Preta Bahia

Professora, pesquisadora e empresária da literatura: conheça a história de Dayse Sacramento 

A partir de experiências pessoais e profissionais, baiana busca dar novos rumos para a produção literária de mulheres negras no Brasil

Ícaro Lima
18/06/2022 às 19h49

4 min de leitura
Foto: Arquivo Pessoal

Inquietações guiam Dayse Sacramento. Professora de literatura e língua portuguesa há 19 anos, ela reuniu as vivências dessa posição para expandir suas ações sempre de acordo com desejos e anseios que nutre desde a infância.

Atualmente, cursa doutorado em literatura e cultura na UFBA, desenvolvendo uma pesquisa sobre a cena literária protagonizada por mulheres negras, e essa trajetória caminha ao lado de outros projetos e desejos em sua vida. 

“Minha atuação enquanto professora sempre esteve em um lugar, da pergunta, da mobilidade, de pensar a educação para fora dos muros da escola”, afirma.

Trajetória

Natural de Salvador, iniciou cedo o contato com a literatura. “Minha mãe era funcionária da editora Abril, então sempre tive acesso a revistas em quadrinhos e livros. Sempre gostei, principalmente dos que me serviam como possibilidade de ter experiências a cada leitura”, relembra.

Dayse conta que sempre se propôs a ser uma professora que levaria constantemente textos para a sala de aula e fizesse com que os livros fossem presença ainda mais recorrente neste espaço. E foi justamente nessa atividade que questionamentos surgiram. 

“Nessas minhas inquietações dentro das escolas, uma pergunta que nunca deixou de pairar na minha cabeça foi: ‘onde estão as intelectuais negras nessas bibliotecas?’”, diz

Foto: Arquivo Pessoal

Empreendedora

Em busca de respostas e soluções, Dayse se mobilizou. Em 2017, Dayse adicionou o cargo de empresária em seu currículo ao criar a plataforma Diálogos Insubmissos de Mulheres Pretas.

Ao lado da sócia, Técia Santos, ela desenvolve por meio desse projeto bate papos, oficinas, além de participar de diversos festivais literários pelo Brasil, sempre carregando vários tipos de experiências, inclusive traços familiares.

“Minha carreira está atrelada à minha história, que é construída em uma perspectiva de uma família de mulheres negras. Sou filha de uma mãe solo, Dona Angélica Sacramento, que dedicou toda a vida para a minha formação e a do meu irmão”, conta. 

O projeto desenvolvido por Dayse acontece com o objetivo de fomentar, divulgar e expandir os caminhos daquilo que sentia falta. “O Diálogos Insubmissos também é o que eu e a minha pesquisa trazemos de retorno para a sociedade ao visibilizar produções intelectuais de mulheres negras”.

Ela explica que além da visibilidade, existe uma busca por monetização e fortalecimento de conexões dentro do universo das artes negras, indo além da literatura, inclusive.

Prova disso são as constantes presenças de personalidades de diversas áreas nos eventos promovidos, como a cantora Luedji Luna, a escritora Conceição Evaristo, a professora Denise Carrascosa e a pesquisadora Carla Akotirene.

Foto: Arquivo pessoal

Dificuldades também fazem parte desse caminho. Dayse reforça que o Diálogos Insubmissos é uma experiência cunhada a partir das ausências ,e com isso vieram entraves financeiros, organizacionais e políticos. 

“Há lugares em que o Diálogos não é bem quisto, inclusive por ser ser uma experiência curatorial onde as convidadas têm uma liberdade de expressão”, diz.

Próximos passos

Os projetos desenvolvidos por Dayse estão em constante expansão. Exemplo disso é a Editora Diálogos Insubmissos, que trabalha com produção de contéudo e editoração de livros, baseando-se em um pensamento afrocentrado e feminista. “É a possibilidade não só de questionar a ausência dos livros, de quem os escreve, mas fazê-los”, avalia.  

Outra vertente, ainda em criação, é o Dialoguinhos, selo que fará publicações de autores negros voltadas para crianças e adolescentes, algo que buscar reverter as ausências que Dayse sentiu quando jovem ao não encontrar representações imagéticas que fossem parecidas com ela ou com alguém de sua família. 

Além disso, uma notícia gerou ainda mais motivação em Dayse. “A maior alegria do momento é o fato de que nós estaremos novamente com a Casa Submissa de Mulheres Negras na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontecerá em novembro”, conta.

Foto: Arquivo pessoal

Essa participação ainda está sendo preparada. Inclusive, Dayse reforça que está em busca de patrocínio para viabilizar a presença. Porém, como estamos falando de alguém que transforma inquietações em ações transformadoras, a positividade não falta. 

“Estamos muito felizes com essa oportunidade. Sabemos da responsabilidade que é realizar a grande empreitada que é estar na programação oficial com essa nossa construção de cinco anos. É um grande festejo para nós”, finaliza. 

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