'Responsabilizar o Estado'

Caso George Floyd: Após 2 anos, policiais seguem sem julgamento e movimentos antirracistas ainda lutam por reforma nas polícias

Dos 4 envolvidos, apenas 1 teve pena decretada: o policial Derek Chauvin, que sufocou a vítima com joelho por mais de 9 minutos. Em entrevista ao iBahia, representante do grupo Iniciativa Negra repercute cenário atual

Alan Oliveira
25/05/2022 às 6h00

6 min de leitura
George Floyd morreu após ser sufocado em uma ação policial nos EUA em 2020 – Foto: Reprodução

A morte do norte-americano George Floyd – homem negro que foi sufocado durante uma ação policial nos Estados Unidos em 2020 – completa dois anos nesta quarta-feira (25). Após esse tempo, três dos quatro policiais envolvidos no crime seguem sem julgamento, enquanto os movimentos antirracistas ainda lutam pela reforma das polícias – uma pauta antiga que ganhou ainda mais força após o caso.

Desde o crime, centenas de protestos foram realizados não só nos Estados Unidos, mas também no mundo, incluindo o Brasil. Para além da condenação dos policiais envolvidos no caso e em outras situações motivadas por racismo, os grupos pedem mudanças no local de onde partem as ordens, responsabilizando também o Estado pelas ações.

Em entrevista ao iBahia, o especialista em gestão estratégica de políticas públicas Dudu Ribeiro, que é co-fundador e coordenador executivo do grupo Iniciativa Negra – uma organização que atua pela justiça racial e econômica no Brasil e no mundo -, cita a importância de se pensar em um novo modelo de segurança pública voltado para ações sem violência racial, com iniciativas que partiriam do comando.

“É fundamental que não haja apenas a responsabilização individual pelo fato, mas, na verdade, pensar a responsabilização do Estado, pela organização de um modelo de segurança pública baseado na violência racial. É fundamental que isso seja revisto, seja responsabilizado, que se crie políticas de preservação da memória e de não repetição. E, junto a isso, impulsionar processo de mudança do modelo de segurança pública”, disse.

Dudu Ribeiro é co-fundador e coordenador do Iniciativa Negra – Foto: Divulgação/Iniciativa Negra

Para Dudu Ribeiro, esse é só um dos muitos pontos levantados após a morte de Floyd. “Alguns caminhos importantes começaram a ser disparados a partir do assassinato de George Floyd, principalmente no que toca o tema da reforma das polícias. Vários estados nos Estados Unidos da America (EUA) começaram a discutir o tema da reforma das polícias, do treinamento das polícias e da abordagem policial, a partir da perspectiva da violência racial. Esse é um tema fundamental, que também foi impulsionado pelas organizações negras brasileiras nas suas ações de rua, em apoio ao movimento internacional”, contou.

“O outro movimento importante foi o impacto dentro das empresas que o ‘Vidas Negras Importam’ conseguiu fazer, de colocar o tema de combate ao racismo pra circular dentro das empresas na formação, mas também na busca por superação da desigualdade de participação de pessoas negras nos cargos de direção”, continuou.

Nesta quarta-feira, a Iniciativa Negra se une a diversos grupos que lutam contra o racismo em todo o mundo para, em atos na internet e nas ruas, lembrar os dois anos da morte de George Floyd, homenagear o norte-americano e pedir celeridade no processo de julgamento do caso.

J. Alexander Kueng, Thomas Lane e Tou Thao – Foto: Reprodução

Na última semana, o ex-policial Thomas Lane, que é um dos três que assistiram ao colega Derek Chauvin matar George Floyd, se declarou culpado de auxílio em homicídio. Com isso, ele evitou um julgamento pela acusação mais séria de ter favorecido homicídio de segundo grau, e concordou com uma sentença de três anos na prisão. Uma audiência de sentença ainda não foi marcada.

Já os outros dois policiais, que também assistiram à ação, só devem ir a julgamento em junho deste ano. Eles foram declarados culpados de mostrar “indiferença deliberada” às necessidades de Floyd e de não impedir o colega de usar de “força irracional” contra a vítima. Lane não é acusado de não tentar impedir o colega porque sugeriu colocar Floyd de lado durante a ação policial.

No início do mês, o ex-policial responsável pela morte de Floyd fez um acordo judicial e vai pegar uma pena de 20 a 25 anos de cadeia por violar os direitos civis da vítima. A condenação é pela Justiça Federal dos Estados Unidos.

Além dessa condenação, Chauvin ainda tem uma segunda, por homicídio, pela Justiça do estado de Minneapolis, onde o crime aconteceu. Por essa pena, ele foi condenado pelo Júri a 22 anos de prisão. As duas podem ser cumpridas ao mesmo tempo.

Caso

Derek Chauvin é o policial que sufocou Floyd – Foto: Reprodução/Redes sociais

No dia do crime, segundo as apurações, enquanto Chauvin mantinha o joelho no pescoço de Floyd, sufocando-o, Alexander Kueng pressionava as costas da vítima, Lane segurava as duas pernas e Thao impedia a aproximação das pessoas.

Tudo começou depois que os policiais foram chamados por um comerciante que suspeitava que Floyd o havia pago com uma nota falsa de US$ 20. O caso aconteceu em 25 de maio de 2020, em uma loja de conveniência de Minneapolis.

George Floyd estava dentro do carro dele, quando os policiais chegaram e um deles o algemou. Depois, ao ser levado para uma viatura, ele caiu e foi imobilizado no chão pelos outros dois policiais – momento em que Chauvin se ajoelhou no pescoço da vítima.

Ao longo dos mais de 9 minutos em que ficou imobilizado, Floyd avisou que estava sem ar, mas o ex-policial não saiu de cima dele até que ele desmaiou. Depois disso, uma ambulância foi acionada e a morte de Floyd declarada pelos atendentes.

Na época, o vídeo da ação policial se espalhou na internet e acabou desencadeando as manifestações contra o racismo e a violência da polícia que seguem até os dias atuais. As imagens foram gravadas por uma adolescente, que acabou testemunha do caso no tribunal.

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