Estranho mundo dos 'coments' é cheio de insultos, intolerância


No Paquistão, um artista de rua saca a lâmina do bolso e, literalmente, faz a barba de um macaco. Um fotógrafo qualquer flagra a cena inusitada e o fato vira notícia em todo o mundo. “Homem apara barba de macaco em show de truques”.

No Brasil, alguém que assina como “Pedro Maciel” escreve um comentário abaixo da notícia, publicada no site globo.com: “Cadê o IBAMA nesta hora que não aparece? Me pergunto o que eles fazem da vida”.

A internet certamente seria um ambiente melhor, e até mais divertido, se os comentários de leitores fossem apenas assim: sem noção. Acontece que os espaços reservados para os “coments”, muito frequentados por gente “com um parafuso a menos” – como afirmou Caetano Veloso -, vai além das opiniões vazias.

O submundo dos rodapés de notícias e dos comentários nas redes sociais é muito mais sujo e insensato do que se imagina. Gente sem rosto, endereço, telefone e escondida sob pseudônimos destila homofobia, racismo, machismo e tudo quanto é tipo de preconceito. Nos últimos dias, vasculhamos sites locais e encontramos centenas de insultos no espaço que deveria ser das opiniões.

Semana passada, uma manchete repercutiu nas páginas de jornais online: “Mulher acusa jogadores do Vitória de estupro”. Não faltaram agressões à suposta vítima e justificativas ao crime. “Ela estava querendo receber o rojão e depois posar de coitadinha”, escreveu “Luiz Melodia” no site do CORREIO. “O que uma mulher dessa esperava entrando em um quarto de hotel de madrugada só com homens?”, perguntou “Oliver”. “Quem procura, acha!”, completou “Maria Nazaré”. Esta semana, a polícia descartou o estupro.

Não há pesquisa, mas uma boa porcentagem dos comentários na Web é agressiva. Seus autores parecem cães raivosos a babar na frente do computador. “Homem atira em motorista de ônibus após briga de trânsito”, foi a notícia em Salvador.

Na verdade, o ônibus caiu em uma poça de lama na Bonocô e sujou o carro do atirador, que perseguiu o coletivo até a entrada do Imbuí, desceu do veículo e disparou dois tiros. Ainda assim, muitos condenaram o motorista de ônibus. “Deveria ter atirado na cara, eles acham que são os donos da rua”, julgou sumariamente um leitor, que ainda assinou como “Bem Feito”.

Xingamentos e erros de português também são comuns. Mas, comentários que envolvem futebol e matérias sobre minorias chegam a assustar. Os dois juntos têm, às vezes. “Acabamos de excluir um comentária racista contra o jogador Feijão, do Bahia. Moderamos o que podemos”, diz Wladmir Lima, editor do site Correio24horas.
 
Quando a notícia é sobre política, a baixaria corre solta. “Já está provado que grupos são pagos pelos partidos para atacar adversários”, revela o advogado Thiago Tavares, da ONG Safernet, especializada em crimes cibernéticos.

Perseguição
Os comentários de internet são território de perseguição ao universo LGBT, por exemplo. “Sobrinha de 6 anos da ex-vereadora Léo Kret é morta”, informaram as páginas online. “Elenilson34” alimentou o preconceito. “Olha a classe das pessoas envolvidas. Depois a população reclama…”. “Pietro Landovski” lamenta, mas não a morte da menina. “Lamento por quem escreveu ‘EX-VEREADORA’. Travesti NÃO é mulher!”.

No estranho mundo dos comentários de internet há os que acham que tudo é culpa dos políticos. Especialmente Dilma, Lula ou qualquer integrante do PT. O blog Tudo é Culpa dos Petralhas foi criado para ironizar isso, destacando comentários esdrúxulos. “Rússia desiste de buscar meteorito que deixou mil feridos”. “Brasilino” não perdoou: “Esse meteorito aí é coisa do Lula”.

Há também comentários padrões. “Acorda Brasil” é campeão, ainda que a notícia seja sobre a migração de pinguins na Patagônia. Aliás, coitado de Gregório de Mattos. Pode-se publicar nota sobre o atropelo de um pombo na Praça da Sé e alguém sempre vai criticar: “Triste Bahia!”.

