 para a Alemanha na Copa do Mundo de 2014, a Seleção chegou ao torneio sob enorme pressão. Começou mal, com dois empates sem gols, contra África do Sul e Iraque. Recuperou-se, chegou à final e reencontrou justamente os alemães. No Maracanã, empate por 1 a 1. Nos pênaltis, Neymar converteu a última cobrança. O Brasil finalmente era campeão olímpico. Foi uma reparação simbólica, ainda que o futebol olímpico jamais pudesse apagar uma Copa do Mundo.
Houve também histórias de redenção. Diego Hypólito chegou ao Rio de Janeiro carregando duas quedas olímpicas, em Pequim e Londres. Decidiu simplificar sua série no solo, concentrando-se em terminar a apresentação de pé. Terminou com a prata. Arthur Nory ficou com o bronze, em uma inédita dobradinha brasileira na ginástica artística masculina.
O Rio de Janeiro também foi palco de uma das maiores performances individuais da história olímpica brasileira. Isaquias Queiroz conquistou três medalhas na canoagem (duas pratas e um bronze) e tornou-se o primeiro brasileiro a subir três vezes ao pódio em uma mesma edição dos Jogos. O menino de Ubaitaba, no interior da Bahia, transformava uma modalidade pouco conhecida do grande público em assunto nacional. Cinco anos depois, em Tokyo, viria o ouro nos Jogos Olímpicos.
Despedidas e chegadas
Enquanto alguns brasileiros viviam o auge, o Rio de Janeiro assistia também à despedida de gigantes. Michael Phelps encerrou sua carreira olímpica com cinco ouros e uma prata, chegando a 28 medalhas olímpicas, sendo 23 de ouro. Usain Bolt conquistou novamente os 100 metros, os 200 metros e o revezamento 4x100 metros, completando a impressionante sequência de três ouros nas mesmas provas em três Olimpíadas consecutivas.
E, enquanto dois dos maiores atletas da história diziam adeus, duas estrelas ainda começavam a ser percebidas. Simone Biles estreava em Jogos Olímpicos e conquistava quatro ouros e um bronze. Rebeca Andrade, então com 17 anos, ainda estava longe da atleta que se tornaria. Terminou o individual geral em 11º lugar, mas os Jogos de 2016 já ofereciam uma pista do futuro.
Essa talvez seja uma das grandes heranças de uma Olimpíada, que compreende o ciclo de quatro anos entre um evento e o próximo: perceber, tempos depois, que alguns dos protagonistas ainda estavam apenas começando. O Brasil deixou o Rio de Janeiro com sete ouros e uma sensação inédita de que diversas modalidades poderiam produzir campeões.
A prova de que alguma coisa havia mudado apareceu no ciclo seguinte. Em Tokyo, realizado em 2021 depois do adiamento provocado pela pandemia de Covid-19, o Brasil repetiu os sete ouros do Rio de Janeiro e chegou a 21 medalhas, superando o recorde total anterior. Entre os protagonistas estavam atletas que haviam sido revelados ou consolidados no ciclo iniciado em 2016, como Isaquias Queiroz, além de uma nova geração.
Paris 2024 ampliou essa percepção. O Brasil voltou a subir ao pódio em diferentes modalidades e viu Rebeca Andrade transformar aquela promessa de 2016 em realidade: tornou-se a maior medalhista olímpica da história do país.
É impossível, portanto, separar os Jogos Olímpicos de 2016 do esporte brasileiro que veio depois. Uma Olimpíada não fabrica campeões em 17 dias. Medalhas são resultado de formação, investimento, treinamento e políticas esportivas que levam anos. Mas os Jogos podem dar visibilidade a modalidades, inspirar crianças, aproximar patrocinadores, criar ídolos e estabelecer uma nova expectativa. Nesse sentido, o Rio funcionou como vitrine e ponto de partida.
