Preta Bahia

Conheça Val Benvindo, uma das herdeiras do 1º bloco afro do Brasil e que teve na família as referências de resistência e orgulho negros

Criada no bairro do Curuzu, berço do Ilê Aiyê, a jornalista, que hoje também inspira outros jovens, ressalta o quanto o processo foi importante para sua formação

Alan Oliveira
25/06/2022 às 8h00

6 min de leitura
Foto: Arquivo Pessoal

Ter sido criada no bairro do Curuzu, em Salvador, berço do primeiro bloco afro do Brasil, o Ilê Aiyê, fez da jornalista Val Benvindo a mulher que é hoje. A baiana encontrou em casa as referências de resistência e orgulho negros, diante da convivência com a família, que fundou a entidade em 1974.

Aos 31, quase 32 anos, Val conta que, apesar do racismo ainda presente na sociedade, nunca sentiu vergonha da sua cor, e que teve a sua autoestima criada a partir da consciência da beleza negra e da importância da representatividade para a sua vida.

“Ter sido criada no Curuzu… e aí, obviamente, preciso falar da criação do Ilê naquela localidade… fez ser exatamente quem eu sou. Olhar as pessoas parecidas comigo, perceber o quanto a criação e ter o Ilê ali na localidade foi importante para a autoestima de tantas pessoas, inclusive a minha”, contou Val, que integra nesta semana o especial Preta Bahia, do iBahia.

Val Benvindo ainda criança, ao lado da família, no Ilê | Foto: Arquivo Pessoal

De acordo com a jornalista, foi assim durante seu crescimento e formação, assim como até hoje. Val conta que sempre foi incentivada a se reconhecer e valorizar enquanto mulher negra.

“Eu fui uma criança que eu cresci ouvindo uma música do Ilê que fala assim: ‘Eu, criolo bonito que nem eu, só eu. Se você quiser saber porque, eu sou um componente do Ilê’. E tantas outras músicas que falavam sobre a beleza da mulher negra, o cabelo da mulher negra, a beleza do amor preto”, disso Val.

Desse exemplo, surgiu o desejo por ser jornalista aos 11 anos, durante os ataques de 11 de setembro, nos Estados Unidos. Com base em tudo que aprendeu da família, Val se identificou com a repórter Zileide Silva, que na época era correspondente da TV Globo em Nova York, ao assisti-la falando sobre a tragédia.

Foto: Arquivo Pessoal

“Eu olhei pra Zileide Silva, assim, ver uma mulher preta naquele lugar, e eu pensei: ‘Eu quero ser isso’. E eu lembro, de olho aberto, não precisa nem fechar o olho, onde eu estava, o que eu estava assistindo… ‘Eu quero fazer o que essa mulher faz'”, lembrou.

E a influência de casa foi levada ainda para a vida acadêmica, na escolha do tema do seu trabalho de conclusão de curso, em 2016. Mais uma vez, o Ilê Aiyê estava presente na vida da jornalista em formação.

Em um documentário, Val apresentou para a instituição de ensino, em um auditório lotado de familiares e amigos, a importância do bloco para a vida das pessoas que vivem no Curuzu, com direito um show da banda.

Hoje, Val Benvindo busca, por meio do seu trabalho, passar todos esses instrumentos de luta para outros jovens, que se inspiram nela.

Além de mulher negra, jornalista e apresentadora, a baiana faz questão de se autoafirmar integrante do candomblé (herança da avó, Mãe Hilda Jitolú – uma das principais lideranças religiosas da Bahia e mentora do Ilê) e bissexual. Pautas que são inseridas na luta diária contra o preconceito.

Foto: Arquivo Pessoal

“Infelizmente é 2022, mas a gente ainda está discutindo isso… então, a gente precisa gritar e bradar, fazer barulho mesmo, falar sobre transfobia, sobre racismo, sobre homofobia. É necessário que a gente fale sobre isso. As pessoas precisam entender que é crime. Mas eu acho que, sobretudo, a gente precisa ir trabalhando isso nas escolas, com as crianças. Eu realmente acho que a educação é o caminho”, falou Val.

A baiana vê ainda na forma como as coisas são ditas e tratadas a possibilidade de se melhorar a questão. “A gente precisa tratar as coisas naturais, de forma natural. Se eu converso sobre a economia do país na mesa de domingo, do almoço familiar, eu vou conversar sobre questões de sexualidade, de gênero. A gente precisa dar o tom que as coisas tem. Se são naturais, a gente fala de forma natural”.

Val e os pais | Foto: Arquivo Pessoal

Durante a conversa com o iBahia, a jornalista relembrou como foi contar sobre sua sexualidade para o pai, Vivaldo Benvindo, que é diretor do Ilê. Val conta que ficou emocionada com a reação e que isso a marcou muito.

“Ele fez assim: ‘Isso não é um problema pra mim. Eu já não sou a pessoa que eu era anos atrás’. Meu pai reconhecer que, em algum momento, isso poderia ter sido um problema pra ele, mas que, naquele momento, já não era, pra mim foi muito importante. Porque ele poderia ter fingido pra mim. Porque a gente sabe que a gente vai mudando ao longo do tempo”, disse a jornalista.

Diante de tudo que viveu e conviveu ao longo dos anos e de quem se tornou, Val diz sentir orgulho.

Foto: Arquivo Pessoal

“Claro que a gente sempre pode ser mais. Eu acho que eu tenho muita coisa pra fazer ainda. Eu acho que eu tenho muito mais a conquistar e muito a melhorar. Mas eu me orgulho muito. Eu olho pra minha trajetória e é engraçado pensar isso, porque até pouco tempo atrás eu fazia assim: ‘Mas eu sou apenas uma menina de 20 anos’. E agora eu já tenho [quase] 32. Trinta e dois anos são 32 anos”.

A jornalista ressaltou também a importância de não desistir dos sonhos e deixou um recado. “Não é fácil. Às vezes a gente vai precisar abdicar do nosso sonho. Às vezes está muito perto e a gente olha e diz assim: ‘Mas eu podia fazer isso’. Mas aí escolhem uma pessoa muito diferente da gente. E aí a gente chora, a gente fica mal, e a gente vai ter que se afastar do que a gente ama, do que a gente quer, porque os boletos não param de chegar. Mas eu acho que, se você puder, se tiver como, não desista. Seja firme. Talvez você pegue um outro caminho e lá na frente você vai encontrar uma estrada pro seu sonho. Pra gente, que é preto nesse país, a dificuldade sempre vem”.

Foto: Arquivo Pessoal

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