‘Me considero uma articuladora de universos’ afirma Inaicyra Falcão ao comemorar seus 50 anos de carreira 


Quantos espetáculos cabem em 50 anos? Quantas histórias? Com certeza uma vida inteira, que merece ser celebrada. Para isso nasceu o projeto OJO ODUN, para além de um espetáculo, uma comemoração aos 50 anos de carreira nas danças e nos cantos afro diaspóricos da,professora doutora em educação, pesquisadora do corpo em dança e intérprete soprano dramática Inaicyra Falcão, nossa personagem de hoje no Preta Bahia.  

Foto: Acervo Pessoal

Apesar de ser conhecida como uma artista consagrada, em sua infância Inaicyra Falcão não sonhava em se tornar bailarina, nem cantora. Ainda assim, cresceu rodeada de toda arte, cultura e ancestralidade que o Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro em que sua avó, Maria Bibiana do Espírito Santo, era ialorixá, poderia lhe oferecer. Com isso, a dança, o canto e a cultura ancestral estiveram sempre em sua rotina.  

‘Danço e canto desde que abri os olhos na vida’ relembra Inaicyra em entrevista ao iBahia. 

Ao relembrar dos momentos que viveu por lá, ela destaca também que ainda menina gostava de colecionar os cartões postais que ilustravam outros países, que sua  avó lhe dava. Anos depois ela viria a conhecê-los pessoalmente por conta da sua carreira na dança e no canto. Mas a arte já estava presente em seu sangue, seu pai Deoscóredes Maximilliano do Santos, mais conhecido como Mestre Didi, foi escritor, educador e artista plástico. 

Foto: Acervo Pessoal

Sua trajetória na arte tem início na escolha pelo curso de Belas Artes, onde optou pela dança e ainda na faculdade fez parte do Balé Folclórico da Bahia e na Nigéria dá início a sua carreira acadêmica no campo da arte, fazendo o mestrado em  Artes Teatrais pela Universidade de Ibadan e se tornou doutora  em Educação pela USP e livre docente na área de Práticas Interpretativas pela Universidade Estadual de Campinas. 

Inaicyra, enquanto mulher negra, foi pioneira em muitos espaços que ocupou, na dança e na academia. Em sua trajetória sempre buscou conectar suas pesquisas à cultura africana, destacando e dando luz a estudos e técnicas da cultura afro, por vezes esquecidos pelo ambiente acadêmico. Ela até hoje é um farol para diversas outras pessoas negras que também almejam ocupar novos locais. 

Ela destaca a dançarina Judy Geeson e o dançarino Clyde Morgan enquanto uma das suas principais referências e inspirações para seguir com sua carreira.

‘Nunca vi um homem negro dançando daquela forma, uma outra técnica, que não era apenas jogar capoeira. Então eu tive o privilégio de estar na Escola de dança quando Clyde chega no início da década de 70 e fui convidada para fazer um duo com ele na concha acústica. Hoje eu gosto de compartilhar a minha experiência, porque eu vejo o quanto é importante inspirar as pessoas, como eu fui inspirada por essas pessoas’, relembra a dançarina.

Foto: Acervo Pessoal

Inaicyra além de ser uma multi artista, da dança e do canto lírico, também é uma referência acadêmica. Ambas as áreas, a cultural e a educação passam por períodos difíceis de sucateamento, o qual ela analisa como o pior. Apesar de toda a dificuldade, Inaicyra afirma que  não saberia se expressar de outra maneira, senão pela arte. A cantora acredita que o universo conspirou para as coisas se encaixarem em seu caminho por conta de toda sua vontade de se utilizar da arte para se expressar.  

“A arte significa tudo pra mim. Inclusive quando eu não tenho esse poder de expressão, eu passo mal. A arte é tudo para minha vida, ela é muito forte”. 

Confira entrevista: