Conheça os profissionais que ajudam a diminuir efeitos das drogas


São 20 anos de atuação em Salvador, mas falta conhecimento da sociedade e sobra condenação pelas instituições mais tradicionais. Os ‘Redutores de Danos’, que ainda não são reconhecidos como profissionais no estado, são especialmente contratados por organizações não-governamentais ou pelo SUS e levam alternativas para minimizar os danos à saúde dos usuários de drogas por conta do uso de substâncias psicoativas.

A maior política da profissão, que já é regulamentada pelo Ministério da Saúde, é o controle das consequências negativas associadas ao uso sem, necessariamente, interferir no consumo do usuário, respeitando a sua liberdade de escolha. E isso faz com que o objetivo da profissão se distorça. Na década de 80, foi criado em São Paulo um projeto de troca de seringas utilizadas pelos dependentes que faziam o uso de drogas injetáveis, mas não teve sucesso principalmente pela pressão do Ministério Público. Pesquisas feitas na época, mostravam que a troca de seringas usadas por novas era a opção para a redução do uso.

Quase dez anos depois, em 1995, surgiu o primeiro Programa de Redução de Danos do Brasil no Centro de Estudos e Terapias do Abuso de Drogas (CETAD) em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, e que manteve a proposta da troca de seringas.

Outro grande impulso dado pela capital baiana foi o Projeto Consultório de Rua, destinado inicialmente ao atendimento da população em situação de rua. Mais tarde, o professor e um dos maiores especialistas no Brasil na recuperação de usuários de drogas, Antonio Nery, desenvolveu o programa em decorrência do aumento das crianças que viviam nas ruas da cidade e estavam sob o uso de drogas. E desde 1997, funciona em Brasília a Associação Brasileira de Redutoras e Redutores de Danos (Aborda) que fortalece a implementação da Redução de Danos como política pública.

Realizado pela Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH), o projeto ‘Corra pro Abraço’ foi lançado em Salvador em 2013 e se tornou uma rede de tratamento integrado com educação, cultura e capacitação profissional que atende em média 50 usuários de crack e de outras drogas por dia.

Projeto ‘Corra pro Abraço’ já atendeu mais de 300 pessoas, incluindo jovens, crianças e adolescentes

“O redutor de danos trabalha com a escuta”. Essa é a definição do profissional Guilherme Storti, que desde 2014 participa do projeto. Segundo ele, a vida foi a melhor escola para ter conhecimento sobre redução. “Aprendi muito pesquisando por conta própria e escutando os meus colegas de trabalhos que têm mais tempo de atuação do que eu, além das minhas próprias experiências enquanto usuário de drogas, que sem sombra de dúvidas foi o maior gatilho para que eu pudesse chegar aonde cheguei. Após começar a trabalhar como Redutor de Danos passei a ter acesso a alguns cursos que são disponibilizados para técnicos da rede, alguns cursos on line que são disponibilizados pela Secretaria Nacional de Políticas de Drogas (SENAD), também sempre procurava me informar se haveria alguma palestra ou evento sobre drogas em Salvador (por incrível que pareça, tem bastante)”, contou.Em dois anos, o programa já atendeu mais de 300 pessoas, incluindo jovens, crianças e adolescentes que estavam em situação de vulnerabilidade.  “A meta do projeto é melhorar a qualidade de vida de muitas pessoas que estão nas ruas do Centro Histórico e ajudá-las a reorganizarem as suas vidas sem cobrar nada delas em contrapartida, ou seja, elas têm a autonomia de se organizarem da forma que acharem mais adequada e tomam as suas decisões. Não cobramos que elas deixem de usar drogas, por exemplo, mas sempre aconselhamos a fazer esse uso de forma menos danosa para a saúde, e para a vida como um todo. “, explicou Guilherme.

Visita do neurocientista Carl Hart (de azul)ao ‘Corra pro Abraço’

Em 2012, um morador de rua e usuário de drogas foi morto durante o apagão que atingiu os estados do Nordeste e parte do Norte. O homem, identificado apenas como “William’, foi atingindo por dois tiros no Centro Histórico de Salvador. Segundo noticiou o site Correio24h na época, a participação de um policial foi investigada, mas o resultado do processo não foi divulgado. Por conta da rotulação de apologia às drogas que é feita do trabalho, os redutores de danos encontram dificuldades com setores de segurança pública e justiça. “Atualmente não temos problemas diretos com esses órgãos, porém, recebemos denúncias de diversos casos de violência policial sofridos por pessoas que acompanhamos, e em determinados casos um evento como esse pode prejudicar todo um processo terapêutico construído com aquelas pessoas. A Policia Militar, infelizmente, ainda usa de uma abordagem muito agressiva com os usuários de drogas, isso se agrava quando as pessoas se encontram em situação de vulnerabilidade social”, relata.