Se essa rua fosse minha

Pôr do sol, praia e muita história no Monte Serrat

'Se Essa Rua Fosse Minha' visitou o bairro que é a cara do verão

Ive Deonísio e Luriana Morais (falecomseessarua@gmail.com)
- Atualizada em

Dessa vez, o nosso rolê é pelo Monte Serrat, bairro onde fica a famosa Ponta de Humaitá, palco que tem o pôr do sol como um dos mais bonitos da cidade. O bairro surgiu depois que Tomé de Souza resolveu procurar um canto de Salvador pra fazer um povoado e construir um forte. Daí, foi erguido o Forte de Monte Serrat, que naquela época defendia o acesso norte da cidade junto com o Forte de Santo Antônio, na Barra. O nome vem da imagem de uma virgem espanhola trazida por um padre, a Nossa Senhora de Montserrat. 

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É no Monte Serrat que está a casa mais antiga de Salvador. A gente quase não acreditou que teria a chance de visitar uma casinha de 1619. A história conta que o Padre Antônio Vieira morou aí, e a casa foi construída por um dos Garcia D’Ávila, donos de tudo por ali, descendentes diretos de quem? De Tomé de Souza. Foi notícia na revista Caras de 1500 e bolinha que Garcia D’Ávila era filho bastardo de Tomé de Souza, mas nunca se identificou como tal porque naquela época era proibido a um governador doar sesmarias a pessoas da família. Então, seu D’Ávila herdou tudo na cocó e se tornou o dono do maior latifúndio do mundo (hoje a Praia do Forte e parte do Litoral Norte). 

A praia de Boa Viagem é umas das mais gostosas da cidade. As águas são calmas e claras, o que facilita muito o mergulho e a visualização de peixes. Uns gostam de caminhar, muitos de nadar, outros se amarram nos frutos do mar fresquinhos e no precinho, mas quer saber? O que a gente mais gosta de fazer por lá é namorar. Assistir ao pôr do sol da areia da praia junto com mozão é um programa que tem o selo SERFM de qualidade. 


Aqui a gente descobriu um tira-gosto maravilhoso e barato: o churrasquinho de asa. É uma delícia e com 18 dinheiros você come 10 asinhas com farofa e vinagrete. A asinha na brasa fica colada com a Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem. Petisco imperdível! 

Quem já comeu um siri-bóia inteiro? Feito igual ao caranguejo, com cebola, tomate, coentro e azeite. Tia Maria é uma das únicas da cidade que serve o crustáceo assim, com o charme de ser num lugar simples, com mesas de plástico de frente para o mar e numa rua chamada Avenida Constelação, em homenagem ao significado de Humaitá: chão de estrelas. Você sai pra comer e volta um poeta inspirado! Para todos nós que vivemos reclamando da correia do dia a dia, almoçar em tia Maria nos obriga a ver o tempo passar lentamente. Isso porque só ela encosta nas panelas, independentemente de quantas pessoas estejam esperando pela comida deliciosa do seu restaurante, o Recanto da Tia Maria. ⠀

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Inicialmente a nossa ideia era falar sobre o Farol de Humaitá, mas no final quem roubou a cena foi a balaustrada branca que o cerca. Pra que tanto oba-oba por causa de um muro branco? O motivo é bem simples: junto dela tem um assento, que é de onde as pessoas assistem ao maravilhoso pôr do sol de Monte Serrat. A balaustrada foi construída em 1926 (é possível ver a data aí na foto), numa época com bem menos carros que hoje e em que as construções levavam muito mais em conta o pedestre. Pra não deixar o farol com ciuminho, a gente te conta que ele foi construído em 1935 e é a raspa do tacho dos faróis soteropolitanos. Enquanto os vovôs da Barra e de Itapuã são centenários, o de Humaitá é um broto. Também é o único que está dentro do mar.  

Reza a lenda que Salvador tem 365 igrejas, e só no Monte Serrat tem duas. A Igrejinha de Nossa Senhora de Monte Serrat é famosa por não saberem ao certo quem a construiu (se foram os milionários Garcia D’Ávila ou um devoto de Nossa Senhora de Monte Serrat). O mais louco de tudo, com o perdão do trocadilho, é que ali já funcionou até um sanatório.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

A segunda é a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, que abre o ano em Salvador. É ali que, desde 1891, todo dia primeiro de janeiro os devotos celebram a festa de Bom Jesus dos Navegantes, com procissão marítima e entrega de presentes pelos pescadores na Galeota do Senhor dos Navegantes. O barquinho passa pelo meio da areia da praia e deixa as oferendas no mar para que os pescadores tenham um bom ano. 

Diz se não é um passeio perfeito para um sábado? Vá passear com os amigos e volte pro instagram @seessarua_fosseminha pra contar pra gente como foi!

Serviço:
Asinha na Brasa 
ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem  


Recanto da Tia Maria

Av. Constelação, 51



O projeto "Se Essa Rua Fosse Minha" visita diversos bairros soteropolitanos, carinhosamente chamados de ruas, numa das muitas licenças poéticas que você vai encontrar nos textos. Ali, as publicitárias Luri Moraes e Ive Deonísio se encantam com as pessoas, conversam animadamente com os moradores e se deixam levar por esse mar de amor que emana das ruas de Salvador.  Mais histórias e fotos em @seessarua_fosseminha