Ascensão

O futebol feminino do Brasil já pode sonhar com o topo do mundo?

Título de mais uma Copa América sinaliza que a modalidade está no caminho certo para triunfos maiores

Sílvio Tudela
01/08/2022 às 9h00

4 min de leitura
Foto: Thais Magalhães/CBF

E a América do Sul é verde e amarela de novo, graças às nossas meninas, que garantiram para a Seleção Brasileira o seu oitavo título continental, com 20 gols marcados e nenhum sofrido. Depois de passar pela Argentina (4 a 0), Uruguai (3 a 0), Venezuela (4 a 0), e Peru (6 a 0), o Brasil despachou o Paraguai (2 a 0) na semifinal e sagrou-se campeão ao vencer a Colômbia neste sábado, 30 de julho, por 1 a 0.

Nas noves edições realizadas, o Brasil conquistou o torneio em oito ocasiões (1991, 1995, 1998, 2003, 2010, 2014, 2018 e 2022). Somente em 2006, a Seleção Brasileira não foi campeã, ano em que a taça foi para a Argentina.

Apesar da hegemonia sul-americana, nossas meninas, mesmo apresentando um futebol com a verdadeira cara do Brasil, com jogadas bonitas e dribles fantásticos, ainda não conseguiram conquistar o topo do mundo ou o primeiro lugar do pódio olímpico. E esses fatos têm explicações.

A Copa do Mundo de Futebol Feminino vem sendo realizada desde 1991, mais de 60 anos após o evento masculino, e teve em suas oito edições, quatro títulos dos Estados Unidos (1991, 1999, 2015 e 2019), dois da Alemanha (2003 e 2007), um da Noruega (1995) e outro do Japão (2011). Os melhores resultados do Brasil foram o vice-campeonato em 2007 e um terceiro lugar em 1999.

Quando o assunto é Jogos Olímpicos, é interessante relembrar que o futebol masculino só não foi disputado na primeira edição em Atenas 1896, mas já apareceu como torneio de exibição em 1900 e 1904 e foi oficializado em 1908. Para entender a diferença de tratamento entre os sexos, a modalidade feminina só foi incluída em 1996, quase 100 anos depois dos homens.

Nas sete edições realizadas, as norte-americanas são donas de quatro medalhas de ouro (1996, 2004, 2008 e 2012), Noruega (2000), Alemanha (2016) e Canadá (2020) possuem uma cada, e o Brasil amarga colocações não tão boas.

Em 1996 e 2000, o Brasil ficou sem medalhas, mas chegou ao quarto lugar mesmo com as jogadoras brasileiras sendo rotuladas como ‘semiamadoras’ pelas adversárias. Nossas atletas conquistaram duas pratas (2004 e 2008), as melhores campanhas das brasileiras na competição, e mais um quarto lugar em 2016, para frustração da torcida no Rio de Janeiro. Em 2012 e 2020, o time brasileiro deu adeus às Olimpíadas ainda nas quartas de final, mesmo contando com muitas das melhores jogadoras do mundo.

História de resistência

As mulheres que jogam futebol no Brasil já chegaram a ser tratadas como atrações circenses – e isso não é força de expressão -, foram obrigadas a ficar caladas nas arquibancadas e tinham seus acessos aos estádios dificultados.

Quando puderam “jogar”, faziam isso de forma mista com os homens, beneficente e em nível de competitividade amistosa, mas pagaram um alto preço por se exibirem no Estádio do Pacaembu, em 1940.

O esporte acabou sendo proibido pelo Estado Novo, em 1941, e foi ainda mais reprimido na Ditadura Militar de 1964, com as mulheres correndo o risco de serem presas por desobediência. Mesmo com a legalização em 1983, precisaram lidar novamente com o preconceito, a falta de estímulo, de estrutura e de condições básicas para poderem jogar.

Fato é que há menos de 40 anos temos, legalmente, mulheres em campo no Brasil, e isso já pode ser considerado pouquíssimo tempo para estabelecer times competitivos, jogadoras de excelência e campeonatos de qualidade como vemos na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo.

A conquista do Octacampeonato da Copa América pode até parecer pequena e bairrista para quem olha os resultados com a referência do futebol masculino, mas não é. O trabalho da técnica Pia Sundhage vem mostrando uma equipe mais organizada tecnicamente, confiante no padrão de jogo e proativa nos gramados, atacando muito e com uma forte solidez defensiva.

Fora de campo, a estrutura de gestão vem ganhando, cada vez mais, mulheres na comissão técnica e discursos de igualdade e o futebol feminino vem sendo profissionalizado pela própria CBF, como contrapartida ao licenciamento do futebol masculino, ganhando incentivos, conquistando torcedores e atraindo patrocinadores, com o apoio da mídia.

Parafraseando o que disse o astronauta Neil Armstrong, ao pisar na Lua, a nossa oitava Copa América pode parecer um pequeno passo para as nossas jogadoras, mas um gigantesco salto para a o futebol feminino brasileiro.

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