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Tabus, Tretas e Troças

Na guerra dos títulos do futebol, o Hexa da Discórdia é do Vitória

Na narrativa dos títulos fictícios, Rubro-Negro assume o topo da Copa do Nordeste, se descola do Bahia e se junta a Flamengo e Palmeiras nas tretas

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Sílvio Tudela

08/06/2026 às 12:25 - há XX semanas
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O apito final da decisão contra o Fortaleza deveria ter encerrado qualquer discussão. Dentro de campo, o Vitória conquistou sua quinta Copa do Nordeste oficialmente reconhecida pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e alcançou o Bahia na condição de maior vencedor da principal competição regional do país. Mas bastaram alguns minutos para que uma questão surgisse. Afinal, o Vitória é penta ou hexacampeão do Nordeste?


					Na guerra dos títulos do futebol, o Hexa da Discórdia é do Vitória
Vitória, mais um título da Copa do Nordeste. Foto: Jonny Pinho – Staff Images / CBF

A pergunta parece simples, mas ajuda a explicar uma das maiores manias do futebol brasileiro moderno: a necessidade quase compulsiva de revisitar o passado em busca de títulos, troféus, estrelas e glórias que possam alterar rankings, estatísticas e narrativas históricas. Para a CBF, a conta é objetiva. O clube rubro-negro venceu a Copa do Nordeste em 1997, 1999, 2003, 2010 e 2026. Cinco títulos e ponto final. Para o Vitória, porém, a história não termina aí.

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A diretoria rubro-negra sustenta que o Torneio José Américo de Almeida Filho, conquistado em 1976, possuía características de um campeonato regional nordestino e, portanto, deveria ser reconhecido oficialmente como uma edição pioneira da Copa do Nordeste. E "se" isso ocorrer, o Leão da Barra ultrapassaria o rival Bahia e passaria a ostentar sozinho o posto de maior campeão nordestino da história.

A reivindicação do Vitória não é exatamente absurda, pois a competição reuniu alguns dos principais clubes da região e foi disputada décadas antes da criação formal da Copa do Nordeste, em 1994. O argumento lembra muito o que aconteceu em 2010, quando a própria CBF reconheceu, de forma ética ou não, a equivalência da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa aos Campeonatos Brasileiros, transformando Pelé em hexacampeão nacional sem que uma única bola precisasse voltar a rolar.

O problema é que, no futebol brasileiro, quase toda reivindicação considerada legítima por uma torcida é vista como delírio histórico pela torcida rival. E, por isso mesmo, a discussão rapidamente deixa o terreno dos documentos e entra no território das paixões. Eternos rivais e cheios de dor-de-cotovelo, os torcedores do Bahia lembram que o reconhecimento oficial simplesmente não existe. Os do Vitória, por sua vez, respondem que a própria história do futebol brasileiro está repleta de unificações posteriores. E o debate segue sem previsão de término.

Mas talvez o mais curioso seja perceber que o Vitória está longe de ser um caso isolado. Na verdade, ele integra um clube bastante seleto: o dos times que tentam renegociar a própria história.

Nenhum exemplo é mais emblemático do que a novela do Campeonato Brasileiro de 1987. Quase quatro décadas depois da conquista do módulo principal da Copa União, o Flamengo continua defendendo a tese de que é campeão brasileiro daquele ano. O problema é que todas as instâncias esportivas e judiciais relevantes, inclusive o STF, onde o caso foi parar, reconheceram o Sport como o legítimo dono do título, uma vez que o Flamengo deixou de disputar as partidas finais e cumprir o regulamento acordado entre todos os clubes. Ainda assim, o assunto ressurge periodicamente, como uma espécie de clássico jurídico nacional. O resultado traz como consequência uma situação curiosa: o Flamengo possui milhões de torcedores convencidos de que seu clube é o campeão de 1987, enquanto os documentos oficiais continuam apontando o Sport como único vencedor. E com isso o futebol brasileiro talvez seja o único lugar do mundo onde um campeonato encerrado há mais de 40 anos ainda consegue gerar debates mais inflamados do que muitos torneios atuais.

A obsessão não para por aí. O Palmeiras convive há décadas com outra disputa histórica. O clube sustenta que a Copa Rio de 1951 deve ser reconhecida como um Mundial de Clubes. A FIFA já variou seu entendimento ao longo dos anos, ora reconhecendo o torneio como precursor dos campeonatos intercontinentais, ora evitando equipará-lo formalmente aos Mundiais organizados pela entidade. O resultado é um impasse permanente que alimenta memes, provocações e uma das rivalidades mais intensas do futebol brasileiro. Enquanto palmeirenses defendem que o torneio teve caráter mundial, rivais insistem em transformar o assunto em motivo de piada.

Na América do Sul, a discussão ganha outros contornos. Clubes vencedores da extinta Copa Conmebol (1992 a 1999), da Supercopa Sul-Americana (1988

a 1997) e da Copa Mercosul e Copa Merconorte (1998 a 2001) frequentemente defendem algum tipo de equivalência histórica com a atual Copa Sul-Americana, que existe desde 2002. Embora as competições tenham ocupado espaços semelhantes no calendário continental, nunca houve um reconhecimento oficial que unificasse os títulos.

Mesmo assim, os debates seguem vivos porque o futebol raramente aceita que o passado permaneça imóvel. E talvez seja justamente essa a explicação para tantas batalhas estatísticas, pois os clubes não brigam apenas por troféus, mas também por narrativa. Um título reconhecido pode alterar rankings, aumentar a autoestima da torcida, fortalecer campanhas de marketing, impulsionar programas de sócio torcedor e até valorizar a marca institucional. Em um esporte onde a história é parte fundamental do produto, controlar o passado significa também disputar o presente e alterar o futuro. Por isso, cada nova reivindicação provoca reações tão intensas, pois, no fundo, não estamos discutindo apenas números, mas identidade.

O Vitória quer ser o maior campeão nordestino. O Flamengo quer recuperar uma taça que considera como sendo sua, apesar de todos os argumentos serem facilmente desconsiderados. O Palmeiras deseja ocupar um lugar que nunca teve na galeria dos campeões mundiais, em contraponto ao campeão do mesmo torneio no ano seguinte (o Fluminense), que não faz a mesma questão.

Na verdade, todos perseguem algo que vai além de um troféu e se chama legitimidade. A ironia é que, quanto mais o futebol tenta reescrever sua história, mais ele produz novas controvérsias e o passado, que deveria ser o capítulo mais estável de qualquer esporte, transforma-se em um território permanentemente em disputa.

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