Não se engane. Os que escrevem esses comentários estão por aí, cruzando com você nas ruas. Ainda bem que bons exemplos existem. Não faltam sites, blogs e grupos nas redes sociais que alimentam discussões sadias. Por isso, não há como negar a importância dos espaços de opinião. Pena que eles são links esquecidos. Quando não há opinião, a sensação é que ninguém leu. Então, se você está na versão online desse texto, pode começar o ataque aí embaixo.

Artistas bradam contra ‘coments’

Nos palcos e nas ruas, eles são aplaudidos e recebem pedidos de autógrafos. Mas, ao ler cometários sobre seus trabalhos em sites, alguns artistas se surpreendem. “É o paraíso dos covardes”, bradou a atriz Maitê Proença, em entrevista sobre a divulgação do seu livro na Web. “Quando estou excessivamente confiante na humanidade, leio os comentários dos jornais”, completou, ao lado de Maitê, o escritor angolano José Eduardo Agualusa.

Atacado ao postar foto com uma máscara black bloc, Caetano Veloso chamou todo mundo de doido. “O espaço para coments é, em geral, um paraíso para os que têm parafusos a menos”, escreveu na Folha. Apesar de surpreso, Chico Buarque leva na graça, como mostra vídeo na Web. “A primeira vez fiquei espantadíssimo. O primeiro comentário que li dizia: ‘Esse velho! O que o álcool não faz com as pessoas’”, narra Chico, entre gargalhadas.

Impunidade na internet é mito

Especialista em Direito Cibernético, o advogado Thiago Tavares, da ONG Safernet, afirma que os comentários na internet representam um prejuízo à democracia. “Eles enfraquecem o debate qualificado. O cidadão comum não entra nessa selva”, afirma. Ele defende que os sites devem ser responsabilizados e que é um mito acreditar que esses espaços são terra sem lei.

Muitos já foram punidos, lembra, como a estudante Mayara Petruso, condenada pelo crime de discriminação por insultar nordestinos. “Os sites têm que moderar esse conteúdo. Uma agressão pode ser enquadrada como injúria. Ainda que seja um comentário anônimo, o autor pode ser identificado pelo número IP (Internet Protocol) do computador”. Semana passada, o Facebook quase é obrigado pela Justiça a sair do ar por conta de um comentário ofensivo publicado na página da modelo Luize Altenhofen.  

‘Quanto maior o anonimato, mais agressividade’, diz professor da Ufba

Pesquisador na área de Comunicação, Política e Democracia Digital, o doutor em Filosofia e professor da Faculdade de Comunicação da Ufba Wilson Gomes diz que o anonimato é o principal responsável pelo surgimento da legião de agressores gratuitos na internet.
  
Por que esse ambiente é tão sombrio?
Desde o final dos anos 1980 há autores impressionados com o nível das discussões na internet. Notou-se que elas eram mais agressivas e mais selvagens que as discussões face a face. Razão disso: o anonimato da rede. Parece que as pessoas se controlam mais quando há um custo para a sua imagem e reputação. Entre fóruns, chats, comentários de blogs, sites de redes sociais e comentários nos jornais online, um fenômeno parece consistente: quanto mais anonimato, mais há a tentação da agressividade.
 
São um bando de malucos ou esses ‘coments’ refletem nossos preconceitos? 
Os comentários dos rodapés dos jornais online são um boa amostra do que há de mais sombrio nos nossos conceitos e valores. Uma parte considerável deles é preconceituosa e cheia de ódio. No caso dos comentários do jornalismo online, o cara deixa lá registrada a sua fúria e se manda. Ainda mais quando não há moderação.

Essas pessoas deveriam ser punidas?
Uma das razões pelas quais as pessoas se sentem à vontade para dizer coisas horrendas online, na minha hipótese, é a falta de sanção real. Numa mesa de bar, se eu fizer um comentário racista, recebo de volta uma quota considerável de desaprovação. Num rodapé de jornal, posso bater e nada acontece. Quando o site não permite anonimato, a opinião feroz incorre em punições, sim. Veja o caso de Mayara Petruso, em 2010. As pessoas pensam que estão entre amigos e, como os seus seguidores têm ideias muito parecidas, postam conteúdos preconceituosos. Só que conteúdos digitais circulam para além das redes de cada um. Mas isso acontece apenas com a opinião preconceituosa e em situações onde não há anonimato.