Por que heróis de verdade nunca morrem?


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Não é de hoje que vemos alguns torcedores e grupos organizados se manifestarem contra a contratação de certos jogadores e treinadores para o seu time de coração, seja por virem de clubes arquirrivais com os quais eram plenamente identificados, deslizes de caráter ou comportamentos do passado que não compactuam com os valores de seu clube.

Nos últimos dias, viu-se, nas redes sociais do Esporte Clube Bahia, mensagens que desaprovavam determinada contratação, mas exemplos não faltam em diversas agremiações de diferentes lugares e épocas no Brasil e no mundo. A lista é longa, mas chama a atenção o ocorrido no time baiano que tem como mascote o Homem de Aço, talvez porque tenha muito a dizer sobre toda a história que envolve o esporte.

Dentre todas as práticas humanas, o esporte tem sido um dos grandes pretextos para se utilizar o homem como meio na busca de objetivos diversos, sejam eles científicos, religiosos, políticos etc. E pairando por todo esse complexo cenário está o mito do super-homem, aquele que vence tudo e é praticamente indestrutível, representando, inconscientemente, que o maior sonho do ser humano é vencer a morte ou adiá-la ao máximo.

O super-homem é, na grande maioria das vezes, o ideal do sujeito comum, tornando-se forte o bastante para modificar o curso da História, como diz a música de Gilberto Gil, e moralmente justo para vencer outros “heróis” malévolos. Força e moral sempre caminham juntas quando se estuda a filosofia do esporte, mostrando que o atleta idealizado, além de perfeito fisicamente, deve possuir virtudes como competência, honestidade, humildade e sabedoria.

O polêmico, controverso, incensado e demonizado escritor Coelho Neto, em seu texto “O Torcedor”, no livro “Teatrinho” (1905), uma coletânea de textos dramáticos para crianças, escrito em parceria com Olavo Bilac, explica a uma criança sobre as virtudes morais do esporte após a mesma ter provocado a quebra de vasos e vidraças do vizinho devido à sua “intempestividade atlética”:

“Mas não basta ter um braço forte e perna rija e ágil; é necessário possuir também espírito claro e pronto e alma que seja como a luz, entendes? Um corpo forte é uma armadura, não há dúvida, mas o aço, por melhor que seja a sua têmpera, vale como força inerte. Quereis ver o que é uma alma? Olhai para um corpo sem alma…  Eu digo o mesmo da força. Adoece e morre o atleta mais possante. Força, força, pois não, mas sem prejuízo do espírito.”

Mas há sempre um perigoso caminho nessa busca de encontrar o super-homem, quando se sublima seus erros e os deslizes humanos são naturalizados em nome de uma vitória qualquer. No processo histórico em curso, um deles foi esconder e amenizar o objetivo político-biológico de impor uma raça superior subjugando outra etnias e povos. Foi também a partir daí que nasceram vários discursos de ódios, desmandos e perseguições, do arianismo ao holocausto judeu e à escravidão.

Nos Jogos Olímpicos de Verão de 1936, em Berlim, Alemanha Nazista, Adolf Hitler organizou cuidadosamente uma celebração ideológica para a prova mais importante do atletismo: os 100 metros rasos. Queria ratificar ali, em meio a uma multidão fanática, a supremacia dos atletas alemães e de seu projeto nazista para o mundo.

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Mas o que se viu, no Estádio Olímpico, foram milhares de pessoas assistindo boquiabertas à vitória do negro James Cleveland Owens (1913-1980), conhecido por Jesse Owens, um atleta e líder civil norte-americano. Ele ganhou quatro medalhas de ouro nos 100 e 200 metros rasos, no salto em distância e no revezamento 4x100m.

Muito antes de Adolf Hitler, o imperador romano Nero Cláudio César Augusto Germânico (37-68), o último da dinastia júlio-claudiana, organizou uma famosa corrida de bigas, na qual só ele iria participar, evitando assim uma possível derrota. Perdeu! Os parafusos das rodas se soltaram e a prova não terminou para frustração pessoal e dos presentes.

Retratado por escritores da época como tirano e assassino sistemático, inclusive de sua mãe e familiares, Nero entrou para a História, pela crença generalizada, como aquele que, com medo de perder o poder, incendiou Roma e enquanto a cidade ardia, estaria compondo com a sua lira. Em 68, ocorreu um golpe de estado de vários governadores, após o qual, aparentemente, foi forçado a suicidar-se.

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Esses são dois exemplos usados pelos pesquisadores do esporte para refletir teoricamente sobre a interação entre moral e força física. Segundo eles, métodos desonestos diminuem o brilho da vitória se ela porventura vier a se concretizar. E essa não é a opinião dos estudiosos, mas de todos que amam o esporte. Vencer é bom, mas é necessário que seja ética.

Para finalizar, nos Estados Unidos, nos anos 1930, difundia-se a ideia de que qualquer um poderia ser forte e valente desde que devidamente motivado por uma causa justa, por mais que esse conceito seja ambíguo e complexo. Na mesma época, pelas mãos da indústria cultural, surgia nas histórias em quadrinhos um homem comum, porém notável e singular, quase um semideus, um tímido repórter do “Planeta Diário”, Clark Kent, o Superman.

Mas, como nem todos os heróis fazem sucesso para sempre, a editora DC Comics, percebendo que o interesse pelo herói estava em declínio, numa arriscada investida publicitária, em 1993, programou a morte do personagem porque nem ele seria poupado pela morte. Mas como heróis fortes e justos nunca morrem, o super-herói voltou, anos depois, num arco de histórias completo chamado de “A Morte e o Retorno do Superman”.

Como define a revista Rolling Stone, o poder subsequente das histórias posteriores à morte do personagem ajudou a lembrar ao mundo e aos mortais por que eles ainda precisavam de um Superman.

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