Se essa rua fosse minha

Você sabia que na Graça fica a fonte mais antiga da cidade?

É nessa fonte que se banhava Catharina Paraguassu

Ive Deonísio e Luriana Moraes
- Atualizada em
“Com o perdão do trocadilho, que bairro mais sem graça”, disse uma seguidora do @seessarua_fosseminha quando soube que o nosso próximo passeio seria pela Graça. ⠀
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Longe de ser um bairro revelação, a Graça é um clássico. Alta e com visão estratégica para o mar, era povoada por índios. Após a colonização portuguesa, tornou-se a sede da Capela de Nossa Senhora da Graça, da qual Caramuru era devoto, mas a região ainda se chamava Vila Velha. Séculos depois, foi escolhida por comerciantes ricos para a construção de casarões, foi sede do primeiro estádio da cidade e do Clube Baiano de Tênis, que tinha os bailes de Carnaval mais famosos de Salvador.
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Mas a real é que gente tem um carinho especial pela Graça porque ela é um dos pouquíssimos bairros caminháveis de Salvador. Um local onde quase todo mundo tem carro, mas dá pra ver gente andando pela rua o tempo inteiro.
E foi justamente caminhando pela rua em um sábado que a gente conheceu a @feirinhadagraca. Um espaço com culinária vegana, produtos orgânicos, que não agridem o meio ambiente, flores e mudas da Chapada Diamantina.
Uma curiosidade: você sabia que tem uma fonte ali no bairro? Não só tem, como é a primeira da cidade, onde Catharina Paraguassu se banhava láááá em 1500. A fonte Nossa Senhora da Graça fica no fim de uma rua com nome massa, a Almirante Cleto Japi Assu, na descida do Vale do Canela, e revela uma Graça menos aristocrática, com prédios baixos, sem elevador e carros mais simples. Sim, isso existe em uma das vizinhanças mais chiques da cidade.
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Ela foi batizada de Fonte Nossa Senhora da Graça porque Caramuru, o português casado com Catharina, era devoto da santa. Dizem que eles moravam na região e iam andando para a Igreja da Graça.
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Fato é que Catharina não estaria feliz com o destino das águas subterrâneas que brotam na fonte: está cheia de lixo e cercada por grades, no meio de uma pracinha frequentada por carros de autoescola. Abandonada, como tantas outras da cidade.

A hora do rango chegou com tudo nesse passeio, e com comidinha de interior pra acompanhar um cafezinho: bolo de tapioca, sequilho de canela, pãozinho, hummm… Para os quitutes da @solangebiscoitos a gente dedica um afeto especial. O local não tem placa, é secretinho, bem casa de comadre chique, pra bater um papo gostoso com comida que abraça e decoração que inspira.
De barriga cheia, bora contar as histórias dos prédios do bairro?
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O Edifício Comendador Urpia é um marco da arquitetura modernista em Salvador. Projetado na década de 1950 pelo famoso arquiteto Diógenes Rebouças, chama a  atenção pelos pilares em “V” aparentes na garagem e playground, e pela fachada com esquadrias horizontais e verticais.
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O Dourado foi o primeiro edifício residencial da cidade, construído em 1937/38. À época, era aspiracional para a população. O prédio causou o maior frisson na cidade porque todo mundo queria subir no topo para apreciar a vista. No começo, todos que moravam lá eram da mesma família, a Dourado. Em estilo Art Déco, foi tombado. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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O Centro Médico da Graça Albert Schweitzer é obra do nosso queridíssimo arquiteto Assis Reis. Construído em 1967, tem uma planta diferentona, em formato de círculo. Não foi à toa que o projeto venceu a disputa de melhor edifício na bienal de arquitetura de SP, em 1969.
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O Colombo tem cara daquelas vovós chiquérrimas da Graça, sabe? Apartamento enorme, construído na década de 1930, também em Art Déco. O prédio é todo bem conservado, mantido sem descaracterizações e tem o plus da varandona de vidro virada para o Palacete das Artes.
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Por último, o Monsenhor Marques, um clássico da arquitetura de Salvador, projetado pelo arquiteto japonês Yoshiakira Katsuki e construído em 1974. Com elementos inovadores na estrutura, pilares em Y que contribuem para ampliar a vista para o mar e um mosaico de Juarez Paraíso, que orna com o pôr do sol espetacular da baía.



Chegamos ao lindo Palacete das Artes, que no passado era o Palacete Catharino, lar do riquíssimo Comendador Bernardo Martins Catharino. Além de residência da família importante (que dá nome a uns três prédios vizinhos) serviu também como local para celebrar a arte na cidade no início dos anos 1900. Dá até pra ver na sala de música o palco montado e instrumentos musicais na estampa restaurada das paredes. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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Uma dica: não olhe apenas para as paredes, muitas vezes os tetos contam a história de cada cômodo. Há registros de que havia no palacete um banheiro por andar, sinal de muita riqueza. Mas luxo mesmo era o elevador dentro da casa, um dos primeiros do Brasil, conservado até hoje.

Além da mansão, há um anexo com arquitetura moderna, destinada a abrigar exposições temporárias. Hoje está em exposição parte do acervo de quadros de Assis Chateaubriand. Também foram incorporadas aos jardins do Palacete quatro peças do escultor Auguste Rodin, compradas do Museu Rodin Paris.
Você já tentou pesquisar “segunda igreja mais antiga do Brasil” no Google? Aparece igreja em Pernambuco, Espírito Santo, Bahia, todas muito documentadas... Aqui em Salvador duas vizinhas disputam o título, a Igreja da Vitória e a Igreja e Mosteiro da Graça, construída em 1535. Há registros que elas perdem para uma de 1526, em Porto Seguro, que hoje é Museu de Arte Sacra. Dizem que a Igreja da Graça foi erguida após uma visão da índia Catharina Paraguassu. Catharina se casou com o português Diogo Álvares, o Caramuru, e foi convertida ao cristianismo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Catharina foi sepultada lá, onde estão seu testamento e restos mortais. Também foi enterrada na igreja Julia Fetal, uma jovem morta pelo namorado com uma balada de ouro feita com o anel do noivado. O primeiro feminicídio que reverberou na sociedade baiana inspirou o enredo da novela Espelho da Vida, da Globo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
SERVIÇO:
Feirinha da Graça
Endereço: Rua Humberto de Campos, 80
Horário: aos sábados, das 7h às 14h

Solange Biscoitos
Endereço: Rua da Paz, 18
Horário: a partir de 7h

Palacete das Artes

Endereço: Rua da Graça, 284
Horário: terça a sexta das 13h às 19h e sábado e domingo das 14h às 18h

O projeto "Se Essa Rua Fosse Minha" visita diversos bairros soteropolitanos, carinhosamente chamados de ruas, numa das muitas licenças poéticas que você vai encontrar nos textos. Ali, as publicitárias Luri Moraes e Ive Deonísio se encantam com as pessoas, conversam animadamente com os moradores e se deixam levar por esse mar de amor que emana das ruas de Salvador.  Mais histórias e fotos em @seessarua_fosseminha