Outra história que também precisa ser contada
O legado urbano prometido para a cidade foi muito mais controverso do que a celebração olímpica sugeria. Houve investimentos em mobilidade, especialmente com BRT, novas instalações e a promessa de transformar estruturas esportivas em equipamentos permanentes. Parte desse legado sobreviveu. Outra parte enfrentou problemas de manutenção, custos, utilização e integração com a vida cotidiana da cidade.
O Parque Olímpico é talvez a melhor síntese dessa contradição. O espaço que recebeu algumas das maiores competições dos Jogos continuou abrigando atividades esportivas, mas também passou a representar a dificuldade brasileira de transformar grandes projetos de eventos internacionais em políticas públicas permanentes.
Há ainda a dimensão política. Os Jogos Olímpicos de 2016 foram celebrados como demonstração da capacidade brasileira, mas a escolha da cidade e a preparação do evento foram posteriormente envolvidas em investigações de corrupção. A própria história da Olimpíada ficou marcada pelas suspeitas sobre compra de votos e pelos processos judiciais que atingiram dirigentes e autoridades. Dez anos depois, a memória do evento precisa comportar as duas faces: a extraordinária experiência esportiva e os questionamentos sobre os interesses políticos e econômicos que cercaram sua realização.
A mistura que tornou a Rio 2016 tão fascinante
Foi uma Olimpíada imperfeita, realizada em um país em ebulição e em uma cidade cheia de contradições. E, ainda assim, produziu momentos que parecem pertencer a uma espécie de Brasil que gostaríamos de guardar. Rafaela Silva mostrou que uma menina da Cidade de Deus poderia conquistar o mundo. Isaquias Queiroz levou a canoagem para a conversa de milhões de brasileiros. Robson Conceição fez o país olhar para o boxe. Thiago Braz transformou o salto com vara em espetáculo. Diego Hypólito mostrou que algumas vitórias começam quando aprendemos a conviver com nossas derrotas. Neymar entregou ao futebol masculino o ouro que faltava. E Rebeca Andrade apareceu discretamente no horizonte, sem que ainda soubéssemos a dimensão da história que estava começando.
Dez anos depois, Phelps e Bolt já pertencem ao passado olímpico. Muitos dos heróis do Rio de Janeiro se aposentaram. Outros continuam competindo. Rebeca virou gigante. Isaquias ainda representa uma geração. E o Brasil chegou a Tokyo e Paris levando consigo parte da experiência iniciada naquela noite de agosto de 2016.
O apagamento da pira olímpica do Rio 2016 continua sendo a mais linda de todas as olimpíadas #CerimoniaDeEncerramento #Tokyo2020 pic.twitter.com/xT1vUQNiMV
— Johnn (@drewmendess) August 8, 2021
A pira do Maracanã apagou-se há uma década, mas seu legado continua em disputa. A Rio 2016 não foi uma Olimpíada perfeita, nem cumpriu com todas as promessas feitas à cidade, mas foi um momento em que o Brasil conseguiu enxergar o esporte de maneira mais ampla. Por alguns dias, o país olhou para além do futebol, descobriu atletas, abraçou modalidades, criou heróis e percebeu que talento olímpico também nasce longe dos grandes centros.
Os Jogos Olímpicos duraram 17 dias e um medalhista pode ser lembrado por uma vida inteira. Para os que criticaram, o legado mais importante é aquele que não cabe no quadro de medalhas: o da criança que viu Rafaela, Isaquias, Robson, Rebeca ou qualquer outro atleta e descobriu que também poderia estar ali um dia. Talvez seja por isso que a Rio 2016 ainda pareça ter acontecido ontem. Não porque tenha sido perfeita, mas porque, por 17 dias, o Brasil conseguiu ser exatamente aquilo que o esporte costuma prometer: diversidade, emoção, barulho, contradições, e a capacidade de cair, levantar e tentar novamente. Passados dez anos, nem a esvaziada Tokyo 2020 nem a tumultuada Paris 2024 conseguiram fazer Jogos Olímpicos tão incríveis.
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