Presos fizeram cantoria na noite anterior à fuga do Complexo dos Barris


O canto rotineiro dos 182 detentos do Complexo Policial dos Barris soou mais forte no sábado, dia que antecedeu a fuga de 52 criminosos pelas janelas da unidade.

Moradores do entorno do Complexo reclamam da insegurança e do barulho feito pelos detentos. Na noite anterior à  fuga, os presos cantaram mais do que de costume.

“No sábado, eles cantaram muito. Estavam bastante animados. Foi estranho. Foi um canto de felicidade. Não foi nem de perturbação”, conta a moradora do 17º andar de um prédio, que tem visão privilegiada do Complexo. Ela diz que costuma ouvir os cantos, geralmente evangélicos, dos presos que recebem visitas de pastores, além dos gritos deles na madrugada.

No dia da fuga, a moradora, que vive há 20 anos no bairro e não quis se identificar, contou que viu vários detentos correndo pelas ruas próximas ao Complexo. “Quatro deles eu vi subindo para o Garcia. O quinto estava correndo atrás, mas depois parou e subiu a Ladeira da Fonte. Depois de correr, ele parou de novo e foi andando como um cidadão comum”, relembra.

O motorista Orlando Santos, 58, também morador de um prédio próximo, é mais um a reclamar. “Às vezes, de madrugada, eles gritam muito. É uma dificuldade para dormir”, destaca.  Nos quatro anos em que vive no local, o motorista já contabilizou três fugas. “É uma situação ruim e perigosa. E se algum deles invade aqui o prédio e faz moradores de refém? Eles sempre fogem armados”, reclama.

Um aposentado de 79 anos que também vive próximo ao Complexo confirma que as fugas são frequentes.

“Constantemente, a gente vê isso aqui. Não podemos fazer nada a não ser esperar os policiais agirem. Há um excesso de presos no Complexo”, lamenta. “O certo era não manter presos nessa delegacia. Isso amedronta a gente.

Antigamente, eles vinham e eram levados para outro lugar. A fuga foi quase às 7h da manhã e já tinha várias pessoas descendo do prédio para fazer cooper. Eles podiam ter feito alguém de refém”, destaca.

Captura
Até o fechamento desta edição, às 22h, 37 detentos continuavam foragidos. Entre eles está o assaltante Hones Batista da Silva, apontado como o mentor da fuga e de “personalidade violenta” (veja ao lado). Antes de fugir, ele ainda agrediu um policial, que teve a clavícula deslocada, e roubou a pistola ponto 40, a carteira e o celular do agente.

Já em Barreiras, no Oeste do estado, onde 82 presos fugiram por um buraco no teto de uma cela, apenas 14 foram recapturados. Em Porto Seguro, no Extremo Sul, o detento Rivaldo Freitas de Oliveira, que na fuga matou o PM Luis Cláudio Dias dos Santos, ainda não foi localizado. Na madrugada de ontem, mais duas fugas: três detentos fugiram da delegacia de Almadina, a 450 km de Salvador, e sete fugiram da delegacia de Bom Jesus da Lapa, a 777 km da capital.

Adenilson Barbosa da Conceição, André dos Anjos Campos, Antonio Conceição Almeida, Antonio Jose dos Santos, Cleito Silva de Jesus e Fernando Luis da Silva Santos

Lotação
O Complexo dos Barris é formado pela 1ª Delegacia, pela Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes (DTE), além da Polícia Interestadual (Polinter), que migrou para o local em setembro, depois da criação do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), na Pituba.

Nas 32 celas que servem às três unidades dos Barris, há excesso de presos. Na 1ª DP, que costuma receber presos de outras delegacias da capital, havia 77 detentos antes da fuga, sendo que a capacidade é para 32. Já a DTE, com capacidade para 35, tinha o dobro de presos (70). Na Polinter, onde nenhum detento conseguiu fugir, há 35 criminosos, em espaço que comporta 32.

Os 15 detentos recapturados reclamaram das condições das celas e da superlotação. Através da assessoria de comunicação, a Polícia Civil informou que a carceragem do Complexo tem “bom estado de funcionamento”.