O mapa do futebol mudou. Durante décadas, a geografia do futebol era explicada pelos centros tradicionais de poder (Brasil, Alemanha, Itália, Argentina, França, Uruguai, Inglaterra e Espanha). Hoje, porém, o movimento global de pessoas mudou também a circulação do talento. O futebol passou a contar uma história muito mais complexa sobre migração, colonialismo, identidade e pertencimento. As fronteiras e o “peso da camisa” já não explicam mais quem joga melhor e encanta.
Durante décadas, o futebol vendeu uma ideia relativamente simples do mundo. As grandes potências produziam craques e os países periféricos revelavam alguns talentos ocasionais. As Copas do Mundo serviam para confirmar uma ordem quase imutável: poucos gigantes disputavam verdadeiramente a taça e países atrevidos de um título só ou boas campanhas chegavam a ameaçar, enquanto a maioria entrava apenas para participar e se tornar uma “pedra no caminho”.
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Mesmo que este resultado se mantenha na final, a Copa do Mundo de 2026 está desmontando essa lógica. Não apenas pelos resultados surpreendentes, mas porque ela escancara uma transformação silenciosa que vem acontecendo há mais de vinte anos. O futebol já não pode mais ser explicado pelos mapas políticos. Hoje, ele é definido pelos quadros das migrações.
Quando Cabo Verde elimina, atrapalha ou faz sofrer a última campeã mundial, quando Marrocos encara qualquer potência sem complexo de inferioridade, quando Egito deixa de ser visto como azarão, quando Argélia, Costa do Marfim, Gana, República Democrática do Congo e Senegal disputam partidas equilibradas contra seleções tradicionais, a impressão é de que nasceram novas escolas de futebol. Na realidade, talvez elas sempre tenham existido e apenas demoraram para serem reconhecidas.
O caso de Cabo Verde sintetiza esse fenômeno. Com pouco mais de 500 mil habitantes espalhados por um arquipélago no Atlântico, o país protagonizou uma das campanhas mais emocionantes desta Copa. Depois de suportar a pressão da Espanha, neutralizar o Uruguai, segurar a Argélia e levar a tricampeã Argentina até os minutos finais da prorrogação nas Oitavas de Final, Cabo Verde deixou o torneio transformado. Não saiu apenas de cabeça erguida, mas respeitado e admirado pelo mundo.
Durante muito tempo e até recentemente, uma seleção como Cabo Verde seria vista como um "saco de pancadas". Hoje, ninguém mais entra em campo acreditando que haverá jogo fácil e esta Copa do Mundo está provando isso e que a velha frase “não existem mais bobos no futebol” talvez nunca tenha sido tão verdadeira.
Diáspora, neocolonialismo e globalização
Mas essa mudança não aconteceu por acaso e atende por um nome conhecido nas Ciências Humanas: diáspora. Mais do que um conceito histórico ligado à dispersão de povos, ela explica como sucessivas ondas migratórias espalharam comunidades inteiras pelo planeta, criando laços simultâneos entre diferentes países.
No futebol, esse processo ganhou uma dimensão inédita. Filhos e netos de imigrantes africanos cresceram em centros de excelência da Europa, receberam formação esportiva altamente qualificada, mas mantiveram vínculos culturais e afetivos com a terra de seus pais. Quando chega o momento da escolha, muitos optam por defender essas seleções.
Marrocos talvez seja o exemplo mais emblemático. Na campanha histórica do quarto lugar na Copa de 2022, a maioria absoluta do elenco nasceu fora do país. Achraf Hakimi e Munir El Haddadi nasceram na Espanha. Hakim Ziyech. Noussair Mazraoui e Sofyan Amrabat na Holanda. E, mesmo assim, todos escolheram vestir a camisa marroquina. Não porque fossem menos espanhóis ou holandeses, mas porque também eram marroquinos. A identidade deixou de ser uma escolha exclusiva e passou a ser múltipla.
O mesmo acontece com Senegal. Kalidou Koulibaly e Iliman Ndiaye nasceram na França. Ismaïla Sarr iniciou sua carreira no Senegal, mas construiu praticamente toda sua formação profissional na Europa. O país africano reúne jogadores espalhados pelas principais ligas do planeta e já não depende exclusivamente do desenvolvimento interno de seu futebol.
A Argélia vive fenômeno semelhante. Riyad Mahrez, Houssem Aouar e Amine Gouiri nasceram na França. Praticamente todos os jogadores cresceram em centros europeus, mas optaram por representar o país de origem familiar.
Essa transformação altera completamente o equilíbrio competitivo, pois não se trata apenas de revelar talentos, mas de combinar duas riquezas: a infraestrutura europeia com a identidade africana.
Mas essa leitura também possui outro lado, pois há quem enxergue nesse processo uma nova forma de dependência. Alguns estudiosos apontam que as grandes ligas europeias continuam funcionando como centros de captação global de talentos, concentrando recursos, treinamento e visibilidade.
Nesse raciocínio, o continente africano continuaria exportando matéria-prima humana enquanto a Europa permanece responsável pela industrialização esportiva. É uma leitura que dialoga, em certa medida, com conceitos do neocolonialismo. Até porque as antigas metrópoles continuam exercendo enorme influência econômica e cultural sobre antigas colônias; agora não mais através da ocupação territorial, mas do mercado, do esporte e da circulação internacional de profissionais.
Ao mesmo tempo, há outra interpretação igualmente legítima. Nunca tantas seleções africanas chegaram às Copas tão preparadas, com tantos treinadores qualificados e uma geração tão numerosa disputando as principais ligas do mundo. Talvez isso represente justamente o contrário: uma emancipação esportiva utilizando as próprias ferramentas da globalização.
Potências tradicionais também mudaram
Basta olhar para as escalações dos times e as imagens dos jogadores cantando seus hinos nacionais para comprovar que as grandes seleções também passaram a ser resultado da imigração e o futebol apenas vem reproduzindo aquilo que aconteceu nas sociedades.
Favorita ao título, a França tornou-se um símbolo dessa nova realidade. Kylian Mbappé tem pai camaronês e mãe argelina. Paul Pogba é filho de guineenses. N'Golo Kanté possui origem malinense. Ousmane Dembélé descende de mauritanos/senegaleses e malinenses. Aurélien Tchouaméni é filho de camaroneses. E esta é a França dos dias de hoje.
Em busca de “fazer o futebol voltar pra casa”, a Inglaterra segue caminho semelhante. Bukayo Saka e Eberechi Eze são descendentes de nigerianos. Jude Bellingham representa uma nova geração multicultural do futebol inglês. Marc Guéhi nasceu na Costa do Marfim.
A Bélgica viu Romelu Lukaku, filho de congoleses, tornar-se seu maior artilheiro histórico. A Holanda há muito incorpora à sua seleção descendentes do Suriname e das Antilhas. Portugal convive naturalmente com atletas ligados às antigas colônias africanas.
Até mesmo a Alemanha tetracampeã de 2014 já refletia esse novo mundo, com Miroslav Klose e Lukas Podolski nascidos na Polônia, Mesut Özil de origem turca e Jérôme Boateng filho de ganês.
Fronteiras fluidas
Por isso, talvez seja um erro olhar para Cabo Verde, Marrocos ou Egito como exceções românticas. Afinal, eles são parte de uma transformação muito maior em que as fronteiras continuam existindo nos mapas políticos, mas felizmente deixaram de delimitar o talento.
A Copa de 2026 mostra que o futebol já não pertence apenas aos países tradicionalmente ricos ou campeões, mas às histórias humanas que cruzam oceanos, atravessam continentes e carregam consigo culturas inteiras. Cada seleção tornou-se um mosaico de identidades, memórias e trajetórias migratórias. Talvez este seja o maior legado deste Mundial que, ironicamente, vem criando, como nunca antes na História, obstáculos e restrições para os atletas, comissões técnicas e até turistas estrangeiros.
A Copa do Mundo da América do Norte não é apenas reflexo de muitas novidades e surpresas e que chamamos de "zebra" quando não corresponde com as previsões de especialistas. É o Mundial que confirma que o centro do futebol deixou de ser um lugar fixo no imaginário construído durante quase um século. Hoje, ele está onde houver talento, oportunidade e pertencimento. Num mundo em permanente movimento, o futebol também aprendeu a migrar e, ao fazer isso, redesenhou o próprio mapa do planeta.
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