Avenida ganha novo fôlego com a volta do tradicionais Encontros de Trios


Cantor pioneiro do trio elétrico, Moraes Moreira, ao lado do cantor Saulo Fernandes, vem
resgatando o tradicional Encontro de Trios, no encerramento do Carnaval, na “curva do Sulacap”

“O poeta estava chorando, estava triste, mas hoje ele voltou a sorrir com o povo na praça”. Com essa frase, Moraes Moreira – primeiro cantor da história do trio elétrico – definiu, no Carnaval 2011, o sentimento de alegria de baianos e turistas com o retorno do tradicional Encontro de Trios. Em frente a estátua do poeta Castro Alves, o compositor de ‘Chame Gente’ e o vocalista Saulo Fernandes, da Banda Eva, cantaram juntos no último dia de folia momesca – 08 de março. O sucesso foi tanto que eles já confirmaram o repeteco para este ano, com uma novidade: a presença do guitarrista Armandinho Macedo. Este será o terceiro ano consecutivo que os dois artistas retomam a tradicional festa no local.
 
Novo fôlego para a Avenida – Com intuito de revitalizar o circuito Osmar (Campo Grande-Carlos Gomes), a Salvador Turismo (Saltur) está organizando, na terça-feira de folia (21), mais uma edição do projeto que teve seu início na década de 70 e que por muito tempo fez parte da programação oficial dos carnavais de Salvador, em um grande encontro de gerações da música baiana.

Em 2011, o Bloco Eva baixou as cordas, no Campo Grande, e seguiu para a Praça Castro Alves. Uma multidão de foliões foi atrás, mostrando como eram os antigos carnavais dos tempos de Dodô e Osmar (os pais da ‘Fobica’). O trio saiu em festa repleto de artistas convidados, como o inglês Geoffrey Chambers e o ex-vocalista da Banda Mel, Robson Moraes, deixando muita gente emocionada pelo circuito, indo de encontro ao trio de Moraes Moreira (ver matéria sobre o ‘Carnaval sem cordas’) .

Saulo agitou o público da praça Castro Alves, em 2011

Revitalização – De acordo com Cláudio Tinoco, presidente da Saltur, o Encontro de Trios é extremamente importante para o fortalecimento da Castro Alves e a consolidação da praça como importante ponto de produção cultural do Carnaval de Salvador.  “Quem viu ou participou do encontro em 2011 percebeu a energia e a beleza do projeto, que está crescendo ano após ano”, ressaltou.Encontro em família – Em entrevista coletiva, Bell Marques, vocalista do Chiclete com Banana, anunciou que também fará um Encontro de Trios, mas na abertura do Carnaval 2012 e patrocinados por uma cervejaria. A festa programada para o dia 16 de fevereiro vai juntar Bell e seus filhos, integrantes da banda Oito7Nove4.

Chiclete com Banana fará encontro com a Oito7Nove4,
na quinta-feira(16) de Carnaval, no Campo Grande

“Quando recebi o convite fiquei emocionado. É um sentimento muito particular, coisa entre pai e filhos. Imagino a minha família reunida no local de maior concentração de energia que a Bahia pode ter no Carnaval”, revelou.  Novatos na folia momesca, os garotos Rafa e Pipo estão ansiosos para participar do Encontro com o pai famoso. “Vai ser uma experiência incrível, temos certeza. É uma honra cantar com nosso pai num local tão emblemático como a Praça Castro Alves”, comemorou Rafa, o mais velho dos dois irmãos.

Carnaval 2012
O retorno do Encontro de Trios da Praça Castro Alves promete atrair novamente os holofotes para o local  e dar um novo fôlego para o circuito mais tradicional da folia, que vinha sofrendo um esvaziamento com a ‘descida’ de algumas das suas principais estrelas para o circuito Barra-Ondina.   

— Quem viu ou participou do encontro em 2011 percebeu a energia e a beleza do projeto, que está crescendo ano após ano. Cláudio Tinoco (Saltur)
Encontro dos trios Armandinho, Dodô e Osmar, Tapajós e a Caetanave (à direita)

O início dos Encontros de Trios
Uma curiosidade do Carnaval é que, por motivos diversos, o trio elétrico Armandinho, Dodô e Osmar ficou de fora da folia de 1968 a 73. Ao retornar ao desfile, em 1974, por onde o trio passava era saudado na folia, pelos outros trios como Tapajós e Marajós, que tocavam as músicas dos Macedo. Surgia ali a gênese do que, no ano seguinte, em 1975, seria o primeiro Encontro de Trios da história do Carnaval baiano. “Eu estava tocando no trio de Dodô e Osmar, já na reta final do circuito, descendo para a praça Castro Alves, quando encontramos com o trio dos Novos Baianos. Eles pararam numa posição que não dava pra ninguém passar, os caminhões estavam frente a frente. Tipo: ‘daqui vocês não passam’. Foi aí que resolvemos fazer uma apresentação juntos: a gente cantava uma música, depois eles cantavam outra… e foi aí que surgiu o Encontro de Trios da Praça Castro Alves”, relembra Betinho Macedo, um dos filhos de Osmar.

Outra curiosidade, é que a ideia de ‘encerramento da festa’, na terça-feira de Carnaval, pretendia também, segundo Aroldo Macedo, prolongar a alegria das pessoas que, ao anoitecer, não tinham como participar das festas carnavalescas nos clubes privados. Naquele período o Encontro de Trios marcava o encerramento do Carnaval.Os Encontros de Trios continuaram acontecendo, ininterruptamente, de 1975 até o início dos anos 90, depois dessa década os eventos foram rareando, mas ainda assim resistiram até o século XXI. A diferença é que, como os caminhões cresceram e as ruas não, ficou cada vez mais difícil reunir três trios elétricos na praça Castro Alves.

Mas em 2012, o desafio está novamente lançado! E no último dia da festa, a pipoca do EVA de Saulo Fernandes vai descer a Avenida Sete para encontrar o trio ‘Armandinho, Dodô e Osmar’, que estará a postos na Rua Chile, ao lado de Moraes Moreira, que também vai capitanear o seu trio.

— Eles (os Novos Baianos) pararam numa posição que não dava pra nínguem passar, os caminhões estavam frente a frente…e foi aí que surgiu o Encontro de Trios (Betinho Macedo)

Crescimento cultural do Carnaval de Salvador
Nos primeiros encontros, quando não se falava em “Área Vip” ou “Camarote”, a Praça Castro Alves atraía um elenco inacreditável para a época.

Imagine a reunião de nomes como Gal Costa, vestida de pierrô, Caetano, de calção e camiseta, Dedé Veloso, Wilma Dias, Sandra Gadelha, os Dzi Croquettes, Sônia Braga, Maria Bethânia, sentada em engradado de cerveja, Torquato Neto, Jards Macalé, Waly Salomão, Jorge Mautner, Nelson Jacobina, Jorge Salomão, Norma Bengell, Rogério Duarte e José Simão.

Na década de 70, surgiram grupos históricos: além dos Novos Baianos e o bloco afro Ilê Aiyê, o renascimento dos Filhos de Gandhy. Era o início do ‘crescimento cultural do Carnaval de Salvador’, que passou a enfatizar os conflitos e a protestar contra o racismo durante a folia.

Assista ao vídeo do Encontro de Trios de 1991:

Confira galeria de fotos históricas de Encontros de Trios na Praça Castro Alves: