Conflito

De que forma guerra entre Rússia e Ucrânia impacta o Brasil?

País pode sofrer impactos econômicos em casos de sanções à Rússia

Redação iBahia
24/02/2022 às 16h59

6 min de leitura
Foto: Reprodução / CNN

Desde que as primeiras informações sobre o ataque da Rússia à Ucrânia na madrugada desta quinta-feira (24) foram noticiadas, os nomes dos países e outros termos relacionados, como Chernobyl e OTAN, ficaram entre os assuntos mais comentados do Brasil no Twitter. O que indica que, apesar do conflito ser no leste europeu, muitos brasileiros estão preocupados em entender o que significa e de que maneira pode impactar o país. 

Inicialmente, o principal reflexo no Brasil é econômico. Já nas primeiras horas após a invasão ordenada pelo presidente russo Vladimir Putin, o preço do petróleo extrapolou o limite de 100 dólares pela primeira vez em mais de sete anos. Com a política de Paridade de Preços Internacionais (PPI) adotada pela Petrobras, o consumidor brasileiro deve enfrentar novos aumentos nos preços dos combustíveis. 

“A alta do petróleo, em virtude da Ucrânia, também influencia no preço dos transportes e alimentos, temas caros para as camadas de baixa e média renda, sem contar o encarecimento do preço nas bombas de gasolina”, ressaltou o analista político Leopoldo Vieira.  

Além disso, sanções impostas pelos Estados Unidos e União Europeia também devem pressionar o preço da energia. Essas sanções, de acordo com o especialista, ainda podem fazer com que o Brasil seja impactado no comércio e no agronegócio.  

“Empresas russas são importantes fornecedoras de fertilizantes ao Brasil e podem sofrer sanções. Não se descarta ainda efeitos sobre o agronegócio brasileiro, o que depende da abrangência de eventuais sanções secundárias impostas pelos Estados Unidos e União Europeia”, completa Vieira. 

Foto: Alan Santos / Planalto

Posição do Brasil 

Em meio à crescente tensão entre as duas nações, o presidente do Brasil Jair Bolsonaro foi criticado por viajar à Rússia e dizer ser “solidário” ao país. Durante as primeiras horas após o ataque, Bolsonaro discursou por 20 minutos em um evento sem citar o acontecimento.  

O governante só se manifestou sobre o ataque dos russos à Ucrânia na tarde desta quinta, ao dizer, no Twitter, que está “totalmente empenhado no esforço de proteger e auxiliar os brasileiros que estão na Ucrânia”.  

Pela manhã, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que o “Brasil não concorda com a invasão do território ucraniano". O Itamaraty, Ministério das Relações Exteriores do Brasil, por sua vez, informou que o "governo brasileiro acompanha com grave preocupação a deflagração de operações militares pela Federação da Rússia contra alvos no território da Ucrânia”. 

Para Mateus Silva, mestrando em História Social pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), as situações acima evidenciam um impasse existente sobre a posição brasileira diante desse contexto ou ao menos a falta de uma posição coerente no momento.

“Porém, enquanto um membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU, terá o Brasil que se debruçar sobre o tema quando consultado, podendo ocupar uma posição não desprezível caso este se torne um espaço privilegiado para a construção de uma saída diplomática para o conflito”, destaca o especialista. 

Leopoldo Vieira destaca que a falta de posicionamento claro do governo brasileiro ao lado dos Estados Unidos e da União Europeia sobre a invasão da Ucrânia pode levar o país a aumentar o isolamento internacional em relação a economias mais desenvolvidas, que comandam a chamada Comunidade Internacional.  

“No entanto, o bloco mais importante de países emergentes no mundo continua sendo o BRICS. Goste-se ou não, também por meio dos BRICS, Rússia e China travam uma disputa pela liderança econômica global e, neste momento, mostram que não estão para brincadeira. Por isso, também cabe ao governo brasileiro se sustentar entre os dois grandes campos que vão ditar a transição do mundo pós-pandemia”, opinou. 

O Brasil pode entrar em guerra?  

Diante deste cenário incerto, a entrada do Brasil efetivamente na guerra é tratada como improvável pelos especialistas. “Ainda que o conflito não se resuma apenas a Kiev e Moscou, seu futuro hoje está nas mãos destes e de outros atores mais expressivos da política mundial, como os EUA, a União Europeia e mesmo a China”, explica Mateus. 

Ele reforça, no entanto, que por vivermos em um mundo globalizado, as consequências devem chegar de outras formas, como na economia e no comércio exterior brasileiro, conforme foi dito anteriormente. 

Vieira faz coro ao que foi dito pelo mestrando e reforça que “o governo brasileiro tende a se concentrar em soluções internas para amenizar possíveis consequências negativas da crise ucraniana sobre a inflação e o crescimento econômico, além das empresas locais”, reforça Vieira.  

Foto: Reprodução / New York Times

O conflito 

Este é o maior ataque de um país europeu contra outro do mesmo continente desde a Segunda Guerra Mundial. A Embaixada brasileira na Ucrânia já classifica os ataques como “um ato de guerra” – o país foi invadido por vias terrestres, aéreas e marítimas.  

Diante dos ataques russos, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky decretou mobilização geral no país. Somente nesta quinta-feira, de acordo com a polícia da Ucrânia, foram mais de 200 ataques dentro do território. 

Em resposta, a Ucrânia informou que derrubou veículos do exército russo no leste do país, pouco depois de Moscou iniciar uma ofensiva militar. Além disso, o governo do país afirmou ter rompido relações diplomáticas com a Rússia. 

Origem 

As disputas entre os dois países começaram em 2014, quando o território da Crimeia, península ucraniana, foi incorporado à Rússia. Há, no entanto, dimensões geopolíticas e históricas relacionadas ao confronto, que remontam à Guerra Fria.  

A Rússia reclama de uma eventual adesão da Ucrânia à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), aliança militar criada para fazer frente à extinta União Soviética.  

Putin acredita que a organização é uma ameaça à segurança da Rússia com a expansão na região e pede à Ucrânia uma declaração formal de que nunca irá se filiar à Otan. 

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