A Justiça determinou que o Olodum abra o Circuito Dodô (Barra-Ondina), em Salvador, neste domingo (15), no Carnaval 2026, decisão que altera a ordem anteriormente favorável ao Bloco Crocodilo, liderado por Daniela Mercury. A mudança garante ao tradicional bloco afro a primeira posição no desfile.

Com o tema “Máscaras Africanas: Magia e Beleza”, o Olodum leva para a avenida um desfile que destaca referências estéticas e simbólicas do continente africano. O projeto orienta figurinos, repertório e elementos visuais, reforçando a mensagem histórica do grupo em defesa da cultura negra e da valorização da diáspora africana.
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A decisão judicial foi recebida como uma vitória institucional. Para o presidente do Olodum, Jorginho Rodrigues, a mudança representa o reconhecimento da importância do bloco para o Carnaval de Salvador. “Abrir a avenida é uma responsabilidade grande. O Olodum construiu uma trajetória que dialoga com a história do Carnaval e com a luta do povo negro. Recebemos essa decisão com respeito e com o compromisso de fazer um desfile à altura do que o público espera”, afirmou.
Já o presidente Marcelo Gentil destacou o significado simbólico da conquista. "Essa posição reforça o papel do Olodum na cultura brasileira. Vamos celebrar com organização, com música e com a força da nossa percussão. É um momento de comemoração para a nossa comunidade e para quem acompanha o bloco há décadas", declarou.
Fundado em 1979, no Pelourinho, o Olodum consolidou-se como um dos principais blocos afro do país. Sua batida marcou gerações e projetou o nome de Salvador para o mundo, com parcerias internacionais e presença constante nos grandes eventos do calendário cultural da cidade.
Entenda a disputa com o Bloco Crocodilo

Na última quinta-feira (12), uma decisão havia determinado que o Bloco Crocodilo voltasse a ser o primeiro a desfilar no Circuito Barra-Ondina. A liminar foi concedida em mandado de segurança movido pela empresa responsável pelo bloco, que tem à frente a cantora Daniela Mercury.
Segundo o processo, o Crocodilo desfila no circuito desde 1996, ano em que teria sido responsável por inaugurar oficialmente o trajeto Barra-Ondina de forma contínua. A Justiça considerou que o bloco se apresenta de maneira ininterrupta há quase três décadas, o que lhe garantiria preferência na ordem de saída com base no critério de antiguidade previsto no regulamento do Carnaval.
Na decisão anterior, o juiz havia determinado que o Crocodilo abriria os desfiles no domingo (15) e na segunda-feira (16), a partir das 15h30, com trio pipoca. O cumprimento foi autorizado de forma imediata, considerando a proximidade do início do Carnaval.
Procurada, a Empresa Salvador Turismo (Saltur) informou que cumpriria a determinação judicial. Já a Conselho Municipal do Carnaval e Outras Festas Populares (Comcar) ainda não havia se posicionado.
Bloco Crocodilo vai recorrer da decisão
Em nota ao Ibahia, a direção do Bloco Crocodilo informou que vai recorrer da decisão judicial proferida, neste sábado (14), por entender que o histórico oficial da ordem dos desfiles no Circuito Dodô (Barra-Ondina) demonstra um rebaixamento progressivo e contínuo do bloco ao longo de quase 30 anos, em desacordo com o critério de antiguidade previsto no regulamento do Carnaval.
Segundo a empresária Malu Verçosa Mercury, responsável pela gestão do bloco, o reposicionamento não ocorreu de forma pontual, mas ao longo de sucessivos anos. "O primeiro desfile do Bloco Crocodilo, em 1996, domingo, segunda e terça na Barra foi seguido por blocos alternativos que não desfilavam esses dias nesse circuito. Com o anúncio de que Daniela Mercury passaria a desfilar com o Crocodilo na Barra, os blocos Me Leva, Brother, Fecundanca e Adrenalina seguiram Daniela se encaixando antes dela por determinação da gestão municipal da época. O carnaval na Barra não existia domingo, segunda e terça, reitero aqui. Com o passar dos anos, esses blocos deixaram de existir, mas o Bloco Crocodilo não foi reposicionado para o primeiro lugar, sendo sempre preterido e prejudicado nos desfiles."
Malu destacou ainda que, apesar de tentativas de diálogo e administrativas, não houve retorno dos órgãos responsáveis. "Em 2026, antes do Carnaval, o Bloco Crocodilo enviou um ofício para o COMCAR e para Saltur e não obteve resposta, mesmo com tentativa de contatos telefônicos. Diante da publicação oficial da ordem dos desfiles feita no dia 11 de fevereiro pela prefeitura, a diretoria do bloco fez diversas tentativas, sem sucesso, de contato telefônico com o COMCAR e com a Saltur. Sendo necessário o último recurso disponível: a Justiça", disse.
Por fim, a empresária reforçou que o recurso judicial busca o reconhecimento de um direito histórico. “O objetivo principal do bloco Crocodilo, ao entrar na justiça, foi chamar a atenção para o apagamento histórico que vem acontecendo com a entidade, com as mulheres e com os pretos da cidade de Salvador. A mesma coisa aconteceu com o afro Filhos de Gandhy que perdeu o lugar na fila. Esse ano ainda, as entidades de blocos tentaram junto a SSP a criação de portais de acesso aos circuitos exclusivos para quem estivesse de abadá. O Bloco Crocodilo discordou do pedido, que considerou segregador e elitista. Felizmente a secretaria de segurança pública não atendeu ao pedido. O princípio de exclusão é o mesmo que mulheres e pretos sofrem no carnaval de Salvador. Temos uma festa que tem mulheres poderosas em destaque, como Daniela, Ivete, Margareth e não temos nenhum circuito homenageando nenhuma mulher. Só os homens têm destaque e reconhecimento. É preciso mudar e essa discussão chama a atenção para isso. Espero que provoquemos reflexões nas autoridades, em quem organiza o carnaval e também com o grande público”, concluiu.
A diretoria do Bloco Crocodilo aguarda agora a análise do mérito do recurso pelo Tribunal.
Assista abaixo à transmissão ao vivo do Carnaval de Salvador neste sábado (14):
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