A rotina de calmaria e trabalho na praia de São Tomé de Paripe, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, deu lugar a um cenário de desolação e incerteza. Há mais de dois meses, centenas de famílias que dependem diretamente do mar e do fluxo de banhistas enfrentam uma paralisia econômica forçada. O motivo é uma contaminação química que coloriu a areia e a água com tons anômalos de amarelo e azul em fevereiro, deixando um rastro de animais mortos e um medo persistente na comunidade.

Desde que as manchas surgiram, o impacto no cotidiano das cerca de 600 famílias locais foi imediato, segundo divulgou o g1. O risco à saúde afastou os turistas e comprometeu a segurança alimentar de quem vive da pesca.
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Lideranças comunitárias denunciam que, apesar de os órgãos públicos terem sido acionados logo no início da crise, as respostas dadas até agora são insuficientes para mitigar o sofrimento de quem perdeu sua única fonte de sustento.
Pescadores recorrem à reciclagem para sobreviver
O presidente da Associação de Pescadores e Marisqueiras do Subúrbio, Reinaldo Jorge Cirne, descreveu um quadro de vulnerabilidade extrema para os cerca de 1.200 profissionais da entidade. Sem poder lançar as redes em águas familiares, muitos trabalhadores estão sendo empurrados para a informalidade total e para atividades degradantes. "Esse produto tóxico acaba com tudo, alguns pescadores estão catando lata, papelão, fazendo reciclagem para sobreviver", detalhou Reinaldo Jorge ao g1.

A crise de confiança também atingiu o mercado consumidor: mesmo os pescadores que buscam outros pontos da costa para trabalhar enfrentam resistência na Feira de Paripe, onde a população, temerosa, evita comprar qualquer pescado vindo da região.
"A gente não tem um apoio governamental. Como representante, fico às vezes com os olhos cheios de água de ver os pescadores chegarem lá [na associação] dizendo que pegaram o peixe até em outro local para tentar vender na feira de Paripe, que é próxima [daqui], e o pessoal não acredita", desabafa o representante da categoria.
Impacto no turismo e comércio local
A crise não escolhe vítimas entre os trabalhadores da areia. Luiz Carlos Gonçalves Campos, líder comunitário na região, ressalta que o setor de serviços e lazer foi duramente golpeado. Barraqueiros, ambulantes e permissionários viram o movimento de turistas desaparecer após as notícias da contaminação. Sem clientes, o comércio tradicional das faixas de areia definhou.

"A praia em si já não tem movimento nenhum. O pessoal vinha, vendia seu salgado, seu peixe, sua cerveja, seu queijinho. Essas pessoas, sim, estão totalmente sem nenhum recurso", denuncia Campos. Para tentar garantir a sobrevivência mínima, a própria comunidade tem se organizado para realizar pequenos eventos em largos do bairro, tentando gerar algum giro financeiro para os comerciantes locais.
"Nós já fizemos duas festas, porque [com elas] os comerciantes já conseguem ganhar seu dinheirinho, vender sua cerveja, um tira-gosto", exemplifica o líder comunitário sobre o esforço de autogestão da vizinhança diante do abandono.
Impasse das responsabilidades
No campo das responsabilidades, o laudo do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) identificou a presença de Nitrato ($NO_3$) e Cobre ($Cu$). A investigação aponta que o problema está ligado à estocagem de granéis sólidos no Terminal Itapuã, operado pela Intermarítima, que está interditado desde março. No entanto, o jogo de empurra entre as empresas dificulta a reparação dos danos.
A Intermarítima nega movimentar as substâncias encontradas e aponta para a Gerdau, antiga gestora do terminal. Por outro lado, a Gerdau afirma que vendeu a estrutura em 2022 e que as análises não conectam a empresa à origem da contaminação. Enquanto o embate jurídico se desenrola, o diretor-geral do Inema, Eduardo Topázio, afirma que o material contaminante é antigo e estava acumulado sem o devido cuidado ou remediação da área.
Cobrança por ações efetivas do poder público
A assistência governamental é alvo de críticas pesadas. A última ação direta mencionada pelos moradores foi em 8 de abril, com a entrega de cestas básicas pela prefeitura. Reinaldo Jorge questiona a lentidão na divulgação de um laudo definitivo que aponte culpados e direcione ações de limpeza. "Foi uma vez só e olha há quanto tempo. E o pior não é isso: por que que não se sai o laudo técnico do Inema? Que até o Ministério Público vem ajudando no pedido", enfatiza.
No âmbito da saúde, o alerta permanece ligado. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) monitora casos de intoxicação e orienta que a população evite o banho de mar e o consumo de pescados da área. Os riscos incluem irritações graves na pele e problemas gastrointestinais. Embora a Secretaria de Saúde do Estado (Sesab) afirme que não houve internamentos, o receio da população é sustentado pela falta de uma sinalização mais robusta e de uma interdição oficial e efetiva da praia.
Enquanto as polícias Civil e Federal conduzem inquéritos sem previsão de conclusão, as famílias de São Tomé de Paripe seguem em um limbo social e econômico. Entre a areia contaminada e a falta de respostas, a comunidade luta para não ser esquecida em meio aos resíduos químicos que paralisaram suas vidas.
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