Preta Bahia

‘Jamais imaginei que seria espelho para crianças’, conta Jaqueline Goes dois anos após nome se tornar referência na pesquisa da Covid-19

Cientista integrou equipe que mapeou os primeiros genomas do novo coronavírus no Brasil. Agora, além de pesquisadora, se tornou símbolo de representatividade

Alan Oliveira
23/07/2022 às 8h00

7 min de leitura
Foto: Reprodução/Instagram

Quando Jaqueline Goes era criança e morava em Salvador, na região da Avenida Vasco da Gama, uma das áreas centrais da cidade, ela ainda não tinha planos de se formar cientista, nem nunca imaginou que acabaria sendo referência na área em que atua hoje e para outras pessoas.

No entanto, desde que seu nome ganhou repercussão nacional e internacionalmente ao integrar a equipe que mapeou os primeiros genomas do novo coronavírus no Brasil, a pesquisadora baiana se tornou símbolo de representatividade entre crianças, jovens e até adultos.

Vinda de uma família simples, a cientista conta que chegou a brincar na infância de ser famosa e imaginava como seria, mas não sabia que um dia iria ser requisitada para fotos, e nem parada para agradecimentos e elogios quando crescesse. De dois anos para cá, até boneca ela virou.

“Jamais imaginei que eu seria um símbolo de representatividade, que isso se tornaria um espelho para outras meninas e meninos negros, e em situação econômica desfavorável… que isso seria um espelho para essas crianças, para esses adolescentes, esses jovens… e até para adultos”, disse Jaqueline.

Nesta semana, a cientista integra o especial Preta Bahia, do iBahia. Em entrevista ao portal, Jaqueline contou um pouco mais dessa experiência e revelou que chegou a pensar que não conseguiria lidar com toda a notoriedade.

“Por um momento eu cheguei a pensar: ‘Eu acho que eu não aguento isso tudo. Muita exposição. É tudo muito em cima de mim’. Hoje eu já consigo lidar melhor. Mas, naquela época, foi um choque de realidade e uma série de outras coisas”, contou.

Ainda segundo Jaqueline Goes, parte desse estranhamento vem também do preconceito que viveu ao longo da vida, enquanto mulher negra, e, principalmente, ao se tornar uma pesquisadora, em um meio acadêmico ainda muito racista e classicista.

“Eu sempre enfrentei racismo estrutural nos ambientes onde frequentei, porque eram ambientes majoritariamente brancos. Eu só vim entender isso agora, de 4 ou 5 anos para cá, quando eu comecei a entender, a ter letramento racial. Naquela época, eu só seguia, tentava ultrapassar aquela forma de tratamento e não me importar muito, mas hoje eu sei que aquilo ali tudo era racismo. Um racismo estrutural”.

Foto: Reprodução/Instagram

A cientista explica que nunca era vista de imediato como uma formadora de conhecimento e que já teve problemas com isso. Na época, ela só não sabia identificar.

“De comentários sobre o cabelo, de confusão entre o meu papel ali. A primeira leitura que se fazia de mim nunca era uma leitura de uma estudante de pós-graduação, de uma mestranda, de uma doutoranda. E hoje eu vejo que isso reflete muito na vida de outros brasileiros, na grande maioria”.

Hoje, Jaqueline usa a visibilidade que ganhou para tratar sobre o assunto e incentivar outros jovens a viver seus sonhos e não desistir de ter uma vida melhor.

“Eu costumo dizer que para nós, pessoas pretas, é tudo muito mais difícil. Por mais qualificados que sejamos, é muito mais difícil, porque a estrutura nos empurra sempre para baixo. E o que mudou a minha vida foi eu ter entendido em algum momento que eu precisava agarrar todas as oportunidades que me vinham à mão”, disse.

E a pesquisadora continua: “A mensagem que eu sempre deixo para as pessoas é, primeiro, que elas não desistam do sonho. Eu não tinha o sonho de ser cientista, mas eu tinha o sonho de ser uma grande profissional, independente da área que eu viesse a exercer, e eu não desisti disso. Então, é não desistir dos sonhos e correr atrás de todas as oportunidades. Mostrar que temos potencial. Do povo preto vem muita intelectualidade. Do povo preto vem muita habilidade. A sociedade só não entendeu isso ainda”.

Referência

Formada no ano 2012 em Salvador como biomédica, Jaqueline seguiu com os estudos com mestrado, doutorado e pós-doutorado, e atualmente mora em São Paulo.

Foi assim que ela se tornou uma das cientistas mais experientes no método que foi usado para mapear o genoma do novo coronavírus em 2020, e, por isso, foi requisitada.

A baiana conta que estava de férias na capital, onde os pais e o irmão ainda moram, quando recebeu mensagens da também pesquisadora Ester Sabino.

Ainda era janeiro. Na época, a Covid-19 ainda não havia se manifestado no país, mas já havia essa possibilidade e começaram a ser articuladas maneiras de se trabalhar para identificar com o que, até então, era uma possibilidade.

“Quando eu retornei [para São Paulo], a gente já começou a se articular para ter o laboratório pronto para a possível chegada do vírus. Então, isso envolvia a compra de novos reagentes; treinamento da equipe, que nunca tinha trabalhado com vírus respiratório; e isso exigia certos fluxos no laboratório, como a utilização de equipamentos de proteção individual, que a gente não estava acostumado, porque a gente sempre trabalhou com amostras de sangue e arbovírus, que não se transmite sem a presença do mosquito vetor”, revelou.

Jaqueline conta também que inicialmente não acreditava que o vírus fosse realmente chegar ao país. “Eu, particularmente não acreditava. Falava: “Imagina que isso vai chegar no Brasil’. E não era. Não era uma preocupação exacerbada. Na realidade, ela [Ester] estava prevendo o que de fato aconteceu”, falou.

Foto: Reprodução/Redes Sociais

Mas ele chegou. E foi na terça-feira de carnaval. A pesquisadora lembra que havia se planejado para ficar em casa no feriado, cuidando da cadelinha que cria, porque ela passaria por uma cirurgia, mas acabou precisando mudar os planos.

“Eu fui na terça-feira mesmo. Nós começamos no final da tarde. Era 16h. Foi quando a gente recebeu a confirmação do setor de virologia, que, de fato, o PCR tinha dado positivo. E aí, então, a gente começou a fazer o processo de sequenciamento”, lembra a cientista.

O processo de identificação levaria 24h, mas o primeiro resultado não apresentou dados conclusivos o suficiente, e por isso, foi preciso repetir. No final, em 48h, o serviço já havia sido concluído, e o genoma não só havia sido mapeado, como também analisado pela equipe.

“A gente queria entregar o genoma com maior qualidade possível, e aí fizemos uma nova rodada. E foi nessa nova rodada que a gente conseguiu 97%, 98% do genoma, e fez toda a parte analítica. Naquele momento, eu só pensava que eu tinha que entregar aquele resultado. Eu jamais imaginei que teria uma projeção como teve”.

O trabalho permitiu que fossem tomadas decisões sobre combate à doença ao longo desses dois anos, sobretudo no início, quando tudo ainda era muito novo. Atualmente, Jaqueline continua desenvolvendo pesquisas.

Foto: Reprodução/Redes Sociais

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