Se essa rua fosse minha

Um passeio por Salvador através da obras de Carybé

É possível explorar a cidade através das criações do artista

Ive Deonísio e Luriana Moraes* (falecomseessarua@gmail.com)
- Atualizada em

“Era escoteiro do Clube do Flamengo e pertencia a uma patrulha na qual todos tinham nomes de peixes. E eu era o peixe Carybé. Achei o nome sonoro e curto, e adotei-o. E não diga nada a ninguém, mas o Carybé é uma piranha...”. No registro, a piranha feroz se chamava Hector Julio Páride Bernabó, e era pintor, gravador, desenhista, ilustrador, mosaicista, ceramista e entalhador.  Independentemente da técnica, deixava tudo cheio de movimento e vida. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A gente aqui tem é sorte que o melhor amigo de Jorge Amado, camarada de Pierre Verger e Caymmi, conheceu a Bahia aos 27, e 12 anos depois realizou o desejo de fixar residência em Salvador, onde morou até morrer, aos 86 anos. Nesse tempo, espalhou beleza em madeira, concreto, pintura e mosaico pela cidade inteira, retratando histórias da Bahia. Deve ser por isso que elas se incorporaram de forma tão orgânica a Salvador.


Sempre admiramos Carybé, mas foi depois de visitar o Espaço Carybé das Artes, no Porto da Barra (que já entrou no blog, veja aqui), e lembrar da famosa Rota Carybé que decidimos criar o nosso próprio itinerário do artista em Salvador. No caminho, aprendemos que essa caça ao tesouro não se esgota, vai ter sempre um Carybé novo para surpreender na cidade.
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Primeiro, procuramos as obras no Centro Histórico. Coisa fina, coisa linda. Aproveite o fim de semana pra sair de casa e ver tudo ao vivo:
Na foto da esquerda, "As Três Raças", arte em concreto na Fundação Casa de Jorge Amado, fica ao lado do "Exu" de Tati Moreno. Na imagem da direita, "A Colonização do Brasil", localizado na Rua Chile, no Edifício Desembargador Bráulio Xavier.
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Na imagem superior, a obra 'Orixás' com 27 pranchas de cedro que representam os orixás, seus animais e armas. Cheio de detalhes em outro, prata, búzios e ferro. Na imagem abaixo, "A Colonização do Brasil", localizada dentro da agência Bradesco na Rua Chile.
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Imagina chegar em casa e encontrar um Carybé no lobby do prédio? Sabia que tem uma lei municipal (4.489) que estabelece a obrigatoriedade de obras de arte em edificações de Salvador? Ela foi regulamentada em 2003, mas na prática nunca funcionou. Só muito antes, entre os anos 40 e 60, quando era moda entre as elites da Barra, Graça, Vitória, Campo Grande e Canela ter uma obra de arte nos prédios, essa ideia era levada a sério. Pena que com o passar do tempo a moda acabou e a gente ficou carente. A gente fez a nossa parte e procurou os Carybés espalhados pelos prédios. ⠀
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Graça: Edifício Catarina Paraguassu, o nosso preferido. Uma surra de Carybé em pedras portuguesas e duas telas gigantes no lobby. Lindo, incrível. Deu até vontade de abraçar :)
Barra: "Os Pescadores", edifício Barão de Itapoan. O porteiro não deixou a gente entrar, mas foi brother e tirou as fotos
Canela: "Tupinambás", Edifício Tupinambás. De novo, não nos deixaram entrar para fotografar, mas fica aqui o registro com essa foto através das grades do prédio.
Rua Carlos Gomes: "Navio Negreiro" - Parece que não teve a conservação devida, né? (foto do blog Antiguinho, de 2014)
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Antigamente, o Comércio era uma região ainda mais viva. Grandes empresas, bancos, centros comerciais. E Carybé foi convidado para encher esses locais de arte, beleza e vida.
Comércio: Fachada da agência Banco do Brasil. Orixás e bichos esculpidos em milhares de azulejos, uma explosão amarela, a obra preferida de Ive.
MAM: Gradil do museu e parede de concreto próxima à praia
Comércio: "Quetzalcoatl", edifício Cidade de Ilhéus. Lindão, fica do lado de fora da fachada, pra gente ficar atento toda vez que passar por lá
"Comércio Progresso" e "Fundação Salvador", edifício Cidade de Salvador. Carybé pintando o mural e a foto que a nossa seguidora Valentiny Bastos enviou.
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Segundo Gabriel Bernabó, neto de Carybé, a região do Campo Grande é o local com maior concentração e obras do artista. E não é que a nossa investigação por lá foi bem produtiva?
Campo Grande: Gradil de Ferro. Composição feira por Gabriel Bernabó a partir de desenhos de Carybé e projeto executivo por Daniel Colina, foi implementado na reforma da praça, em 2003
Campo Grande: "Índios Guerreiros", Edifício Campo Grande. O nosso muitíssimo obrigado ao porteiro do prédio que nos deixou entrar para fazer a foto. Aliás, parece que nesse lugar aí só mora gente boa. No ano passado, os moradores se reuniram para celebrar os 60 anos de Iara e Raoni, os dois índios gravados nos azulejos.
Campo Grande: "Fundação Cidade de Salvador", foyer do Teatro Castro Alves. Painel incrível em espaço enorme, como Carybé gostava. Retrata centenas de personagens e a junção de várias técnicas: partes em cimento, madeira, pintura em azulejos. A visitação só é possível com ingresso par evento no teatro ou em temporada de exposição no local.
Piedade: Gradil da praça. Mais uma marca da paixão de Carybé por gradis. Desenhado em 1997, ano em que o artista faleceu.
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Superior - Campo Grade: Painel no Antigo Hotel da Bahia, atual Wish / Inferior: Campo Grande: "Bahia", edifício Guilhermina. O porteiro legal também nos deixou entrar e fotografar, escolhemos um detalhe do painel de concreto que toma todo o lobby do prédio.
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A parte mais nova da cidade, hoje o coração financeiro, que fica entre o Caminho das Árvores e a Pituba, também tem obras do artista.
Caminho das Árvores: "Maria Baiana", obra encomendada pelo shopping da Bahia para recepcionar o público na entrada e homenagear a mãe baiana. Peça de bronze, segue a linha do artista que privilegia a forma em detrimento do rosto.
Caminho das Árvores: "As Mulheres e os Pássaros", no Centro Empresarial Iguatemi. No dia que a gente foi a entrada estava fechada, uma pena que as pessoas que frequentem não possam ver Carybé.
Pituba: "A Primeira Missa-Descobrimento", dentro da agência Itaú na Praça Nossa Senhora da Luz. O segurança reclamou, mas a gente já tinha tirado a foto.

