Com a saída do primeiro vocalista da Scambo, Walter Abreu, em 1999, veio o convite para um teste. Até então, como ele mesmo diz, só tinha soltado a voz debaixo do chuveiro, e em espetáculos de teatro - alguns musicais -, nos cinco anos em que atuou como ator profissional. E foi durante a sua primeira apresentação à frente da banda, cantando uma versão rock reggae de Tigresa, clássico de Caetano Veloso, de olhos fechados, tamanha a timidez, que Pedro Pondé se descobriu como cantor. Tinha 20 anos e o ano era 2000. “Estava completamente tímido. Quando abri os olhos e vi que a galera estava cantando, curtindo, tive a certeza. Hoje, se não cantar, eu morro. Preciso do palco. É onde posso gritar sem parecer louco”, afirma Pondé, 32, de volta aos vocais da Scambo. O artista - dono de reconhecido carisma ao vivo - e o seu grupo alcançaram grande prestígio entre o público alternativo da capital baiana, até meados da década passada, com uma sonoridade pop rock carregada de elementos do reggae. No período de quase quatro anos em que ficou afastado da Scambo, Pondé formou uma nova banda - O Círculo - e se lançou em projetos paralelos. Para falar dessa nova fase, ele recebeu o CORREIO no apartamento de dois quartos (um virou estúdio), onde mora, em Amaralina. QuentinhasDurante o encontro, em uma conversa franca e aberta que durou duas horas, o vocalista contou um pouco de sua trajetória, da família, dos motivos que o levaram a romper com a Scambo, em 2006, da formação e do sucesso com O Círculo (onde ficou até 2009), e do seu retorno à banda de origem, no final de 2010, para alegria de um público fiel. Sentado no sofá da sala com as pernas cruzadas, vestindo apenas bermuda, Pedro Pondé almoçava. Passava das 15h. Comia feijão, arroz e peixe feitos por ele: “Gosto de cozinhar. Não gosto de lavar prato”, revela. A experiência na cozinha, diz, é um legado da mãe, cozinheira de mão cheia que “fazia de tudo, todos os pratos”. Durante um bom tempo, a família tirou o sustento com a venda de quentinhas que ele mesmo se encarregva de entregar, de bicicleta, entre endereços na Pituba e no Rio Vermelho. Uma prancha de surfe empoeirada e encostada no canto da sala não deixa dúvidas de que ela está ali há muito tempo. “Tem mais poeira que parafina”, não nega. “Mas quero votar a surfar, para deixar de fumar. Na água não dá para fumar”, emenda. Nas paredes, grafites, fotos, desenhos e declarações feitas por ele próprio, por amigos e pela filha, Elis, 10, fruto de um namoro que durou três anos. O nome é em homenagem à cantora Elis Regina (1945-1982). “Ali no canto ela escreveu: ‘Pai, eu te amo’. Elis me devolveu o olhar para as coisas simples da vida”, conta. Na estante, livros de pensadores como Nietzsche, Descartes e Voltaire, além de uma coleção com obras do escritor gaúcho Érico Veríssimo. Que ninguém se engane, no entanto, em achar que vida de cantor de rock’n’roll é um mar de rosas. A do próprio Pondé nunca foi. A mãe, ele perdeu há quatro anos, vítima de um ataque cardíaco fulminante, aos 44. Um detalhe curioso: a mãe do cantor foi sequestrada aos 5 anos e só reencontrou a mãe biológica (avó de Pondé) quase 40 anos depois, pouco antes de morrer. Dores familiares O pai, o jornalista Edístio Pondé, foi morto com 11 tiros quando ele ainda era um garoto de 11 anos, e o crime, até hoje não elucidado, suspeita-se que tenha ligação política. Recém-separado de uma união de oito anos, Pedro Pondé admite que ainda sente a dor. Mas o que mais o aflige mesmo, e isso ele não esconde, é o fato de a mãe ter morrido estando brigada com ele. “Eu estava morando no quarto de um zelador, num prédio na Pituba. Um lugar infestado de escorpiões. E ela não aceitava isso. Mas eu dizia que queria minha independência e que tínhamos de nos separar”, diz. O lugar ele só deixou três meses depois, ao encontrar um rato dentro da privada. Social Pensador, idealista e preocupado com o social, Pedro Pondé faz várias críticas às relações de trabalho e consumo vigentes, e assume ser um “consciente chato”. Durante a greve da PM baiana, em fevereiro, chegou a passar noites em claro na frente da Assembleia Legislativa, no Centro Administrativo da Bahia, acompanhando o desenrolar da situação e as negociações entre o governo e os manifestantes. Ele também abraçou a causa pela permanência da comunidade quilombola Rio dos Macacos, na Base Naval, ameaçada de despejo pela Marinha do Brasil. Por mais de uma vez, o cantor recusou convites para participar de campanhas publicitárias, por não acreditar na marca, produto ou serviço anunciados. “Quero fazer coisas mais nobres com a minha vida”, argumenta.
ScamboQuanto à polêmica saída da Scambo, em 2006, Pedro Pondé alega que a forte pressão exercida por empresários e agentes e as constantes divergências entre a banda o fizeram dizer não ao mercado. “Não vou me transformar no que não sou para ganhar dinheiro. Assim também como não canto em inglês porque não falo inglês”. Segundo o vocalista, nem mesmo os sinais de que deixaria o grupo eram encarados de frente. O anúncio definitivo de sua saída, feito na página da rede social Orkut, estremeceu tudo. “Reconheço que não foi o melhor a ser feito. Era o auge do Orkut. Aquilo tomou outras proporções. Achava que nunca mais voltaríamos a nos falar”, lembra. A partir daí, Pedro Pondé, juntamente com dois colegas de Scambo, o baixista Júnior Martins e o tecladista Israel Jabar, formaram O Círculo. Pelos três anos seguintes, a banda alcançou grande prestígio na cena alternativa musical de Salvador. “No Círculo, eu dirigia muito mais. Estava pronto, na minha cabeça. Fizemos músicas sensacionais, como A Janela, criação minha com o baterista Daniel Ragoni”, afirma. Mas Pedro Pondé resolveu deixar O Círculo e retornar à Scambo, num processo que contou com a ajuda do produtor da banda, e amigo de longa data, Fernando Maia. Ainda de acordo com o cantor, foi Maia quem convenceu, um a um, a voltar a se falar. “Quando vimos, estávamos ensaiando”, encerra.
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| De volta ao Scambo, Pedro Pondé fala sobre música e perdas em entrevista |
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