Nós também torcemos para que a arte esteja em toda parte, espalhada, onde o povo está. Daí fomos procurar as obras de Carybé que estão mais afastadas do miolo do centro histórico e financeiro da cidade. E até que deu um caldo, viu?⠀⠀⠀⠀⠀
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Superior - Secretaria da Fazenda. Três painéis com entalhe em madeira, com efeitos visuais surpreendentes nos detalhes das figuras/ Inferior - Assembleia Legislativa, "Colonização da Bahia". Uma obra que destaca Diogo Álvares Cabral e Catarina Paraguassu, a preferida de Luri.

Liberdade: 3º Centro de Saúde Professor Bezerra. Dois painéis com temática voltada para a Bahia
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Aproveitamos para agradecer ao Instituto Carybé por todo suporte e aos seguidores do @seessarua_fosseminha no instagram por colarem com a gente, não esperávamos tamanha contribuição e empolgação. Foi massa =] E se encontrarem mais de Carybé nas andanças de vocês pela cidade, nos enviem fotos por email!⠀

*O projeto "Se Essa Rua Fosse Minha" visita diversos bairros soteropolitanos, carinhosamente chamados de ruas, numa das muitas licenças poéticas que você vai encontrar nos textos. Ali, as publicitárias Luri Moraes e Ive Deonísio se encantam com as pessoas, conversam animadamente com os moradores e se deixam levar por esse mar de amor que emana das ruas de Salvador. Mais histórias e fotos em @seessarua_fosseminha
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